De criadores de conteúdo a empresários: a transformação do mercado digital brasileiro
Entrada de empresas tradicionais no digital eleva a disputa por audiência e força infoprodutores a profissionalizar gestão, equipe e operação financeira
O mercado digital brasileiro amadureceu e exige que criadores de conteúdo atuem como empresários. Com o avanço de empresas tradicionais no setor e consumidores mais exigentes, ter apenas audiência já não basta. Segundo Reinaldo Boesso, CEO da TMB, a alta competitividade impõe estruturas profissionais robustas, focadas em gestão, processos, tecnologia e soluções financeiras sofisticadas, como parcelamento via Pix e boleto, superando o improviso e garantindo a sustentabilidade dos negócios.
O mercado digital brasileiro deixou para trás a fase em que audiência, conteúdo e uma boa estratégia de venda eram suficientes para sustentar boa parte dos negócios. Cursos, mentorias e outros produtos digitais ganharam escala, as operações ficaram mais sofisticadas e o setor passou a reunir estruturas empresariais maiores, equipes especializadas e consumidores mais exigentes. Ao mesmo tempo, empresas que antes concentravam suas estratégias no ambiente físico passaram a disputar também espaço, atenção e receita no digital.
É dentro dessa transformação que Reinaldo Boesso, CEO e cofundador da TMB, fintech especializada em soluções de parcelamento via boleto e Pix para infoprodutores, acompanha a evolução do setor.
Na avaliação do especialista, uma das principais mudanças está justamente na estrutura que passou a existir por trás do infoprodutor. Se antes era mais comum encontrar operações concentradas na figura de um especialista, hoje parte relevante desse mercado já trabalha com equipes de vendas, marketing, atendimento, tecnologia e financeiro. O crescimento trouxe novas oportunidades, mas também elevou a régua para permanecer competitivo.
"Outro sinal desse amadurecimento é a presença cada vez maior de empresas já consolidadas no ambiente digital. O que antes podia ser tratado como um canal complementar passou a fazer parte das estratégias de venda, relacionamento, conteúdo e construção de audiência de companhias de diferentes setores", aponta.
Negócios tradicionais passaram a disputar o mesmo consumidor que compra cursos, acompanha especialistas, participa de comunidades e toma decisões de consumo dentro das plataformas digitais. "Esse movimento também aumenta a exigência sobre quem nasceu na internet. À medida que o mercado amadurece, experiência de compra, variedade de meios de pagamento, atendimento, segurança, capacidade de entrega e organização financeira deixam de ser diferenciais e passam a compor o básico esperado de uma operação profissional. Há, portanto, menos espaço para o despreparo", afirma Reinaldo Boesso.
O mercado cresceu e a estrutura precisou acompanhar
O avanço das empresas para os canais digitais ajuda a dimensionar essa transformação. Em 2025, os investimentos em publicidade digital chegaram a R$ 42,7 bilhões no Brasil, crescimento de 12,7% em relação a 2024, segundo o Digital Adspend 2026, do IAB Brasil em parceria com o Ibope. O dado reforça como o ambiente digital passou a ocupar uma posição mais relevante nas estratégias das empresas e tornou a disputa por atenção, relacionamento e receita mais profissionalizada.
Para Reinaldo Boesso, o avanço ajuda a mostrar como o próprio conceito de infoprodutor está mudando. "À medida que uma operação aumenta vendas, contrata pessoas, movimenta mais recursos e passa a atender milhares de consumidores, o produtor começa também a ocupar a cadeira de empresário", revela.
Essa mudança não significa que o mercado tenha deixado de depender de criatividade, audiência ou capacidade comercial. "Esses atributos passaram a dividir espaço com gestão, planejamento financeiro, processos e tecnologia. Uma empresa pode vender muito e, ainda assim, perder capacidade de crescimento se não controlar recebimentos, inadimplência, fluxo de caixa e custos da operação", destaca.
As necessidades financeiras também ficaram mais complexas
Uma das dificuldades percebidas pela fintech no mercado estava no momento da compra: consumidores interessados em cursos e mentorias que não conseguiam concluir a operação por falta de limite disponível no cartão.
Com o crescimento do setor, porém, facilitar a venda deixou de ser a única demanda. "Hoje, há o parcelamento via boleto e Pix, além de todo o cuidado com a jornada de pagamento e recuperação de valores, com o intuito de que parceiros ampliem as possibilidades de pagamento e a conversão mantendo a previsibilidade sobre os recebimentos", aponta Reinaldo Boesso.
De infoprodutor a empresário
Essa mudança de mentalidade já começou a ser incorporada às discussões do próprio setor. Nos dias 22 e 23 de outubro, a TMB realizará a sexta edição do Tem Mais nos Bastidores, evento próprio da fintech, com o tema "A Virada". A proposta desta edição é justamente discutir o momento em que o infoprodutor deixa de olhar para a atividade apenas sob a ótica da produção e das vendas e passa a administrar a operação como empresário, incorporando decisões sobre estrutura, caixa, gestão, investimento e aquisição de clientes.
Para Reinaldo Boesso, o avanço do mercado exige que essa transição aconteça de forma consciente. "À medida que o negócio cresce, o produtor passa a lidar com decisões semelhantes às de qualquer outro empreendedor: contratação, tributação, margem, crédito, investimento, atendimento, tecnologia, indicadores e planejamento de longo prazo".
A diferença é que o próprio mercado está cobrando essa mudança mais rapidamente. Com operações maiores disputando o consumidor e empresas de diferentes setores fortalecendo suas estratégias digitais, improvisações que poderiam funcionar em fases anteriores do negócio tendem a limitar o crescimento.
O futuro, portanto, não deve ser apenas de mais pessoas vendendo conhecimento pela internet, mas de negócios digitais mais profissionalizados, com produtos diversificados, estruturas financeiras mais sofisticadas e menor dependência exclusiva da imagem do criador.
Depois de uma fase marcada pela descoberta de que conhecimento, influência e audiência poderiam ser monetizados pela internet, o setor entra em uma etapa em que vender continua importante, mas saber administrar o crescimento passa a ser igualmente decisivo.
"É a partir de São José dos Campos que a TMB acompanha a transformação do mercado digital brasileiro. Sediada em uma cidade historicamente ligada à indústria, engenharia e tecnologia, a fintech cresceu nos últimos seis anos, acompanhando a profissionalização dos negócios digitais", conclui Reinaldo Boesso.
Por Carolina Lara
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