Como o agro enfrenta o desafio de elevar produtividade em meio aos eventos climáticos extremos
Multinacionais como Sumitomo, Yara e Basf, além da Embrapa, colocam em campo um arsenal tecnológico que promete aumentar a produção, mesmo com variações imprevistas do clima
Para mitigar os impactos da imprevisibilidade climática e manter a alta produtividade no campo, indústrias e institutos de pesquisa investem em inovação no Brasil. Destacam-se os bioinsumos — formulados sustentáveis à base de hormônios, algas e bactérias que fortalecem raízes e tornam as lavouras mais resistentes a secas ou excesso de chuvas. Aliadas a isso, ferramentas digitais e de monitoramento via satélite auxiliam tanto grandes quanto pequenos produtores a ajustarem o manejo preventivamente.
Das grandes plantações de milho e soja do Centro-Oeste aos pequenos sítios de hortaliças espalhados pelo País, uma das maiores preocupações dos produtores brasileiros é fazer frente aos eventos climáticos extremos, que atingem diretamente a produção no campo. "Está tudo muito imprevisível", diz a capixaba Rakiely Martins, que cultiva café especial na propriedade da família em Muniz Freire, no Sul do Espírito Santo.
A estimativa inicial para setembro, por exemplo, era de seca com volumes de chuva baixos e aumento gradual das temperaturas. Mas em todo o Sudeste, o que aconteceu foi o setembro mais chuvoso dos últimos 83 anos, além de frio. "Isso não foi bom para o café. A florada, que devia acontecer no final de setembro ou em outubro, começou no final de agosto. Se houver seca depois, como se prevê, a formação dos grãos será afetada, diz Rakiely, que também é engenheira agrônoma pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e doutoranda em produção vegetal na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF).
Como se defender desse vai e vem do clima? É isso o que a indústria e os institutos de pesquisa brasileiros estão tentando resolver. Para isso, lançam mão de bactérias, hormônios, plataformas digitais, mapas feitos por satélite e até algas.
Focando em grandes produtores de soja e milho, multinacionais como Sumitomo, Yara e Basf colocaram em campo um arsenal tecnológico que promete aumentar a produção, mesmo que haja variações imprevistas do clima. Com 97% de chances de que o fenômeno climático El Niño evolua para um patamar muito forte este ano, estar preparado é fundamental.
A japonesa Sumitomo Chemical, por exemplo, reuniu 32 produtores de milho e soja no início de setembro, num jantar no prédio do antigo Museu da Casa Brasileira, na Faria Lima, em São Paulo, para lançar o TopGrain, um produto à base de ácido abscísico, um hormônio natural das plantas. Assim como os esteróides que os fisiculturistas tomam para ficar mais fortes, o TopGrain também deixa a planta mais robusta. Mas com uma vantagem: o pé de milho ou soja fica também mais "inteligente".
"O TopGrain abre sobre os estômatos das folhas, que são pequenas estruturas que abrem e fecham conforme a planta precisa reter ou dissipar calor", conta Alexandre Pires, diretor geral Brasil da Sumitomo Chemical. "Ele também favorece o transporte de açúcares para os grãos, o que contribui para o aumento do peso e da estabilidade sob condições adversas, ou seja, a planta fica mais resistente", explica o executivo. O custo desse produto por hectare, segundo ele, é pouco menos que equivalente ao preço de uma saca de soja. Mas a produtividade, tanto no milho quanto na soja, pode ser de até sete sacas a mais (por hectare).
A norueguesa Yara também promete maior produtividade sob maiores condições de chuva ou seca, com produtos como o YaraBasa Full, que melhora o crescimento da raiz da planta (tanto milho quanto soja), fazendo com que ela absorva mais água e mais nutrientes. Se o tempo secar, a planta está forte. No cenário contrário, ela terá produzido mais folhas, o que ajuda na liberação de água (como se a planta suasse).
