JAC Motors pede recuperação judicial com dívidas de R$ 239 milhões
Grupo SHC, responsável pela empresa automotiva no País, recorre novamente à Justiça um ano após o encerramento da primeira recuperação judicial; procurada, a JAC Motors não respondeu
O Grupo SHC, representante da JAC Motors no Brasil, entrou com seu segundo pedido de recuperação judicial, somando dívidas de R$ 239,5 milhões que chegam a quase R$ 370 milhões no passivo total. A crise foi agravada pelo retorno do imposto de importação sobre veículos eletrificados, pela falta de produção nacional e por despesas financeiras que drenaram o caixa. Com 97% das dívidas concentradas em bancos, a empresa terá 60 dias para apresentar um plano e comprovar sua viabilidade de mercado.
O Grupo SHC, que representa a JAC Motors no Brasil, entrou com novo pedido de recuperação judicial. As dívidas somam R$ 239,5 milhões. A petição feita na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central de São Paulo (TJ-SP) reúne 44 empresas da companhia do empresário Sergio Habib.
Procurada, a JAC Motors não respondeu.
Conforme a petição, a crise é resultado da retomada do imposto de importação sobre veículos eletrificados. O grupo diz que mais de 35% do faturamento foi para o serviço da dívida bancária e financeira. Segundo informações da Exame, bancos e fundos enfrentam dificuldades para localizar veículos dados como garantia de empréstimos, além de um grande banco alegar ter mais de R$ 100 milhões a receber da companhia.
De acordo com Alcides Wilhelm, sócio da WLM Advogados, embora o valor das dívidas seja "pouco" se observado de forma isolada, a situação é mais delicada por ser a segunda recuperação judicial do grupo. Em maio de 2025, a companhia encarava o encerramento da primeira recuperação judicial, que teve dívidas declaradas em R$ 517,7 milhões.
"O que define a gravidade de uma crise é a relação entre a dívida e a capacidade de gerar caixa, e é nesse ponto que os números do Grupo SHC preocupam. A questão central é saber se estamos diante de uma empresa viável com dívida mal estruturada ou de um negócio que deixou de se pagar", diz Wilhelm. A relação de credores aponta outros R$ 130,7 milhões que ficam fora do processo, o que eleva o endividamento total para perto de R$ 370 milhões.
Alcides Wilhelm diz que os balanços das empresas do grupo mostram uma situação financeira deteriorada. A SNS Automóveis, responsável pela importação, opera com margem bruta negativa há pelo menos dois anos e no ano passado vendeu veículos por R$ 126 milhões, abaixo dos R$ 167 milhões gastos. "Vendeu abaixo do custo", diz. Em agosto deste ano, acumulava patrimônio líquido negativo de R$ 346 milhões.
Já a NGN, principal distribuidora, teve resultado operacional de R$ 41 milhões em 2025, consumido pelas despesas financeiras, e chegou a agosto com apenas R$ 72 mil em caixa diante de R$ 210 milhões em obrigações de curto prazo.
O que acontece após aprovado o pedido de RJ
Com o processamento da recuperação, ações e execuções contra o grupo serão suspensas por 180 dias, enquanto a empresa terá 60 dias para apresentar um plano. O impacto maior recai sobre bancos e fundos de crédito, afirma o advogado. "Eles respondem por cerca de 97% da dívida sujeita ao processo. Esses credores normalmente acabam aceitando prazos longos e descontos relevantes."
Os créditos trabalhistas, de aproximadamente R$ 2,7 milhões, têm tratamento preferencial e devem ser pagos em até um ano, como indica a lei. Para os fornecedores, o que foi vendido antes do pedido entra na fila da recuperação. Por isso, o advogado estima que os fornecedores "devem ter mais cautela". Já os consumidores, o principal efeito é a incerteza sobre a disponibilidade futura de peças e assistência técnica, embora a recuperação judicial não signifique a saída da marca do País.
Impostos de importação afeta o caixa das empresas
O mercado automotivo brasileiro vive um momento de expansão. No entanto, também enfrenta aumento da concorrência, sobretudo com o avanço das marcas chinesas, afirma Cássio Pagliarini, diretor e sócio da Bright Consulting. Segundo Pagliarini, as vendas cresceram 14% em setembro, na comparação anual, e acumulam alta de quase 19% em 2026. As marcas chinesas já respondem por 21,4% das vendas, participação que tende a crescer até o final do ano.
A disputa no mercado é mais acirrada na faixa de R$ 120 mil a R$ 250 mil, diz Pagliarini, em que as chinesas conseguem ofertar preços competitivos, tecnologia, equipamentos e eletrificação. "Várias marcas chinesas estão se colocando aqui e desafiando frontalmente as marcas tradicionais estabelecidas", afirma.
Diante desse cenário, o desempenho da JAC Motors no Brasil está mais relacionado ao contexto da operação local do que à situação da montadora na China, segundo o consultor. A marca atua no País com veículos importados e, com a alíquota de 35% sobre os importados. O advogado Wilhelm avalia que um dos principais desafios da empresa será justamente recuperar a capacidade de gerar caixa diante do imposto de importação dos elétricos.
"As concorrentes que montam veículos no Brasil têm acesso a uma cota com imposto zero. A JAC disputa o mesmo consumidor com um custo bem mais alto, o que ajuda a explicar a margem negativa da importadora", afirma.
A dificuldade, acrescenta Pagliarini, é agravada pela ausência de um plano de produção nacional. As marcas chinesas que iniciaram a montagem no Brasil conseguem elevar gradualmente o conteúdo local e reduzir a exposição ao imposto de importação. "Enquanto esse plano não existe, você não tem como contrabalançar uma eventual menor lucratividade inicial com os veículos montados", afirma.
Mesmo com uma possível mudança na política de incentivos, a JAC Motors deve lidar com a credibilidade após dois pedidos de recuperação. Segundo Wilhelm, os bancos e fornecedores podem olhar o plano com "muito mais desconfiança".
"Hoje praticamente não há caixa nem estoque, e sem isso não há venda. Também será indispensável o apoio da fabricante chinesa e um plano compatível com o tamanho real da operação. No fim, os credores precisarão acreditar não só no plano de pagamento, mas na capacidade de a empresa continuar existindo depois dele", avalia o advogado.
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