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O que esperar de Lula na economia após virada histórica e conquista do quarto mandato

Lula, reeleito para presidir o Brasil, terá de lidar com os problemas que seu próprio governo criou na economia

26 out 2026 - 00h59
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Resumo
Reeleito para o quarto mandato, Lula enfrentará forte desconfiança do mercado e o desafio de conter a dívida pública, que atingiu 82,87% do PIB. A vitória contra Flávio Bolsonaro deve gerar volatilidade financeira imediata, sob temores de descontrole fiscal devido a promessas de campanha que exigirão remanejamentos bilionários. Além da indefinição sobre o comando da Fazenda, o presidente lidará com a resistência do Congresso e o desafio de equilibrar gastos sociais sem apoio a privatizações.

BRASÍLIA — Reeleito presidente no domingo, 25, em uma virada histórica, com 64 milhões de votos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu o quarto mandato da população brasileira e terá de lidar com os problemas que ele mesmo criou na economia.

Em seu terceiro mandato, o endividamento do governo geral saltou de 71,68% do PIB, em dezembro de 2022, para 82,87% em agosto de 2026, último dado disponível - o que forçará Lula a adotar medidas concretas para conter a disparada da dívida e evitar uma crise econômica.

Durante a campanha, o presidente não deu indicações claras sobre como promete implementar o ajuste. Ao contrário, afirmou que fazer superávit primário era "babaquice" e lançou mão de um pacote de medidas que supera R$ 400 bilhões.

Reeleito presidente no domingo, 25, em uma virada histórica, com 64 milhões de votos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu o quarto mandato da população brasileira e terá de lidar com os problemas que ele mesmo criou na economia.
Reeleito presidente no domingo, 25, em uma virada histórica, com 64 milhões de votos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu o quarto mandato da população brasileira e terá de lidar com os problemas que ele mesmo criou na economia.
Foto: Werther Santana/Estadao / Estadão

Para vencer a disputa com Flávio Bolsonaro (PL), Lula fez uma série de promessas que tendem a agravar o quadro e precisarão ser pagas: reajuste do Bolsa Família, passe livre no transporte público aos fins de semana, canetas emagrecedores no SUS, perdão de dívidas tributárias e envio de Pix para MEIs, Pé-de-Meia universitário, além de uma terceira rodada do programa Desenrola, entre outros.

No mercado financeiro, a vitória do petista tende a provocar uma forte volatilidade sobre o preço dos ativos brasileiros, já que os investidores haviam apostado em uma vitória do candidato do PL. O dólar deve abrir em alta, assim com os juros futuros, enquanto a Bolsa tende a sofrer fortes perdas.

"A expectativa é de queda muito forte do Ibovespa, podendo ficar abaixo de 190 mil pontos. O mercado estava posicionado para a vitória do Flávio Bolsonaro, com expectativa de algum ajuste fiscal. O dólar também pode voltar a subir e romper a marca de R$ 5,20", afirmou Eduardo Velho, JF Trust Gestora de Recursos.

Ministério da Fazenda

Uma das principais incertezas sobre o governo Lula 4 é quem será o homem forte da economia. Lula pode manter o atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, que foi secretário executivo de Fernando Haddad na pasta e subiu ao posto quando o político tentou vencer as eleições para o governo de São Paulo.

Outro nome que corre por fora para ocupar a Fazenda é o do atual ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti. Ele tem bom trânsito no Partido dos Trabalhadores (PT) e já foi chamado por Lula de "mágico para aparecer dinheiro".

Haddad é cotado para a Casa Civil no novo mandato. Caso seja escolhido, ele tentará manter Durigan no posto, tornando-se assim o homem forte do governo. O seu desempenho na disputa contra Tarcísio de Freitas (Republicanos), contudo, com a derrota no primeiro turno para o governo de São Paulo, enfraqueceu Haddad politicamente.

Reeleito após virada, Lula terá de lidar com os problemas que seu próprio governo criou na economia
Reeleito após virada, Lula terá de lidar com os problemas que seu próprio governo criou na economia
Foto: Wilton Junior/Estadão / Estadão

Para Eduardo Velho, a escolha de um desses nomes deve ser vista pelo mercado como uma continuidade da atual política econômica, o que será mal recebido pelos investidores. Por outro lado, Lula tem também a oportunidade de surpreender positivamente.

"Se fosse um nome novo, mais alinhado ao ajuste fiscal, isso daria um impacto positivo. Se ficar com Dario Durigan ou Moretti, aí é um impacto negativo, porque vai ter a perspectiva e manutenção da política econômica atual", afirmou.

