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Mercado indica reação negativa com eleição de Lula

Após alta de 8,8% na semana posterior após o primeiro turno, Bolsa tende a reagir no sentido oposto na segunda-feira; em Nova York, índice que reúne as maiores empresas da bolsa brasileira recuava 18,9% e, no Japão, Next Funds Ibovespa Linked caía 11,8%

25 out 2026 - 22h12
(atualizado às 22h31)
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Resumo
O mercado financeiro projeta forte reação negativa à reeleição de Lula, surpreendido após precificar a vitória de Flávio Bolsonaro. Analistas e gestores preveem queda superior a 5% no Ibovespa, risco de circuit breaker e desvalorização do real, reflexos já sentidos em fundos brasileiros no exterior. Diante de um cenário fiscal mais deteriorado, com dívida pública elevada e déficit primário, especialistas alertam que a reversão desse pessimismo dependerá de um ajuste fiscal rigoroso e crível.

O mercado deve ter reação negativa na segunda-feira, 26, após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) neste domingo. A Bolsa chegou a subir 8,8% na primeira semana depois do primeiro turno, quando Flávio Bolsonaro (PL) obteve o maior número de votos em relação aos demais competidores. Quando a disputa apertou, mostrando a reação do presidente, o indicador devolveu 2,3% em três pregões.

"A vitória de Lula foi uma surpresa para o mercado, que vinha demonstrando preferência por Flávio e antecipando sua vitória", afirma Daniel Wainstein, co-CEO e sócio fundador da Seneca Evercore. "O Ibovespa acumulou 27,3% de aumento neste ano, e parte da expectativa de mudança de governo estava incorporada às cotações. Com a vitória de Lula, o mercado vai rever essa expectativa e deveremos ter uma correção no mercado."

Apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reúnem na Av. Paulista
Apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reúnem na Av. Paulista
Foto: Taba Benedicto/Estadão / Estadão

Na sexta, o Citi divulgou um levantamento no qual ouviu opiniões de 73 gestores de fundos de ações e multimercado. As reações esperadas, em caso de vitória de Lula, eram bastante negativas. Para a bolsa, a expectativa de 80% dos entrevistados era de queda superior a 5% no Ibovespa na segunda-feira. Outros 7% projetavam retração entre 1% e 5%. Já 3% preveem que o índice pode valorizar de 1% a 5%.

A cotação do real também deve ser influenciada pela vitória de Lula. Dos entrevistados pelo Citi, 63% esperam desvalorização do real acima de 5%. Outros 28% acreditam que a depreciação deve ficar entre 2% a 5%. Já 6% acreditam numa alta de mais de 5% do real.

Os ativos brasileiros negociados no exterior começavam a ir no sentido negativo, já na noite de domingo. O EWZ, fundo de índice que reúne as maiores empresas da bolsa brasileira negociado em Nova York, recuava 18,29% no pregão noturno, cotado a US$ 34,80, uma perda de US$ 7,79 em relação ao fechamento de sexta-feira.

O Next Funds Ibovespa Linked, principal fundo de índice (ETF) brasileiro negociado na Bolsa de Tóquio, opera em forte queda no pregão desta segunda-feira (hora local). Há pouco, a cota estava sendo negociada a 288 ienes, queda de 11,80%.

O diretor de tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, afirma que os ativos domésticos devem enfrentar forte estresse já nesta segunda-feira, 26, com interrupção dos negócios logo após o leilão de abertura. A perspectiva é de um circuit breaker (interrupção dos negócios) na Bolsa, com queda de mais de 10% do Ibovespa, e de estouro dos limites de oscilação tanto do dólar futuro quanto dos juros.

"Qualquer que fosse o vencedor, haveria muita dificuldade com a questão fiscal, por conta do tamanho das promessas. Mas o mercado daria um voto de confiança para Flávio. No caso de Lula, não vai haver complacência. Não vai ter o benefício da dúvida", afirma Weigt.

Para ele, é muito provável que o Banco Central promova uma intervenção no mercado de câmbio, com venda de dólares à vista, para prover liquidez e evitar disfuncionalidades diante de uma demanda mais forte pela moeda americana. "O BC vai cumprir seu papel de dar liquidez, mas não vai ter como segurar o dólar, que deve já abrir acima de R$ 5,30", diz.

Reversão de expectativa, só com sinais concretos de ajuste fiscal

Para Wainstein, da Seneca, é possível haver uma reversão dessa expectativa negativa, caso haja sinais muito concretos de um ajuste fiscal relevante, redução dos juros de longo prazo e recuperação dos lucros das empresas. Também se houver compromisso convincente com a estabilização da dívida e respeito à autonomia do Banco Central. "A composição da equipe econômica será fundamental para essa avaliação inicial, assim como o Lula fez no passado tendo alguém como Henrique Meirelles em sua equipe", diz.

Isso porque, afirma, Lula começará o próximo mandato em uma situação fiscal mais difícil do que a encontrada em 2023. A dívida bruta está próxima de 83% do PIB, contra 72% no fim de 2022, uma diferença de cerca de 11 pontos percentuais. Em 2023, ele assumiu após um superávit primário de 1,25% do PIB e, agora, há um déficit de aproximadamente 0,6% nos últimos 12 meses. "O governo atual continua, mas com uma clara necessidade de mudar sua trajetória", afirma Wainstein.

O setor público acumulou R$ 1,2 trilhão de juros nos últimos 12 meses, o equivalente a quase 9% do PIB. Com esse custo, fica muito difícil estabilizar a dívida. "Lula não tem defendido o controle dos gastos com a clareza que considero necessária", diz ele. "Espero que reconheça que adiar o ajuste também compromete o financiamento das prioridades sociais do próprio governo."

Wainstein afirma ainda que a oposição terá mais força para definir a agenda e condicionar votações. "Lula precisará negociar muito além dos partidos que o apoiaram na eleição, e essa não será uma tarefa simples", disse.

Para ele, a Previdência deveria o principal foco e prioridade do governo. O gasto previsto com o INSS no projeto orçamentário de 2026 ultrapassava R$ 1,1 trilhão. "Não se trata de propor um corte linear nas aposentadorias, mas com a população de 65 anos ou mais tendo crescido 57% entre 2010 e 2022, é necessário discutir regras futuras, transições e diferenças entre regimes, preservando direitos adquiridos e demonstrando o impacto atuarial", diz. "Depois da Previdência, o governo deveria rever pessoal e encargos, uma rubrica de cerca de R$ 457 bilhões no projeto orçamentário de 2026."

Estadão
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