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Inflação de serviço intensivo em trabalho tem pico em 9 anos e mantém IPCA acima da meta

Preços da categoria têm exibido aceleração consistente desde o início do ano e atingiram, em setembro, avanço de 7,44%; inflação do setor não deve fornecer alívio relevante em 2027

23 out 2026 - 10h17
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Resumo
Puxada pelo desemprego baixo e ganhos salariais reais, a inflação de serviços intensivos em mão de obra subiu 7,44% em 12 meses até setembro, maior alta desde 2017. Embora represente 6% do IPCA, a categoria respondeu por cerca de 10% da inflação acumulada de 4,58%. A forte inércia desses preços e a escassez de profissionais mantêm o segmento pressionado, o que analistas apontam como o maior desafio para o Banco Central convergir a inflação oficial para o centro da meta de 3% nos próximos anos.

Os preços de serviços intensivos em trabalho têm exibido aceleração consistente desde o início do ano e atingiram, em setembro, avanço de 7,44% — seu maior nível desde junho de 2017 e consideravelmente acima da inflação cheia, que ficou em 4,58% no período. Embora com peso relativamente pequeno na cesta do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o desempenho desta categoria específica tem chamado a atenção de analistas ao mostrar as maiores altas acumuladas em 12 meses ao longo de 2026.

Nos cálculos da Warren Investimentos, dos 4,58% acumulados pelo indicador oficial de inflação em 12 meses até setembro, 0,47 ponto porcentual se deve aos serviços intensivos em mão de obra, ou cerca de 10%. É uma participação relativamente elevada para um conjunto de preços que representa cerca de 6% da cesta de consumo do IPCA. Já dentro dos serviços, os intensivos em trabalho representam 17% do grupo.

Em uma agregação feita por economistas e instituições, como o próprio Banco Central (BC), os serviços intensivos em mão de obra captam as variações de serviços médicos e dentários, de salão de beleza, empregada doméstica, mão de obra para reparos e costureira. São itens cujos preços são mais influenciados pelos custos da mão de obra do que por insumos. E, por terem, como no caso de empregada doméstica, elevada correlação com a variação do salário mínimo, também carregam um forte componente inercial.

Serviços intensivos em trabalho surpreenderam para cima nas leituras de agosto e setembro do IPCA e do IPCA-15
Serviços intensivos em trabalho surpreenderam para cima nas leituras de agosto e setembro do IPCA e do IPCA-15
Foto: Taba Benedicto/Estadão / Estadão

A tendência altista destes preços, segundo economistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast, não chega a contrastar com a desaceleração da atividade econômica e a moderação no mercado de trabalho, dado que o emprego é o último elo a responder à perda de fôlego da economia. Ainda assim, a avaliação é a de que esse segmento, assim como toda a categoria dos serviços, seguirá como um dos principais desafios à tarefa do Banco Central de trazer a inflação à meta de 3%, sem dar refresco em 2027.

Caso a taxa anual desse agrupamento estivesse na meta, em 3%, o IPCA cheio estaria em torno de 4,3% em 12 meses, ainda dentro do intervalo do alvo central, destaca a estrategista de inflação da Warren, Andréa Angelo. Os serviços intensivos em trabalho surpreenderam para cima nas leituras de agosto e setembro do IPCA e do IPCA-15, nota Angelo, ao mesmo tempo em que a taxa anual tem oscilado entre 6,7% e 7,45% desde o início do ano, sem dar sinais de alívio.

"Mesmo quando olhamos para a série dessazonalizada, vemos as variações se sustentando em patamar acima de 7%", diz a estrategista. Em tese, quando a atividade esfria, a inflação de serviços também tende a desacelerar, aponta ela, ainda que com alguma defasagem. "Entretanto, ainda não vemos sinais de recuo na alta destes preços." Em sua visão, isso ocorre porque, a despeito da perda de ímpeto do mercado de trabalho, os rendimentos do trabalho continuam em trajetória positiva, com a valorização real dos salários, enquanto a taxa de desemprego está em níveis historicamente baixos.

No trimestre móvel terminado em agosto, a taxa de desocupação permaneceu em 5,3%, no menor nível da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), iniciada em 2002. Já o rendimento médio real dos ocupados cresceu 3,7% frente a igual período de 2025. No Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que acompanha somente o mercado formal, o salário médio real de admissão foi de R$ 2.410,74 em agosto, com aumento real de 1,02% na comparação anual.

Para a economista-sênior da XP Investimentos, Basiliki Litvac, o mercado de trabalho firme funciona como pilar de sustentação dos serviços intensivos. Como o grupo é fortemente atrelado à renda, Litvac destaca que os segmentos ligados ao consumo das famílias têm mostrado desempenho relativamente melhor, reforçado por reajustes salariais acima da inflação. Embora serviços intensivos em mão de obra respondam por uma fração menor do índice cheio, no recorte mais amplo, os serviços representam cerca de 36% do IPCA, o que reforça o peso do setor no comportamento da inflação, diz ela.

Do lado da oferta, a economista chama atenção para a escassez de mão de obra em alguns nichos, com relatos de dificuldades de contratação que elevam custos e prolongam a pressão sobre preços. Ela ressalta ainda o caráter mais inercial desses serviços e sua relação direta com o ciclo e a atividade econômica, o que torna a desaceleração mais lenta.

A correlação deste grupo com a inflação passada também é destacada pelo sócio e economista-chefe da G5 Partners, Luis Otávio de Souza Leal. Por isso, os serviços, tanto na atividade quanto na inflação, são os últimos a reagirem ao ciclo econômico, aponta Leal, além de serem bastante afetados pela política de valorização real do salário mínimo. Neste ano, o valor, corrigido pela inflação do ano anterior somada à variação do PIB, teve reajuste de 6,79%.

Com maior peso dentro dos serviços intensivos em mão de obra, os preços de empregada doméstica são altamente correlacionados à variação do salário mínimo, que também funciona como um farol para diversos prestadores de serviços não sindicalizados, observa o economista. Ele ainda acrescenta outra fonte de pressão nestes preços: a relação de clientela. "São profissionais que dificilmente são substituídos se tiver um aumento um pouco acima da inflação e, por isso, têm capacidade de repassar mais custos do que outros setores."

Para os economistas ouvidos, essa parte da inflação não deve fornecer alívio relevante em 2027, permanecendo como uma das principais pressões sobre os serviços e a inflação cheia. Angelo, da Warren, projeta que o IPCA não vai desacelerar entre 2026 e o próximo ano, passando de 5,1% para 5,2%. "Uma parte desta alta irá partir dos serviços mais pressionados no ano que vem do que neste", diz, o que ela relaciona à aprovação da PEC que acabou com a jornada de trabalho 6x1.

"Devemos ver a inflação de serviços intensivos em mão de obra variando entre 6% e 7% no ano que vem. É moderação, mas não é ainda aquele super movimento", diz Litvac, da XP.

Estadão
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