Ajuste fiscal

Para controlar a escalada da dívida, a equipe econômica promete entregar um resultado primário positivo de 0,5% do PIB em 2027. Esse compromisso, contudo, é visto com ceticismo pelo mercado financeiro.

Para o economista chefe da Austin Rating, Alex Agostini, Lula enfrentará um quadro difícil na economia, com a desconfiança dos investidores, e também com o Congresso, pelo perfil dos deputados e senadores eleitos.

"É muito difícil de acreditar que um governo Lula 4 será de sobriedade fiscal. Lula está em modo sindicalista, o que eu acho louvável, de querer ajudar o povo. O problema é que a gente precisa ter a contrapartida disso, que são os recursos no Orçamento", afirmou.

"O Congresso virá com muito revanchismo, no modo quanto pior melhor. Não vai ser só uma oposição; vai ser uma oposição irracional, porque o que vai fazer perder toda a economia", pontuou.

Em seu programa, Lula não propõe programa de privatizações ou venda de ativos para diminuir a dívida, e faz uma defesa do Estado como indutor do desenvolvimento. A proposta petista cita concessões de infraestrutura, mas dentro de uma estratégia que combina os setores público e privado.

Terminado o primeiro turno, o petista terá que ajustar o Orçamento de 2027 para encaixar as promessas de campanha. O Ministério do Planejamento e Orçamento calcula que serão necessários remanejar R$ 20 bilhões no total com as medidas, considerando economias em algumas rubricas e novas inclusões, como o reajuste do Bolsa Família e o Pix de R$ 5 mil para microempreendedores individuais.

O número, porém, pode ser maior. A XP Investimentos calcula que podem ser necessários ajustes de até R$ 83 bilhões, incluindo ampliação do Pé-de-Meia para todos os estudantes do ensino médio e universitários de baixa renda, canetas emagrecedoras, e subvenção de combustíveis, além de outras benesses. No caso dos combustíveis, mesmo que o programa seja encerrado em 2026, parte das despesas será paga só no ano que vem, gerando impactos sobre o Orçamento de 2027.

Salário mínimo e reforma tributária

A equipe de Lula promete manter a regra atual do salário mínimo, que prevê o reajuste pela inflação mais a variação do PIB de dois anos antes, limitando o ganho real (descontada a inflação) a 2,5% ao ano - o mesmo limite de crescimento de despesas do arcabouço.

O presidente também refutou a hipótese de alterar as regras de indexação dos pisos com a saúde e educação e negou que fará alterações no Benefício de Prestação Continuada (BPC). Essas são rubricas que vêm pressionando o Orçamento, e especialistas defendem mudanças para o governo conseguir o reequilíbrio fiscal.

Sobre a reforma tributária, Durigan defende a implementação da proposta. "Quando a oposição fala em rever a (reforma) tributária, em suspender a tributária, de novo, também não nos surpreende, porque é uma oposição que quer o País no passado; gosta da ditadura, gosta da época em que mulher não votava", disse o ministro, em entrevista concedida ao Estadão.

Em relação ao combate aos privilégios, a campanha de Lula não detalha quais medidas serão adotadas em um próximo mandato, mas afirma que o resultado fiscal virá, em parte, do combate às distorções.

A equipe econômica cita duas frentes que podem ser endereçadas: a revisão de privilégios na Previdência, como no caso dos militares e da elite do funcionalismo público, e o combate à pejotização abusiva, obrigando empresas com elevado nível de trabalhadores pejotizados a fazer uma contribuição previdenciária.

Na política social, Lula fala em manter, aperfeiçoar e ampliar as políticas de proteção social, como o Bolsa Família e o Pé-de-Meia.

Indústria digital

Durante ato de campanha em São Luís, no Maranhão, Lula disse que umas das prioridades de seu mandato será dar incentivos para o desenvolvimento de uma indústria digital no País.

"Vamos continuar criando emprego de qualidade e formando profissionais. Porque nos próximos quatro anos, o Brasil vai investir muito na indústria digital, indústria verde e indústria criativa", disse Lula.

No discurso da vitória, neste domingo, 25, Lula renovou promessas de investir na saúde, universalizar o ensino integral até o ensino médio, dar a bolsa do Pé-de-Meia para todos os estudantes do ensino médio e para universitários de baixa renda, criar uma inteligência artificial (IA) brasileira e atrair datacenters para o Brasil.

Estadão
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