'Holding ostentação' de Daniel Vorcaro é liquidada nas Ilhas Cayman
Suprema Corte do país nomeou liquidantes da luxuosa Titan Capital, usada no esvaziamento do patrimônio do Banco Master para o exterior, segundo a PF; procurada, defesa de ex-banqueiro não se manifestou
A Titan Capital, conhecida pelas instalações de luxo e chamada de a "holding ostentação" de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, foi liquidada.
Com sede fiscal nas Ilhas Cayman, a holding foi fechada de forma definitiva em decisão da Suprema Corte daquele país, que nomeou como liquidantes John Royle, Margot MacInnis e Kevin Hellard, da empresa de auditoria Grant Thornton Specialist Services, especializada em insolvência e recuperação de ativos. Procurada, a defesa de Vorcaro disse que não se manifestaria.
O anúncio publicado na sexta, 7, convida os credores a "habilitar seus créditos ou pretensões e a comprovar qualquer direito de que sejam titulares, na forma da Lei das Sociedades" e informa o e-mail para contato (TitanCore@uk.gt.com).
O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e a Polícia Federal identificaram que a Titan foi usada no esquema de esvaziamento patrimonial e lavagem de dinheiro do Master. Segundo o Coaf, foram feitas transferências de R$ 700 milhões por meio de cotas de fundos de investimento do Banco Master para a Titan, entre janeiro e julho de 2025.
Com o início do processo de liquidação, os antigos diretores e os donos da holding perdem qualquer acesso e a propriedade de contas e patrimônios. Os bens já haviam sido bloqueados em março pelo BC no Brasil, mas, um mês após o bloqueio, foi criada uma "nova Titan Capital", no Reino Unido.
Com a liquidação em Cayman, o movimento se estende para todo o mundo, inclusive paraísos fiscais, por meio de acordos de cooperação jurídica internacional. Os bancos e instituições financeiras globais que guardam esses ativos são notificados judicialmente para travar movimentações.
Entre credores, estão Tether e Grupo Fictor
De acordo com a publicação Offshore Alert, serviço de inteligência investigativa especializado em finanças internacionais de alto valor em paraísos fiscais, a Tether, maior empresa de criptomoedas do mundo, havia pedido a liquidação da Titan em maio.
Conforme o Estadão noticiou, a Titan fez um empréstimo de US$ 300 milhões (mais de R$ 1,5 bilhão) com o braço de investimentos da criadora do "dólar digital". A Tether cobrava a dívida na Justiça.
O Grupo Fictor, que anunciou a aquisição do Master após o veto do Banco Central (BC) à compra da instituição pelo Banco Regional de Brasília (BRB), também transferiu R$ 30 milhões à Titan, menos de um mês antes do negócio que acabou não se concretizando.
A partir de agora, os liquidantes passam a administrar os bens que forem encontrados, a averiguar transferências feitas antes do bloqueio e, após autorização da corte, a vendê-los para pagamento dos credores, respeitando a fila de preferências exigida pelas leis das Ilhas Cayman.
A Tether está entre as primeiras da fila, por ter como garantia empréstimos feitos pelo Credcesta, que continua operando.
Academia, sauna, hidro, vinhos e charutos
Conhecida por concentrar investimentos de Vorcaro, preso pela segunda vez no início de março, a Titan ocupava os dois andares mais altos de um dos ícones da Faria Lima, o "prédio da baleia". Eram 4 mil metros quadrados, divididos em duas lajes. Um elevador privativo liga a Titan ao heliponto.
Vorcaro também havia colocado lá uma academia, sauna e hidromassagem. Havia ainda uma adega com centenas de garrafas de vinhos e um bar, em estilo inglês, com muitas safras de Macallan, a fabricante de uísque escocesa famosa por suas coleções raras — e caras — e dona dos recordes de preços em leilões da bebida. O fumódromo também é repleto de charutos cubanos.
Entre os 29 negócios da Titan listados no site, à época da primeira prisão de Vorcaro, em novembro de 2025, sete eram ligados ao próprio Master, como a corretora do banco e o próprio Credcesta. A maioria dos negócios foi liquidada.
Havia ainda empresas que tinham sido vendidas antes da quebra do banco, como o Fasano Itaim e a mineradora Itaminas, além da empresa de energia Light, cuja participação também foi vendida ao BTG com outros ativos que somaram R$ 1,5 bilhão. Também a empresa de energia Emae, vendida à Sabesp.
A Titan também abrigava participações em empresas que atualmente atravessam dificuldades, como Alliança Saúde e Oncoclínicas (que enfrentam recuperação extrajudicial) e Ligga Telecom, que teve de vender ativos para recuperar o caixa.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.