O que esperar de Lula na economia após virada histórica e conquista do quarto mandato
Lula, reeleito para presidir o Brasil, terá de lidar com os problemas que seu próprio governo criou na economia
Reeleito para o quarto mandato, Lula enfrentará forte desconfiança do mercado e o desafio de conter a dívida pública, que atingiu 82,87% do PIB. A vitória contra Flávio Bolsonaro deve gerar volatilidade financeira imediata, sob temores de descontrole fiscal devido a promessas de campanha que exigirão remanejamentos bilionários. Além da indefinição sobre o comando da Fazenda, o presidente lidará com a resistência do Congresso e o desafio de equilibrar gastos sociais sem apoio a privatizações.
BRASÍLIA — Reeleito presidente no domingo, 25, em uma virada histórica, com 64 milhões de votos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu o quarto mandato da população brasileira e terá de lidar com os problemas que ele mesmo criou na economia.
Em seu terceiro mandato, o endividamento do governo geral saltou de 71,68% do PIB, em dezembro de 2022, para 82,87% em agosto de 2026, último dado disponível - o que forçará Lula a adotar medidas concretas para conter a disparada da dívida e evitar uma crise econômica.
Durante a campanha, o presidente não deu indicações claras sobre como promete implementar o ajuste. Ao contrário, afirmou que fazer superávit primário era "babaquice" e lançou mão de um pacote de medidas que supera R$ 400 bilhões.
Para vencer a disputa com Flávio Bolsonaro (PL), Lula fez uma série de promessas que tendem a agravar o quadro e precisarão ser pagas: reajuste do Bolsa Família, passe livre no transporte público aos fins de semana, canetas emagrecedores no SUS, perdão de dívidas tributárias e envio de Pix para MEIs, Pé-de-Meia universitário, além de uma terceira rodada do programa Desenrola, entre outros.
No mercado financeiro, a vitória do petista tende a provocar uma forte volatilidade sobre o preço dos ativos brasileiros, já que os investidores haviam apostado em uma vitória do candidato do PL. O dólar deve abrir em alta, assim com os juros futuros, enquanto a Bolsa tende a sofrer fortes perdas.
"A expectativa é de queda muito forte do Ibovespa, podendo ficar abaixo de 190 mil pontos. O mercado estava posicionado para a vitória do Flávio Bolsonaro, com expectativa de algum ajuste fiscal. O dólar também pode voltar a subir e romper a marca de R$ 5,20", afirmou Eduardo Velho, JF Trust Gestora de Recursos.
Ministério da Fazenda
Uma das principais incertezas sobre o governo Lula 4 é quem será o homem forte da economia. Lula pode manter o atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, que foi secretário executivo de Fernando Haddad na pasta e subiu ao posto quando o político tentou vencer as eleições para o governo de São Paulo.
Outro nome que corre por fora para ocupar a Fazenda é o do atual ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti. Ele tem bom trânsito no Partido dos Trabalhadores (PT) e já foi chamado por Lula de "mágico para aparecer dinheiro".
Haddad é cotado para a Casa Civil no novo mandato. Caso seja escolhido, ele tentará manter Durigan no posto, tornando-se assim o homem forte do governo. O seu desempenho na disputa contra Tarcísio de Freitas (Republicanos), contudo, com a derrota no primeiro turno para o governo de São Paulo, enfraqueceu Haddad politicamente.
Para Eduardo Velho, a escolha de um desses nomes deve ser vista pelo mercado como uma continuidade da atual política econômica, o que será mal recebido pelos investidores. Por outro lado, Lula tem também a oportunidade de surpreender positivamente.
"Se fosse um nome novo, mais alinhado ao ajuste fiscal, isso daria um impacto positivo. Se ficar com Dario Durigan ou Moretti, aí é um impacto negativo, porque vai ter a perspectiva e manutenção da política econômica atual", afirmou.
Ajuste fiscal
Para controlar a escalada da dívida, a equipe econômica promete entregar um resultado primário positivo de 0,5% do PIB em 2027. Esse compromisso, contudo, é visto com ceticismo pelo mercado financeiro.
