Consumo das famílias cai e economia do Brasil desacelera no 2º tri apesar de força do agro
O PIB do Brasil cresceu 0,5% no segundo trimestre, desacelerando ante o período anterior, mas superando as projeções. O avanço foi sustentado pela força da agropecuária, que subiu 2,8%, enquanto o consumo das famílias recuou 0,4% e a indústria perdeu dinamismo com alta de apenas 0,1%. O resultado reflete o impacto dos juros elevados e da política monetária restritiva sobre o orçamento familiar e o crédito, sinalizando um ritmo econômico mais brando para os próximos meses.
A atividade econômica brasileira desacelerou no segundo trimestre diante da retração do consumo das famílias e da perda de dinamismo da indústria, ainda que o desempenho tenha sido um pouco melhor do que o esperado com destaque para a agropecuária, em meio a efeitos mais visíveis de uma política monetária restritiva.
O Produto Interno Bruto registrou crescimento de 0,5% no segundo trimestre em comparação com os três meses anteriores em dados com ajuste sazonal, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta terça-feira.
A perda de força da atividade já estava na mira de analistas, depois de a economia ter crescido 1,1% no primeiro trimestre, em dado não revisado pelo IBGE.
A leitura, a mais fraca desde o final do ano passado, ficou entretanto acima da expectativa em pesquisa da Reuters de avanço de 0,4% e o PIB permanece no nível mais alto da série histórica.
Na comparação com o segundo trimestre de 2025, o PIB apresentou crescimento de 2,0%, também acima projeção de 1,8% nessa base de comparação.
"O que mudou mesmo ante o primeiro trimestre foi o consumo das famílias, por conta também dos juros. Em teoria, juros altos desestimulam o consumo das famílias", disse o coordenador de Contas Nacionais do IBGE, Ricardo Montes de Moraes.
O Brasil vem enfrentando uma política monetária restritiva, o que afeta as empresas e o consumo em meio ao elevado nível de endividamento das famílias. Embora o Banco Central tenha iniciado um ciclo de afrouxamento, a taxa básica de juros Selic ainda está em elevados 14%.
O mercado de trabalho aquecido e o crescimento da renda podem impedir uma queda mais brusca, mas medidas de estímulo fiscal e de crédito promovidas pelo governo tendem a perder força. Pesam ainda as incertezas com a eleição presidencial em outubro, a perspectiva de um El Niño forte, a continuidade da guerra no Oriente Médio e as tarifas dos Estados Unidos.
"A mensagem do PIB é: a economia ainda cresce, mas está claramente pisando no freio. O ponto de atenção é que o crescimento veio muito concentrado no agro e em alguns componentes do investimento, enquanto o consumo das famílias, que é um dos principais motores da economia, mostrou retração", disse Pablo Spyer, conselheiro da Ancord (associação de corretoras e distribuidoras de valores).
AGRO
Do lado da produção, a agropecuária foi novamente o destaque com uma expansão de 2,8%, acima dos 2,3% do primeiro trimestre e a mais forte desde os três meses de janeiro a março de 2025.
"Nossa expectativa é que esses efeitos da agro diminuam no terceiro tri, o efeito do aperto monetário continue se espalhando pela economia, e você tem um terceiro trimestre crescendo, mas em ritmo menor", avaliou o economista-chefe do banco BV, Roberto Padovani, projetando alta de 0,2% no terceiro trimestre e de 1,9% no ano.
A indústria desacelerou o ritmo de alta a 0,1%, de 1,2% no período anterior. As indústrias extrativas tiveram novamente desempenho positivo, de 3,4%, impulsionada pelo aumento da produção de petróleo, segundo o IBGE. Mas houve retração nas atividades de eletricidade e gás, água, esgoto, atividades de gestão de resíduos (-1,1%), indústrias de transformação (-0,4%) e construção (-0,4%).
O setor de serviços -- que responde por cerca de 70% da economia do país -- teve avanço de apenas 0,2%, de 0,4% no primeiro trimestre.
Já sob a ótica das despesas, o consumo das famílias registrou a primeira retração em três trimestres, de 0,4%, após expansão de 0,8% nos três primeiros meses do ano.
"O resultado foi influenciado pelo elevado endividamento das famílias, pelo custo mais elevado do crédito e pelo menor ritmo de crescimento dos salários, além das pressões inflacionárias decorrentes da alta dos preços de combustíveis e alimentos, que reduziram o poder de compra e limitaram a expansão do consumo", analisou Rafael Perez, economista da Suno Research.
As despesas do governo aumentaram 0,4% no segundo trimestre sobre o primeiro, repetindo a mesma taxa do período anterior. A Formação Bruta de Capital Fixo, uma medida de investimento, cresceu 1,2% na mesma comparação, desacelerando ante a taxa de 3,4% no primeiro trimestre.
No setor externo, as exportações de bens e serviços recuaram 0,8%, menos do que a retração de 2,1% vista entre janeiro e março. As importações cresceram 1,8%, também abaixo da alta de 4,2% no período anterior.
(Edição de Eduardo Simões e Isabel Versiani)
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