'O estrangeiro só acredita quando vê; e desta vez ele viu', diz Rodrigues, sobre o agro na COP-30
Na abertura do 'Summit Agro Estadão 2025', o ex-ministro defendeu que o Brasil assuma, de maneira estratégica, o protagonismo da agricultura tropical
Ex-ministro da Agricultura, coordenador-geral do FGVAgro e colunista do Estadão, Roberto Rodrigues afirmou no Summit Agro Estadão 2025, em São Paulo, que a participação brasileira na COP-30, encerrada na semana passada em Belém (PA), marcou um salto histórico na projeção internacional da agricultura tropical do País. "A COP-30 foi muito melhor do que esperávamos", afirmou durante sua palestra de abertura do evento, nesta quinta-feira, 27.
Rodrigues destacou que o Brasil conseguiu mostrar ao mundo, de forma concreta, a dimensão tecnológica e sustentável do seu agronegócio na AgriZone, espaço destinado ao setor agropecuário montado na sede da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) na capital paraense.
Segundo ele, mais de 40 delegações estrangeiras visitaram a vitrine tecnológica — espaço que exibiu sistemas de baixa emissão, integração lavoura-pecuária-floresta e até cultivos inesperados, como trigo plantado na capital paraense. Os visitantes, segundo o ex-ministro, saíram "perplexos" com o nível de inovação. "Não adianta fazer 500 discursos. O estrangeiro só acredita quando vê. E desta vez ele viu", afirmou, ao destacar que até brasileiros que atuam no setor ficaram impressionados com a demonstração.
Rodrigues avaliou que a COP-30 superou expectativas tanto em organização quanto em resultados políticos. Ele elogiou o trabalho do embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP-30 e responsável por conduzir negociações complexas em meio a divergências internacionais.
"Embora temas como biocombustíveis não tenham avançado no texto final, o diplomata conseguiu inserir o assunto como prioridade para o próximo ciclo de negociações, até a COP-31, na Turquia", disse Rodrigues. Para o ex-ministro, o resultado final não refletiu toda a ambição desejada globalmente, mas abriu caminho para debates mais profundos no ano seguinte.
Rodrigues também explicou que, como enviado especial para a agricultura na COP-30, articulou no Instituto Pensar Agro (IPA) a elaboração de um documento-base para orientar a atuação do Brasil no tema.
Ele solicitou que as 56 entidades representadas pelo IPA enviassem propostas e prioridades para a consolidação de uma agenda brasileira de agricultura sustentável. Recebeu 55 documentos, que estão sendo organizados pela Fundação Getulio Vargas (FGV) para subsidiar ações de longo prazo. O objetivo, segundo ele, é tornar mais visíveis as tecnologias desenvolvidas no País e acelerar sua adoção global.
Rodrigues reforçou também que o Brasil tem condições de liderar a agenda internacional que conecta agricultura e clima, desde que consiga comunicar melhor seus resultados. Repetiu que o agro brasileiro é competitivo, tropical e sustentável — e que, quando estrangeiros testemunham isso presencialmente, deixam de lado percepções equivocadas. "Se a agricultura for bem feita, ela é solução. O Brasil mostrou isso. Agora o mundo viu", concluiu.
Protagonismo da agricultura tropical
Rodrigues defendeu que o Brasil precisa assumir, de maneira estratégica, o protagonismo da agricultura tropical — uma agenda que, segundo ele, pode não apenas impulsionar a segurança alimentar global, mas também contribuir para a paz mundial.
Rodrigues apresentou o resultado de um amplo trabalho técnico que envolveu especialistas de diferentes áreas e culminou na criação do Fórum Nacional de Agricultura Tropical. O grupo consolidou mais de 50 documentos e propostas sobre o futuro da agropecuária em regiões tropicais, sintetizados em um livro de 153 páginas.
A coordenação técnica da publicação ficou a cargo da pesquisadora Adriana Brandani, que organizou o material em duas partes: a trajetória da agricultura brasileira nos últimos 50 anos e um conjunto estruturado de recomendações para orientar políticas agrícolas de países tropicais.
O ex-ministro lembrou que, há cinco décadas, o Brasil importava 30% dos alimentos que consumia — e hoje exporta para cerca de 200 países. Essa revolução, afirmou, foi construída com tecnologia, pesquisa, aumento de produtividade e preservação ambiental, pilares que precisam ser compartilhados com o mundo em desenvolvimento. "É uma história extraordinária. Eu tenho um orgulho tão grande disso que fico até emocionado", disse.
Segundo Rodrigues, a síntese das propostas do novo fórum destaca dois desafios centrais: financiamento e regras de comércio. Sem recursos, países pobres não conseguirão replicar o modelo tecnológico desenvolvido pelo Brasil. E, mesmo com financiamento, poderão enfrentar barreiras comerciais impostas por países desenvolvidos.
