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"Populismo eleitoral de Bolsonaro já aparece no mercado"

Para o ex-presidente do BC, a economia enfraquecida em 2022 aumenta as chances de ruptura institucional

20 ago 2021 05h02
| atualizado às 07h43
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Ex-presidente do Banco Central, Affonso Celso Pastore diz que está "comprada" uma desaceleração do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2022, ano de eleições, com a ação do BC para barrar o descontrole da inflação.

Affonso Celso Pastore é economista ex-presidente do Banco Central
Affonso Celso Pastore é economista ex-presidente do Banco Central
Foto: Flickr/Insper / O Financista

Ao Estadão, Pastore diz que o populismo eleitoral do presidente já está retratado na piora dos preços e indicadores do mercado. A euforia da "Faria Lima" (principal centro financeiro da capital paulista) e com a recuperação da economia e das contas públicas acabou, e os empresários também acordaram, avalia. "O empresariado acordou. O despertador tocou tão forte, que não deu para ficar dormindo", afirma.

"A euforia foi embora. Agora, o risco já está aparecendo na Bolsa. Acabou o entusiasmo, a Bolsa devolveu o que tinha ganhado esse ano. Esse é o clima com o qual o nosso presidente vai entrar na campanha eleitoral de 2022."

A preocupação agora é com o que Jair Bolsonaro pode fazer diante de um cenário econômico mais adverso, justamente no ano em que vai tentar a sua reeleição. Para Pastore, uma piora da economia com a combinação de inflação e juros altos, desemprego e baixo crescimento, que tira popularidade e voto em 2022, pode levar o presidente a forçar uma ruptura institucional. "O presidente está dizendo que ele nega o resultado da eleição. Isso é muito grave", afirma. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

O mercado estava eufórico há alguns meses, a Bolsa subindo e o dólar cotado a menos de R$ 5. O que mudou?

A inflação é sempre o bandido do filme. Nesse período, ela foi o mocinho. Quando o ministro (da Economia) Paulo Guedes e o Arthur Lira (presidente da Câmara) fecharam o acordo do Orçamento ninguém contava com o crescimento do PIB nominal. Têm vários impostos que crescem com o PIB nominal. Tivemos a arrecadação tributária crescendo muito e vamos chegar com um déficit bem menor, abaixo de 1,5% do PIB. O mercado financeiro se animou. Disseram: 'Que coisa boa! Baixou o risco'. A Faria Lima entrou em festa. A inflação acelerou e o espaço no teto de gastos será menor. E quando estava nesse ponto caiu na cabeça do Paulo Guedes um meteoro chamado precatório (dívidas judiciais que a União precisa quitar).

O cenário de agora de piora de outros indicadores pode empurrar o presidente Bolsonaro para uma agenda mais populista eleitoral?

Eu acho que ele vai tentar fazer um programa Bolsa Família maior. Na democracia, cada pessoa é um voto. O desempregado e o pobre têm o mesmo voto que o presidente de um banco. E tem muito mais desempregado e pobre. E o presidente precisa do voto. Quer ele olhe isso do ponto de vista humanitário, quer seja populista, que é o que eu acho que ele é, vai tentar fazer esse programa. Só que ele não tem espaço por causa do aumento dos precatórios. Ele manda uma PEC de parcelamento dos precatórios. Não muda o teto, mas muda a lei e pensa que está todo mundo distraído. Mas não está. O câmbio, que tinha chegado em R$ 5, está agora em R$ 5,30. A taxa de juros de 10 anos, que andava lá por 8%, já está acima de 10%. A euforia foi embora. Agora, o risco já está aparecendo na Bolsa. Acabou o entusiasmo, a Bolsa devolveu o que tinha ganhado esse ano. Esse é o clima com o qual o nosso presidente vai entrar na campanha eleitoral de 2022.

Qual será a prioridade dele?

A única prioridade que eu consigo ver na cabeça do Bolsonaro é se reeleger. Ele tem razões familiares, pessoais, de todos os tipos, a ponto de hostilizar as instituições e fazer uma campanha contra o voto eletrônico. A ponto de anunciar que vai pedir impeachment de ministros do Supremo, que estão simplesmente exercendo a sua função. Entre Executivo e Legislativo, a não ser a postura do Senado que está mais sóbria, eu tenho a impressão que há uma combinação de interesses muito forte. O Centrão está dentro do Executivo e dominando a Câmara. Independência aqui é uma questão questionável. Esse é o clima. Empresários já não estão tão quietos, porque depois daquele manifesto, já temos visto gente que saiu da casca.

