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Consumo fraco faz estoques encalharem nas prateleiras e pressiona indústria e comércio

Crédito caro e endividamento das famílias surpreendem setores, que agora lidam com prateleiras cheias e ajustes na produção

1 out 2026 - 05h40
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Resumo
O crédito caro e o endividamento das famílias desaceleraram o consumo, gerando acúmulo indesejado de estoques na indústria e no comércio. Sondagens da CNI e da FecomercioSP confirmam a sobra de produtos, reflexo de vendas abaixo do esperado no primeiro semestre. Para ajustar o fluxo de caixa sem recorrer a juros altos, o varejo prevê descontos para desovar mercadorias e cortes de novos pedidos. O setor produtivo deve desacelerar, mas analistas descartam risco de um impacto recessivo amplo.

A queda da demanda, motivada por crédito caro e endividamento alto das famílias, surpreendeu indústria e comércio e resultou em acúmulo de estoques. O excesso de mercadorias passou a pressionar tanto a produção quanto os preços de bens de consumo. Se antes a economia crescia acima da capacidade e o consumo absorvia praticamente tudo o que era produzido, agora sobram produtos nas prateleiras.

Muitas empresas se prepararam para um nível de consumo que não se confirmou. Analistas veem uma tendência de desestocagem — movimento que, diante de sinais mais fracos da indústria, pode já ter começado. Ainda assim, o impacto sobre a atividade tende a ser limitado.

Na indústria de transformação, o índice que mede a sobra de produtos — quanto o estoque efetivo fica acima do planejado — chegou a 50,6 pontos em agosto, a maior leitura do ano. Segundo a sondagem mensal da Confederação Nacional da Indústria (CNI), os maiores acúmulos aparecem em segmentos como têxteis, aparelhos elétricos e eletrônicos e móveis.

Antes desse levantamento da CNI, a Sondagem da Indústria, da Fundação Getulio Vargas (FGV), já havia apontado, em agosto, o maior nível de estoques desde o início do ano.

No comércio, a preocupação mudou de falta para excesso de mercadorias. Levantamento da FecomercioSP com 600 lojas da Grande São Paulo mostra que 28,9% delas estão, neste mês, com estoques acima do nível considerado adequado — o maior porcentual desde março de 2023 (29,7%).

Os estoques passaram a receber mais atenção dos economistas depois que a última leitura do Produto Interno Bruto (PIB), referente ao segundo trimestre, indicou um crescimento sustentado por produtos que não chegaram a ser consumidos.

Os dados mais recentes, ao mostrarem estoques acima do desejado, sugerem que o acúmulo também reflete frustração de vendas, e não apenas antecipação de compras das empresas ou efeitos da supersafra de grãos e do ritmo forte da indústria extrativa — setores que formam estoques de forma voluntária para exportação.

Em sinal de que o quadro já afeta a indústria, indicadores da CNI registraram em agosto queda da produção, recuo da utilização da capacidade instalada e enfraquecimento do emprego. Embora os estoques tenham diminuído em volume, seguem acima do planejado, em meio ao menor otimismo com a demanda nos próximos meses.

"O freio na produção foi mais forte do que o esperado, e ainda assim os estoques efetivos continuam acima do planejado, mostrando sobra ainda maior", comenta Marcelo Azevedo, gerente de análise econômica da CNI.

"Não há razão para esperar uma mudança muito grande no padrão de demanda por bens industriais nos próximos meses. Então, o ajuste tende a vir pela produção. A indústria não deve manter esses estoques elevados", acrescenta Azevedo.

No varejo, o maior volume de mercadorias encalhadas tende a deixar as encomendas à indústria mais conservadoras. "Se o varejo está com os estoques elevados, o número de pedidos diminui no momento seguinte. É esse cenário que estamos prevendo para os próximos meses", afirma Thiago Carvalho, assessor econômico da FecomercioSP, entidade que representa empresas de comércio, serviços e turismo do Estado de São Paulo.

Segundo a sondagem mensal da CNI, os maiores acúmulos de estoques aparecem em segmentos como têxteis, aparelhos elétricos e eletrônicos e móveis
Segundo a sondagem mensal da CNI, os maiores acúmulos de estoques aparecem em segmentos como têxteis, aparelhos elétricos e eletrônicos e móveis
Foto: Cedro Têxtil/Divulgação / Estadão

Ele observa que o comércio se abasteceu para atender à demanda, mas as vendas frustraram em datas importantes do primeiro semestre, como Dia das Mães e Dia dos Namorados. Com produtos parados e contas vencendo, a perspectiva, diz Carvalho, é de intensificação de promoções e descontos para desovar mercadorias — até porque buscar capital de giro nos bancos significa pagar juros elevados. "Os estoques altos preocupam porque sabemos o efeito sobre o fluxo de caixa das empresas", diz o assessor econômico.

Economistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast avaliam que uma parcela relevante do acúmulo está ligada ao consumo mais fraco. No segundo trimestre, os estoques subiram R$ 51,6 bilhões, o equivalente a 1,5% do PIB — cerca de 0,6 ponto porcentual acima da média histórica do período.

Ainda assim, não se espera um ajuste com efeito recessivo, como o ciclo de desestocagem de 2015 a 2016. O excesso ainda é considerado moderado e a indústria — onde estaria a maior parte do estoque involuntário — tem hoje menor peso na economia.

Para o consultor José Ronaldo de Souza Júnior, CEO da Quantivis Analytics, o mais provável é que o ciclo sazonal tenha ganhado intensidade, com maior acúmulo de estoques no primeiro semestre, impulsionado pela forte produção agrícola, seguido de um escoamento mais forte na segunda metade do ano.

A referência é 2025, que terminou com uma desestocagem recorde, após um primeiro semestre de forte acumulação de estoques. "É razoável esperar um roteiro semelhante em 2026", prevê Souza Júnior, que por mais de cinco anos chefiou a área de estudos e políticas macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Para Marina Garrido, economista do Itaú Unibanco, indicadores qualitativos apontam demanda mais moderada e expectativas de produção menos favoráveis, em linha com um ambiente de maior cautela das empresas. Ela, porém, não vê sinais "inequívocos" de um ajuste mais intenso da produção, considerando, entre outros fatores, que a utilização da capacidade instalada permanece relativamente elevada. "Os dados disponíveis sugerem normalização, e não um processo expressivo de desestocagem", avalia.

Estadão
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