COP deixa de legado a integração decisiva do setor privado às discussões globais, diz Mussa
'Estamos avançando na direção certa, ainda que não na velocidade necessária; cabe a nós acelerar', diz o executivo que preside a SB COP
As milhares de pessoas que lotaram os pavilhões dos países e das instituições setoriais do Brasil e do mundo na Blue Zone, o espaço oficial de negociações climáticas na COP-30, não deixam dúvidas. O atual gigantismo das COPs, onde 50 mil pessoas se reúnem durante poucas semanas, todo final de ano, vai muito além das negociações diplomáticas a portas fechadas — e, às vezes, nos corredores também. No caso específico do Brasil, a vigência da democracia também deixou muito espaço para os protestos e reivindicações, sempre bem-vindas em um mundo desigual. E ainda havia o calor humano de Belém.
"Às vezes era até complicado definir a agenda e saber para onde ir", admite Ricardo Mussa, conhecido executivo do setor energético que resolveu usar o seu ano sabático para colocar em pé a iniciativa nomeada de SB (Sustainable Business) COP, que cresceu a ponto de representar, hoje, 70 países. São milhões de empresas que têm voz, a partir de suas confederações nacionais industriais.
Trafegando entre o presidente Lula, o embaixador André Corrêa do Lago e o atual secretário-geral da ONU, o português António Guterres, Mussa é direto: "Ao ser menos ideológica e mais pragmática, a COP fica mais perto de entregar soluções", diz o executivo. Em entrevista ao Estadão, depois de 15 dias de trabalho em Belém, Mussa detalha quais serão os próximos passos da SB COP — e dele próprio.
E, para mostrar que pragmatismo faz parte do setor privado, não só de negociações se faz uma COP — que será realizada na Turquia, em 2026, e na Etiópia, em 2027. Durante o evento em Belém, concretizou-se uma das iniciativas tocadas pelo grupo durante meses. "A curadoria de casos de sucesso do mundo inteiro foi, para mim, a nossa entrega mais interessante. Reunimos cerca de 1,4 mil envios de empresas e associações globais, que tinham de atender a critérios claros: serem casos relacionados ao combate às mudanças climáticas, possuir histórico comprovado de implementação e resultado financeiro, e serem escaláveis e replicáveis."
Segundo Mussa, não foram considerados os projetos que ainda não tinham histórico de resultados. Aplicados os critérios, um pouco menos da metade passou — cerca de 670 casos. "Depois, selecionamos os 48 melhores, que foram premiados em Belém como os SB COP Awards. Além desses, incluí dois hors-concours para completar 50, entre eles o case da Vale em Carajás, que considero o melhor caso que já vi no setor privado envolvendo mineração."
Os casos de sucesso, segundo Mussa, ajudam a mostrar onde os governos precisam focar. "Como já são escaláveis, em teoria basta replicá-los por meio de políticas públicas para potencializar resultados. Assim, entregamos recomendações para os negociadores, o Legado Brasil (conjunto de iniciativas dentro do contexto nacional) e os casos de sucesso. Essas foram as três entregas formais da SB COP à presidência da COP, ao governo brasileiro e ao presidente Lula."
A seguir, trechos da entrevista com o engenheiro de produção e presidente da SB COP, Ricardo Mussa.
Essa é a COP em que o setor privado realmente abraçou, em definitivo, a causa do enfrentamento climático?
Houve um reconhecimento claro de que estamos vivendo uma mudança de fase. Por muito tempo, a COP girou em torno de metas e acordos. Mas, quando a conferência passa a tratar menos de compromissos e mais de implementação — considerando que mais de 80% das emissões vêm do setor privado —, não há alternativa além de trazer as empresas para dentro do processo. Os governos chamaram explicitamente o setor privado. Isso apareceu nas conversas: muitos executivos diziam que não valia a pena ir à COP porque 'COP é coisa de governo'. Desta vez foi diferente. Desde Glasgow já havia sinais de abertura, mas o auge desse movimento está acontecendo agora, no Brasil. Se cada COP deixa um legado, este talvez seja o principal: a integração decisiva do setor privado às discussões globais. Do lado das empresas, houve também uma mudança: um pragmatismo maior, em boa parte resultado da crise do ESG. A fase de greenwashing acabou funcionando como uma limpeza. Removeu o ruído, expôs o que era 'bullshitting' e concentrou dinheiro e esforços no que faz sentido. Com menos competição por projetos fracos, os bons ganharam espaço. Isso deixou a COP mais prática: menos 2050 e mais próximos cinco anos; menos ideologia e mais implementação; mais adaptação e mais foco no curto prazo.