Por que demorou tanto para sair da casca?

O sujeito não está acostumado. Ele não foi treinado para isso. Foi treinado para ser empresário. Ele espera que as coisas melhorem. Mas chega o momento que qualquer um sai da casca. Eu até admito que a demora seja explicável. Mas saiu, começou. O empresariado acordou. O despertador tocou tão forte que não deu para ficar dormindo. Acordou e saiu da casca.

Qual o peso da crise institucional provocada pelo presidente em afugentar os investimentos?

Do ponto de vista de insegurança jurídica sobre investimentos, é péssimo. Se esperava que haveria investimento maior no ano que vem. O governo não pode gastar mais, porque se ele gastar mais, a situação fica pior. Tem gente que cinicamente diz que o presidente não vai furar o teto, mas olha o artigo do Felipe Salto (diretor-executivo da IFI) no Estadão. No artigo, ele está dizendo: não furou o teto porque subiram com o teto. Pode até dizer em público que o teto foi atendido, mas ele mudou. Consequentemente, sobem o câmbio e juros e Bolsa cai. Isso é que me leva a dizer: o ano de 2022 é de perspectivas muito ruins.

Muitos se enganaram com essa melhora das contas públicas?

Sabe o que é miopia? Ele vê só o que está pertinho dele. Antes da minha operação de cataratas, eu usava óculos de fundo de garrafa. Quando o tirava, eu via só dois centímetros na minha frente. No campo político, muita gente é extremamente míope, horizonte curtinho, só consegue ver cinco minutos à frente.

Mas o mercado também não quis ver dessa forma por causa das apostas que tinha?

Claro. Há algum tempo eu tenho dito que tendência do real é ficar fraco e tem operador de banco, que ganha dinheiro em cima disso, e defende para os seus clientes que o real vai se valorizar. O interesse dele é o bônus, o cara se engana a si mesmo e depois toma um susto e aí já é tarde. Eu não estou dizendo que o real vai ficar fraco porque sou malévolo. Eu estou falando porque estou vendo o risco, pipocas! Não estou interessado em vender um produto falso, mas em olhar as coisas como eu vejo.

Entre a deterioração das expectativas para 2022, qual é a mais perigosa?

Se os economistas que respondem a pesquisa Focus (do Banco Central) adquirirem coragem, vão ter que começar na semana que vem em diante a reduzir a previsão de taxa de crescimento do PIB. Quando eles olharem esse clima que já chegou ao câmbio e na taxa de juros, terão que fazer previsões de subida de juros maiores do que estavam fazendo e botar a taxa de câmbio mais depreciada. Aí, vamos ver as reações. Há uma grande decepção de todo mundo em relação ao ministro Paulo Guedes. Vem o cara e diz que vai fazer um fundo para pagar precatórios. Ele diz que não sabia dos precatórios. Eu vi no Estadão o aviso que a AGU mandou. E o governo não se mexeu.

O ministro Paulo Guedes está cedendo muito para ficar no cargo?

Não sei. O fato é que ele está cedendo.

Qual o risco de aprovação de projeto às pressas, com o da reforma do Imposto de Renda, que pode aumentar as distorções?

O Centrão e o governo são extremamente sensíveis aos grupos de pressão da sociedade. Quantos votos os caras que estão no Simples têm? Tem muito voto? Então alivia para eles. Quantos votos tem quem está no lucro presumido? Alivia para eles. Não é uma reforma do Imposto de Renda feita em cima de princípios econômicos. Para poder ter isso, teria que ter um ministro da Economia que trabalhasse para obter uma reforma que fosse para o benefício do País, da sociedade como um todo e não dos grupos de pressão que querem se defender. Ele não tomou nenhuma iniciativa nessa direção e não atuou como ministro da Economia. A reforma foi para o Congresso, que é uma caixa de ressonância e que responde aos grupos de pressão, quaisquer que eles sejam. Nem o Congresso nem o ministro da Economia estão olhando o Brasil, pensando em melhorar o crescimento e a distribuição de renda.

