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Fungicida fluazinam pode afetar desenvolvimento cerebral

2 jul 2026 - 10h26
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De amplo uso tanto na UE como no Brasil, fluazinam jamais deveria ter sido liberado, afirmam cientistas que revisaram dados de estudo anterior.Cientistas afirmaram, em reportagens divulgadas nesta quinta-feira (02/07) na Europa, que o fungicida fluazinam, amplamente usado para o controle de doenças em diversas culturas, tanto na União Europeia (UE) como no Brasil, jamais deveria ter sido aprovado para uso devido aos elevados riscos à saúde de quem o utiliza.

Num estudo recente, dois cientistas da Universidade de Estocolmo acusaram a indústria química e as autoridades regulatórias da UE de avaliarem erroneamente a natureza perigosa da substância ativa, colocando em risco a saúde de agricultores e de qualquer pessoa que viva nas proximidades de lavouras onde o fungicida tenha sido usado.

Ao revisarem os dados de um estudo anterior, feito em 2005, os químicos Axel Mie e Christina Rudén descobriram que camundongos expostos ao fluazinam tinham cérebros menores e regiões cerebrais alteradas num grau estatisticamente significativo.

Além disso, um método de análise mais refinado revelou que mesmo doses mais baixas poderiam prejudicar o desenvolvimento cerebral de forma mais severa do que se supunha anteriormente.

O estudo realizado pelos cientistas de Estocolmo foi disponibilizado à emissora pública alemã BR, à emissora sueca SVT, ao jornal britânico The Guardian e à revista italiana FF Südtirol, que o tornaram público nesta quinta-feira.

Revisão dos mesmos dados

A segurança do pesticida, aprovado em toda a Europa em 2008, está agora sendo questionada por Mie e Rudén, que examinaram o processo de aprovação da substância ativa.

Eles se referem a um estudo que a fabricante do fluazinam, a ISK Biosciences, encomendou antes da aprovação e que examinou se a substância poderia prejudicar o desenvolvimento cerebral de fetos e crianças. No teste, o fungicida foi administrado a camundongas grávidas para examinar se ele alterava o cérebro dos filhotes.

O laboratório que fez o estudo de 2005, Huntingdon Life Sciences, não chegou a uma conclusão clara: efeitos negativos foram observados num grupo de ratos, mas não em outro, segundo Mie.

Com isso, a fabricante não apresentou o estudo durante o processo de autorização da UE, já que não havia uma exigência legal para isso nesse caso.

Mie e Rudén revisaram o estudo e recalcularam os seus resultados utilizando os mesmos dados e métodos originalmente empregados pelo laboratório e chegaram a uma conclusão bem diferente: efeitos negativos foram constatados em ambos os grupos sob doses elevadas do pesticida.

Erro sempre a favor da fabricante

Os cientistas constataram que o estudo de 2005 apresentava falhas em seis aspectos. "Na minha opinião, o fluazinam não deveria ter sido autorizada em 2008", diz Mie. Chama a atenção que todos os erros foram favoráveis à fabricante do fluazinam. "É difícil imaginar que um erro parecido, em situações parecidas, tenha ocorrido seis vezes e sempre com viés na mesma direção", observou Mie.

Embora os resultados ainda não tenham passado por uma revisão por pares, especialistas independentes avaliaram-nos como plausíveis. O laboratório que fez o estudo em 2005 não comentou os supostos erros ou suas origens. A ISK Biosciences declarou que não teve acesso ao estudo da Universidade de Estocolmo e, portanto, não pode comentá-lo. "A substância ativa foi avaliada pelas autoridades competentes em conformidade com os procedimentos estabelecidos", afirmou.

Rudén, que leciona toxicologia regulatória e ecotoxicologia na Universidade de Estocolmo, afirmou ao Guardian que o atual sistema da UE para a aprovação de pesticidas "baseia-se num conflito de interesses", uma vez que a empresa fabricante do pesticida é responsável por produzir os dados sobre a sua segurança.

Amplo uso no Brasil e na UE

O fluazinam é amplamente usado na UE e também no Brasil, com destaque para a soja (mofo-branco) e batata (requeima). Só na Alemanha, cerca de 340 toneladas do produto foram vendidas em 2024.

A Associação dos Agricultores Alemães (DBV) afirmou que uma proibição do fluazinam poderia, sob certas circunstâncias, levar a "perdas significativas de produtividade e qualidade", mas observou que as questões levantadas por Mie merecem um "esclarecimento cuidadoso".

Os maiores riscos correm aqueles que entram em contato direto com a substância. Em testes realizados em toda a Europa envolvendo 39 mil amostras de produtos, foram detectados resíduos de fluazinam em apenas seis casos.

as/cn (ARD, OTS)

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