Depois de passar um ano do lado de dentro das negociações, você sai mais pessimista ou otimista?
Saí da COP com uma sensação muito positiva. Belém fez um bom trabalho, e os moradores foram extremamente acolhedores. Houve problemas logísticos inevitáveis mas, na minha visão, eles não afetaram o resultado final da conferência. Fizemos a COP em um momento global difícil, de muito vento contra, e ainda assim saí otimista. Cheguei mais pessimista e voltei mais animado com o que vi. É um otimismo realista: estamos longe de resolver o problema, mas não vejo retrocesso. Não estamos andando para trás nem esquecendo o que foi construído. O ponto central é a velocidade do pragmatismo. Isso deve marcar o próximo ciclo: avanços menos idealizados e mais concretos, sustentados por decisões práticas e realistas, e é isso que me deixa otimista.
E o setor privado como um todo, a rota vai na direção certa também?
Ainda temos um ano de liderança do Brasil e precisamos aproveitá-lo. A Turquia, que assume a próxima COP, tem várias similaridades conosco. Conheço bem o país e acredito que podemos construir uma boa dobradinha dentro da troika. Isso significa muito trabalho pela frente. Do lado do setor privado, o saldo é positivo. Ele saiu desta COP melhor do que entrou. É verdade que não tivemos tantos CEOs quanto gostaríamos, mas quem foi percebeu que houve mais aspectos positivos do que negativos. Claro que existe frustração com o processo da ONU, que é baseado no consenso e, portanto, mais lento. No setor privado somos mais pragmáticos: identificamos os pontos críticos e seguimos. Quando estive com o secretário-geral António Guterres, fiz essa crítica diretamente. Ele lembrou que a essência da ONU é ouvir todos, preservar direitos iguais e garantir abertura. Mas argumentei que, em uma emergência climática, talvez fosse necessário flexibilizar um pouco essa governança para permitir decisões mais rápidas. Se eu estivesse conduzindo o processo, faria algumas coisas de forma diferente. Ainda assim, há continuidade, aprendizado e espaço para melhorar a coordenação entre Brasil e Turquia.
Como será a passagem de bastão para a Turquia?
Costumamos pensar na COP como um evento de duas semanas, mas, na prática, ela acontece ao longo do ano inteiro. Esse foi um dos meus grandes aprendizados. Na reunião de conselho da SB COP, onde estão representados 70 países, discutimos exatamente isso: precisamos escolher um ou dois temas prioritários e trabalhar neles de forma contínua, influenciando o debate durante todo o ano. Agora tenho a missão de definir esses dois temas para apresentar na próxima reunião, em dezembro. Será o momento de indicar o que consideramos prioridade para começar a discutir imediatamente, em direção à COP da Turquia. O objetivo é influenciar muito mais do que influenciamos nesta edição, só que de forma mais organizada e estruturada, começando no dia 1º de janeiro. Este ano foi o ano de montar a SB COP. Agora ela está de pé e funcionando. Com essa estrutura pronta, precisamos usar sua musculatura para gerar impacto real. Para isso, não adianta tentar cobrir muitos assuntos ao mesmo tempo. É preciso focar no que é relevante, no que traz impacto para o setor privado e no que é comum aos países. Alguns debates simplesmente não avançam porque China, Arábia Saudita, Estados Unidos e Brasil não convergem. Por isso, devemos priorizar onde há mais alinhamento. Um desses temas é evidente: o mercado de carbono. Em todos os países, o setor privado reconhece que esse mecanismo precisa evoluir e ser implementado com mais rapidez. Vamos nos aprofundar nesse debate, que deve ser uma das prioridades da SB COP no próximo ciclo.
Por falar neles, China e Arábia Saudita estão realmente distantes da rota da descarbonização?
Passei bastante tempo, em Belém, no pavilhão chinês, que montou quase um balcão de negócios. A China trouxe um pragmatismo enorme, resultado do peso que tem no sistema energético global. É um país que usa muito carvão e é um dos maiores emissores, mas também lidera a inovação em solar e eólica. Hoje, apesar de muitos não gostarem de ouvir isso, quem mais adiciona energia renovável no mundo é a China. Outro exemplo é a Arábia Saudita. Mesmo sendo um petrostate, projeta que 50% de sua energia será renovável até 2030. Não por ideologia, mas porque solar ficou mais barato do que usar petróleo para gerar eletricidade. A lógica econômica está vencendo, impulsionada pela escala construída principalmente pela China. Esse tipo de racionalidade acelera a transição. As políticas públicas precisam focar nos projetos com maior chance de escalar rapidamente. Solar e eólica já passaram por isso; talvez o próximo seja o hidrogênio verde. Mas, para isso, é preciso evitar dispersão e concentrar esforços no que comprovadamente avança.