A combinação de menor crescimento, inflação alta e desemprego em 2022 não pode levar o presidente a acionar mais gastos para reverter esses problemas?

Há uma probabilidade alta que ele faça isso quando enxergar que a popularidade dele está baixa e que corre risco. Ele é um populista. Só que não precisa esperar isso acontecer para que apareça no preço dos ativos (dólar, juros, Bolsa).

O sr. quer dizer que o populismo eleitoral do presidente já está nos preços?

Já está aparecendo. Não posso dizer que está inteiro nos preços. Num pedaço dos preços, já está lá. O que é essa crítica do Felipe Salto? É uma crítica ao populismo dele. O mercado já percebeu que o teto de gasto é volúvel, flexível. Sabe-se que não se consegue segurar a inflação se não tiver uma âncora. Uma âncora flutuante não segura nada. A âncora fiscal que nós temos é flutuante. Não serve!

No cenário de hoje, a economia vai jogar contra ou a favor do presidente em 2022?

Inflação alta, desemprego elevado, crescimento baixo é cenário hostil a qualquer governo. O que precisamos ver é qual será a reação do governo a isso. Só que o presidente diz o seguinte: 'se não for eu, a eleição é fajuta'. Será que ele vai em frente? O temor é que isso abra a possibilidade de uma crise institucional e um problema mais sério no campo político.

Como o sr. traduz isso?

O presidente está dizendo que ele nega o resultado da eleição. Isso é muito grave.

Uma piora da economia, que tira voto em 2022, pode levar o presidente a forçar a ruptura institucional?

Exatamente isso com todas as letras.

Dos três problemas de agora, inflação, desemprego e risco de crescimento menor, qual é o mais grave?

Todos eles, porque vêm juntos.

O BC sinalizou que terá que derrubar o crescimento econômico para controlar a aceleração da inflação. Estão caindo na real?

Esse negócio não é imediato. Tem a velha história de que as defasagens da política monetária (o controle da inflação pela calibragem da Selic) são longas. A taxa de juros está subindo agora e ela só estará no nível restritivo daqui a alguns meses. Isso vem no ano que vem. Em 2021, o Brasil se recuperou mais depressa em parte porque teve um impulso vindo das exportações. Como estávamos numa fase de política monetária estimulante (ou seja, com redução da Selic), isso levou a um crescimento adicional de demanda e tivemos neste ano uma recuperação forte. Agora, a inflação está feia. E não é uma inflação que vem só de preços administrados, só do câmbio. No índice de difusão da inflação, 70% dos preços coletados pelo IBGE para fazer o cálculo estão em ascensão. Isso está indo para as expectativas.

Qual a saída?

Quando se chega nesse estágio, o Banco Central ou vai para uma política monetária restritiva, reduzindo a demanda agregada e deliberadamente produzindo a desaceleração da economia, ou a inflação vai embora... O BC acabou caindo numa armadilha ao demorar para começar a subir juros. Ele estava excessivamente preocupado com a recuperação em V da economia. A retórica dele foi de que estava buscando a meta de inflação, mas na prática ficou atrás da curva. O ponto mais importante é que os efeitos não são instantâneos. Eles demoram. Vamos ter que passar 2022 com taxa de juros alta. Isso significa que, no ano que vem, já está comprada uma forte desaceleração do crescimento.

Não se percebeu esse risco?

Ou eles são cínicos ou estão distraídos. Quando cresce todo mundo fica contente. Aí, o BC vem e diz que vai subir os juros acima da taxa neutra. Eu comecei a perguntar o que você entende como taxa de juros real acima da neutra? "Uma taxa de juros mais alta...". Eu falei: Não, é uma política restritiva que significa que o PIB atual vai cair em relação ao seu potencial. Tínhamos antes da pandemia uma estimativa de potencial de crescimento de 2%. Com a pandemia, é provável que esse potencial durante algum tempo vá ficar abaixo de 2%, porque tem empresa que foi muito ferida durante a recessão, tem desemprego. Imagina, por exemplo, um crescimento de 1% . Poderemos ter facilmente um ou outro trimestre em que o crescimento seja negativo.

Estadão
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