"Se as regras não mudarem, ninguém entra no mercado", alertou. Ele lembrou que até a União Europeia decidiu adiar, por mais um ano, a entrada em vigor de sua legislação ambiental para o agro, reconhecendo limites práticos à implementação imediata das normas.
O material produzido reúne ainda oito blocos de propostas temáticas, que serão detalhados pelo FGV Agro. A premissa, destacou Rodrigues, é que o mundo tropical — América Latina, África Subsaariana e parte da Ásia — concentra a maior disponibilidade de terras cultiváveis e tem potencial para ser responsável pelo próximo salto global de produção agrícola.
Rodrigues também relatou os resultados da participação brasileira na COP-30, afirmando que a agricultura tropical ganhou respeito internacional por sua base tecnológica e pela sustentabilidade demonstrada. O Brasil organizou seminários sobre pecuária e metano, sobre sistemas energéticos e biocombustíveis e sobre combustíveis sustentáveis de aviação. Dados apresentados mostraram a contribuição dos biocombustíveis nacionais para a redução de emissões: etanol de cana, etanol de milho e biodiesel foram destacados como exemplos de eficiência climática.
Ainda em Belém, durante a COP, o ex-ministro reforçou uma agenda de longo prazo: o estudo Agro Brasil 2050, que pretende projetar quem produzirá e quem consumirá alimentos globalmente nas próximas décadas. Rodrigues pediu apoio dos adidos agrícolas na coleta de dados para embasar a estratégia brasileira.
O ex-ministro situou essa discussão em um cenário de forte instabilidade geopolítica, marcado por guerras, disputas comerciais e perda de protagonismo de organismos multilaterais. Para ele, o mundo vive um período de "perplexidade global" que exige uma nova força de coesão: a paz. E, segundo afirmou, não há paz sem comida, energia e emprego — áreas nas quais a agricultura tropical pode desempenhar papel decisivo.
Rodrigues afirmou que o modelo agrícola brasileiro, quando aplicado ao cinturão tropical do planeta, pode reduzir insegurança alimentar, impulsionar renda em países pobres, gerar energia renovável e promover inclusão produtiva. "O agro tropical será um patrocinador da paz mundial", declarou.
O ex-ministro afirmou ter retornado da COP-30 ainda mais confiante no papel estratégico do Brasil: "Voltei de Belém mais orgulhoso do que eu já era. Convencido de que o Brasil tem um papel fundamental para garantir paz, comida, energia, emprego e clima".
Para Rodrigues, o desafio agora é interno: a sociedade brasileira precisa desejar esse protagonismo e consolidar a visão de que o país pode — e deve — liderar a agenda global da agricultura tropical nas próximas décadas.
Combinação rara de desafios e oportunidades
Na abertura no Estadão Summit Agro 2025, o diretor de Jornalismo do Grupo Estado, Eurípedes Alcântara, destacou o "momento decisivo vivido pelo agronegócio brasileiro". Segundo ele, o setor se encontra diante de uma combinação rara de desafios regulatórios internacionais e oportunidades de expansão em mercados estratégicos.
Alcântara apontou a Lei Antidesmatamento da União Europeia como um dos principais vetores de mudança, ao exigir rastreabilidade robusta e comprovação de práticas sustentáveis em toda a cadeia produtiva. "O setor enfrenta desafios regulatórios internacionais que vão exigir adaptação, transparência e capacidade de resposta", afirmou.
Ao mesmo tempo, destacou o ambiente favorável para a expansão comercial. O Brasil encerrou 2024 com recordes de exportação, consolidando sua posição como um dos maiores fornecedores globais de alimentos e commodities. Para ele, esse avanço precisa vir acompanhado de novas estratégias de abertura e diversificação de mercados.
Entre os movimentos citados estão o acordo Mercosul-União Europeia, as negociações com países da Ásia e do Oriente Médio e o impacto do legado da COP-30.
Alcântara reforçou, ainda, a necessidade de investir em inovação e tecnologia. Segundo ele, o Brasil tem vantagens únicas — como a produção de múltiplas safras por ano, a geração de energia renovável em larga escala e práticas que unem produtividade e preservação —, mas ainda comunica pouco ao exterior sobre o que já faz. "Precisamos mostrar que o agro brasileiro é parte da solução para os desafios globais", disse.
Ao encerrar sua participação, Eurípedes Alcântara afirmou que o encontro deste ano é um convite à reflexão coletiva sobre o papel transformador do agronegócio. "O Summit Agro 2025 nos chama a pensar em como o setor pode ser motor de desenvolvimento econômico, social e ambiental", afirmou.