O investimento também é inferior ao total equivalente a uma saca por hectare, segundo Leonardo Soares, gerente de agronomia e soluções de cultivo da multinacional. "A indústria tem evoluído tanto nas pesquisas que, nos últimos anos, mesmo com vários El Niños, a produtividade só aumentou", diz ele. De fato, desde o ano 2000, houve a ocorrência do fenômeno climático oito vezes no Brasil. No mesmo intervalo, a produção de grãos passou de 81 milhões de toneladas para 287 milhões.
Todos esses produtos são classificados no mercado como "bioinsumos" - uma das tecnologias mais avançadas para a agricultura atualmente. Eles utilizam substâncias que a própria planta já tem, sem provocar danos ao meio ambiente ou a quem se destina a produção.
"São bioestimulantes que, resumidamente, deixam as plantas mais fortes para enfrentar grandes variações do clima", explica Rakiely, que já havia preparado seu cafezal para possíveis mudanças climáticas, com essa classe de produtos.
A matéria-prima varia bastante: de algas a fungos e insetos, de hormônios a húmus de minhoca. "O húmus de minhoca líquido é um ótimo bioinsumo, principalmente para pequenos produtores", explica a pesquisadora.
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), por exemplo, preferiu usar bactérias. Elas são a base do Hydratus, outro produto que promete mitigar os efeitos de mudanças climáticas em culturas de milho e soja. "Ele ajuda a plantar a crescer, mesmo que haja pouca água no solo. Ela também coloniza a raiz da planta, produzindo um biofilme que ajuda a captar mais água", explica Eliane Gomes, pesquisadora da Embrapa Milho e Sorgo, em Sete Lagoas, Minas Gerais. A empresa levou anos pesquisando bactérias presentes em áreas áridas do Ceará até chegar no Hydratus. E, caso chova mais que o esperado, a planta também tem como se defender, pois estará mais bem nutrida. "Funciona como um seguro para o produtor", diz Eliane.
Em sua maioria, o valor do investimento em bioinsumos é bem menor que o ganho com o aumento de produtividade, o que garante a viabilidade financeira da aplicação. "Mas nenhum deles faz milagre", alerta a pesquisadora. Se não houver um solo bem preparado, alguma água na terra, diz, fica difícil de alguma coisa funcionar e fazer frente às mudanças extremas de clima.
E o pequeno produtor?
No Brasil, estima-se que cerca de 3,3 milhões de pessoas são pequenos produtores, principalmente de hortaliças e frutas. E 95% desta produção é voltada para o mercado interno. Mesmo sem cotações em dólar ou grandes fazendas com centenas de hectares, também há pesquisas científicas para ajudar na defesa dessa parcela do agro. "A pesquisa voltada para a agricultura familiar ajuda a promover o que chamamos de justiça climática", diz Carlos Eduardo Pacheco Lima, pesquisador da Embrapa Hortaliças, em Brasília. Ele também é especialista em mudanças climáticas globais.
Ele lidera o desenvolvimento de uma plataforma digital que os pequenos produtores poderão acessar pelo celular e pela qual eles terão análise do clima e outros fatores de risco localmente. "Assim, ele terá recomendações de quando, quanto e como plantar, dependendo das condições climáticas de onde ele está", explica o pesquisador, que também é casado com outra especialista da Embrapa Hortaliças, a engenheira agrônoma Mariana Rodrigues Fontenelle. Ela desenvolveu bioinsumos que os pequenos produtores podem usar em suas hortas para aumentar a tolerância das plantas em relação à seca e ao calor.
Outra empresa que desenvolveu uma plataforma semelhante foi a Basf. Por meio da digitalização de fotos de satélite, a multinacional alemã consegue, com a ferramenta, não só analisar o clima da região e fazer previsões para as próximas semanas (às vezes até dias), mas também monitorar o desenvolvimento das plantas em toda a propriedade. "O sistema, que se chama Xarvio, mapeia se num determinado local do terreno o solo precisa de mais atenção. Aí o produtor pode fazer ajustes com mais ou menos água, na densidade da semeadura, etc..", explica Lucas Geraldini, gerente técnico de vendas da Basf. A plataforma, diz ele, tem uma taxa de acerto acima de 90%.
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