Os temas das forças-tarefas criadas por vocês para Belém serão os mesmos na Turquia?
Não existe uma divisão rígida dentro da SB COP. Estruturamos o trabalho para conectar diretamente nossas ações ao que acontece na COP. Criamos oito forças-tarefa: transição energética, sistemas alimentares, cidades sustentáveis, bioeconomia, economia circular e soluções baseadas na natureza — as outras duas são transversais: financiamento climático e green jobs and skills. Essa transversalidade é um dos pilares da SB COP. Ela garante que temas críticos, como financiamento e formação da força de trabalho, circulem por todas as pautas. Essas oito forças-tarefa organizam como atuamos. Mineração, por exemplo, pode aparecer em mais de uma delas. Também recebemos pedidos por temas paralelos — como água — e estamos avaliando se manteremos exatamente esses oito grupos para a COP da Turquia. É provável que seis permaneçam; talvez juntemos dois ou reorganizemos algo. Dentro de cada grupo, a conversa é complexa. Quando pedimos para o grupo de transição energética escolher três prioridades, surgem cinquenta. É preciso filtrar: entre essas 50, quais têm maior impacto e relevância global? Esse processo é sensível, porque cada país tenta puxar o que considera essencial. Isso gera tensões internas, como acontece na ONU. A diferença é que, aqui, quem lidera são executivos e empresários, o que traz pragmatismo e ajuda a alcançar consensos mais rapidamente. Depois que as prioridades são definidas, formulamos o que vamos solicitar ao setor público: política bem desenhada? Apoio à formação de mão de obra? Mais financiamento? A partir disso surgem as recomendações. Mas tudo começa pela definição das três prioridades e pela capacidade de chegar a elas de forma pragmática e transversal.
Quem financia a iniciativa SB COP? A própria ONU?
A SB COP nasceu com um diferencial importante: somos reconhecidos pela COP e pela UNFCCC como agentes participantes, com o selo das Nações Unidas. Isso nos garante acesso à Blue Zone, credenciais oficiais e participação direta nas discussões. Temos o carimbo da ONU, mas não estamos dentro da ONU. Precisávamos de independência, e por isso a SB COP é self-funded. Esse desenho combina autonomia com legitimidade internacional. A estrutura foi montada para garantir robustez técnica e capacidade real de influenciar. No centro estão grandes consultorias internacionais — McKinsey, BCG, Aben, Accenture, Ernst & Young, PwC e Systemic — que atuam como knowledge partners, aportando conhecimento, dados e metodologia. Somam-se a elas mais de 138 CEOs que participaram diretamente da construção da agenda. Com esse conjunto, criamos uma base sólida para produzir documentos e propostas com capacidade real de advocacy. Esse modelo funcionou bem e teremos participação ainda maior na próxima COP.
Você continua à frente da instituição SB COP?
Agora entro em um período de transição. Meu sabático termina no fim de dezembro e devo voltar ao mercado, mas continuarei como chair da SB COP até o fim do mandato. A liderança seguirá um modelo rotativo, com uma troika garantindo continuidade. O André Corrêa do Lago já está se conectando com o presidente da COP da Turquia. Vamos indicar o próximo chair turco, e eu farei a dobradinha com ele para o handover. Diante do tamanho que a SB COP alcançou, queremos agora um time próprio, exclusivo, que não rotacione a cada mudança de país. A estrutura cresceu o suficiente para isso. Vejo avanços concretos, apesar dos problemas. Nosso papel é organizar, trazer casos que deram certo, mostrar políticas que funcionaram. O que vi na COP foi muita gente querendo ajudar, mas muita desorganização. Até definir minha própria agenda foi difícil. Precisamos melhorar a governança, e a entrada mais forte do setor privado ajuda, trazendo práticas de gestão. Cada um tem um papel, setor privado, setor público, jornalismo, ONGs. Não acho que regredimos. Estamos avançando na direção certa, ainda que não na velocidade necessária. Cabe a nós acelerar.