Para o economista chefe da Austin Rating, Alex Agostini, Lula enfrentará um quadro difícil na economia, com a desconfiança dos investidores, e também com o Congresso, pelo perfil dos deputados e senadores eleitos.
"É muito difícil de acreditar que um governo Lula 4 será de sobriedade fiscal. Lula está em modo sindicalista, o que eu acho louvável, de querer ajudar o povo. O problema é que a gente precisa ter a contrapartida disso, que são os recursos no Orçamento", afirmou.
"O Congresso virá com muito revanchismo, no modo quanto pior melhor. Não vai ser só uma oposição; vai ser uma oposição irracional, porque o que vai fazer perder toda a economia", pontuou.
Em seu programa, Lula não propõe programa de privatizações ou venda de ativos para diminuir a dívida, e faz uma defesa do Estado como indutor do desenvolvimento. A proposta petista cita concessões de infraestrutura, mas dentro de uma estratégia que combina os setores público e privado.
Terminado o primeiro turno, o petista terá que ajustar o Orçamento de 2027 para encaixar as promessas de campanha. O Ministério do Planejamento e Orçamento calcula que serão necessários remanejar R$ 20 bilhões no total com as medidas, considerando economias em algumas rubricas e novas inclusões, como o reajuste do Bolsa Família e o Pix de R$ 5 mil para microempreendedores individuais.
O número, porém, pode ser maior. A XP Investimentos calcula que podem ser necessários ajustes de até R$ 83 bilhões, incluindo ampliação do Pé-de-Meia para todos os estudantes do ensino médio e universitários de baixa renda, canetas emagrecedoras, e subvenção de combustíveis, além de outras benesses. No caso dos combustíveis, mesmo que o programa seja encerrado em 2026, parte das despesas será paga só no ano que vem, gerando impactos sobre o Orçamento de 2027.
Salário mínimo e reforma tributária
A equipe de Lula promete manter a regra atual do salário mínimo, que prevê o reajuste pela inflação mais a variação do PIB de dois anos antes, limitando o ganho real (descontada a inflação) a 2,5% ao ano - o mesmo limite de crescimento de despesas do arcabouço.
O presidente também refutou a hipótese de alterar as regras de indexação dos pisos com a saúde e educação e negou que fará alterações no Benefício de Prestação Continuada (BPC). Essas são rubricas que vêm pressionando o Orçamento, e especialistas defendem mudanças para o governo conseguir o reequilíbrio fiscal.
Sobre a reforma tributária, Durigan defende a implementação da proposta. "Quando a oposição fala em rever a (reforma) tributária, em suspender a tributária, de novo, também não nos surpreende, porque é uma oposição que quer o País no passado; gosta da ditadura, gosta da época em que mulher não votava", disse o ministro, em entrevista concedida ao Estadão.
Em relação ao combate aos privilégios, a campanha de Lula não detalha quais medidas serão adotadas em um próximo mandato, mas afirma que o resultado fiscal virá, em parte, do combate às distorções.
A equipe econômica cita duas frentes que podem ser endereçadas: a revisão de privilégios na Previdência, como no caso dos militares e da elite do funcionalismo público, e o combate à pejotização abusiva, obrigando empresas com elevado nível de trabalhadores pejotizados a fazer uma contribuição previdenciária.
Na política social, Lula fala em manter, aperfeiçoar e ampliar as políticas de proteção social, como o Bolsa Família e o Pé-de-Meia.
Indústria digital
Durante ato de campanha em São Luís, no Maranhão, Lula disse que umas das prioridades de seu mandato será dar incentivos para o desenvolvimento de uma indústria digital no País.
"Vamos continuar criando emprego de qualidade e formando profissionais. Porque nos próximos quatro anos, o Brasil vai investir muito na indústria digital, indústria verde e indústria criativa", disse Lula.
No discurso da vitória, neste domingo, 25, Lula renovou promessas de investir na saúde, universalizar o ensino integral até o ensino médio, dar a bolsa do Pé-de-Meia para todos os estudantes do ensino médio e para universitários de baixa renda, criar uma inteligência artificial (IA) brasileira e atrair datacenters para o Brasil.
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