Script = https://s1.trrsf.com/update-1790713512/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Oferecimento Logo do patrocinador
Publicidade

Como fica o tarifaço de Trump após vitória dos democratas nos EUA?

Resultado das eleições de meio de mandato dá à oposição controle do Congresso e amplia a pressão sobre a política comercial do presidente

5 nov 2026 - 05h00
Compartilhar
Exibir comentários
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aplicou tarifas contra diversos países
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aplicou tarifas contra diversos países
Foto: Reprodução/X:@WhiteHouse

A conquista da maioria na Câmara e no Senado pelo Partido Democrata nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas nesta terça-feira, 3, abre uma nova frente de pressão sobre o presidente Donald Trump. Com o Congresso sob controle da oposição, o governo terá mais obstáculos para aprovar medidas e ficará sujeito a uma fiscalização mais intensa, inclusive sobre sua política comercial.

A mudança, no entanto, não significa o fim do chamado tarifaço, conjunto de taxas aplicadas por Trump sobre produtos importados para pressionar parceiros comerciais e estimular investimentos nos Estados Unidos. Isso porque o presidente ainda dispõe de mecanismos legais que permitem impor tarifas sem depender de uma nova autorização do Legislativo.

A avaliação é de especialistas ouvidos pelo Terra. Para Jorge Ferreira dos Santos Filho, economista e professor de Administração da ESPM, a vitória democrata cria um contrapeso político mais efetivo à Casa Branca, mas não retira do presidente sua capacidade de adotar medidas comerciais. Já Josilmar Cordenonssi, professor de Ciências Econômicas da Universidade Mackenzie, considera que a influência dos parlamentares será mais limitada nesse campo, uma vez que Trump pode recorrer a legislações que delegam poderes tarifários ao Executivo.

Eleições nos EUA marcam vitória de primeira governadora negra e de primeiro senador muçulmano:

Como os democratas podem pressionar Trump?

Com a nova composição do Congresso, os democratas terão condições de ampliar investigações, convocar autoridades, exigir documentos e questionar decisões da administração Trump. A Câmara também poderá interferir na distribuição de recursos orçamentários, criando dificuldades para a implementação de determinadas políticas.

Na avaliação de Santos Filho, o principal efeito imediato será o aumento do custo político e administrativo das decisões presidenciais. O economista destaca que a Constituição americana atribui ao Congresso a competência para regular o comércio exterior e estabelecer tarifas, embora o Legislativo tenha delegado parte dessa autoridade ao Executivo ao longo das décadas.

"A Câmara Democrata não retira do presidente a capacidade de adotar tarifas, mas eleva o custo político. Também pode gerar um desgaste administrativo maior e levar o Executivo a recorrer às tarifas de modo mais assertivo, agudo e menos extensivo", afirma.

Cordenonssi, por sua vez, avalia que a oposição terá mais dificuldades para interferir diretamente nas decisões comerciais do presidente. Segundo ele, mesmo que os democratas tentem derrubar medidas tarifárias, Trump poderá vetar eventuais projetos aprovados pelo Congresso. Para superar esse veto, seria necessário reunir apoio de dois terços dos parlamentares nas duas Casas.

Trump postou boné com a palavra 'veto' após resultado das eleições
Trump postou boné com a palavra 'veto' após resultado das eleições
Foto: Reprodução/Truth Social/Trump

"Como as tarifas estão baseadas em legislações que não precisaram da aprovação do Congresso, isso dificilmente vai ser alterado. O que o Congresso pode fazer é tentar derrubar alguma dessas medidas, mas os democratas não têm uma maioria tão grande para derrubar o veto do presidente", explica.

O professor acrescenta que uma eventual aproximação de parlamentares republicanos com a oposição poderia ampliar a pressão sobre Trump. Isso dependeria, porém, de movimentos dentro do próprio Partido Republicano, que também terá de considerar os efeitos políticos de continuar associado às decisões do presidente.

"É preciso observar também o que vai acontecer dentro do Partido Republicano, porque apoiar Trump nos dois anos que faltam para o fim do mandato pode ser muito ruim para o futuro do partido. Como Trump se tornou uma figura tóxica nos Estados Unidos e sua popularidade está muito baixa, talvez parte dos republicanos na Câmara comece a se afastar das políticas dele e a se alinhar mais aos democratas, na tentativa de tentar diminuir uma derrota nas eleições de 2028", acrescenta Cordenonssi.

Vitória democrata pode mudar tarifas contra Brasil e outros países?

A mudança no Congresso também pode repercutir nas relações comerciais dos Estados Unidos com países que foram atingidos pelas tarifas americanas. O alcance, porém, tende a variar conforme os interesses econômicos e estratégicos envolvidos em cada relação.

Santos Filho avalia que a oposição democrata pode reduzir o espaço para medidas generalizadas, mas não necessariamente para tarifas direcionadas a países ou setores considerados estratégicos por Washington. O caso da China é um exemplo: apesar das diferenças entre republicanos e democratas sobre a condução da política comercial, há convergência entre os dois partidos na preocupação com a concorrência tecnológica e industrial chinesa.

Capa da revista Time com foto do presidente Donald Trump com a boca tapada
Capa da revista Time com foto do presidente Donald Trump com a boca tapada
Foto: Reprodução / Estadão

"Existe um consenso bipartidário em torno da competição tecnológica, industrial e geopolítica com Pequim. A diferença pode surgir no método: os democratas tendem a preferir medidas seletivas, conversar mais com os aliados e focar em políticas industriais bem estabelecidas", explica.

Na avaliação do economista, portanto, a pressão comercial sobre Pequim deve continuar, mas pode assumir formatos diferentes dos adotados por Trump. Já Japão e Coreia do Sul podem encontrar mais espaço para negociar com Washington, por serem parceiros importantes tanto no comércio quanto em questões de defesa e segurança no Indo-Pacífico.

Os dois países, contudo, já negociaram entendimentos tarifários com o governo americano, o que torna suas posições diferentes das de outros parceiros. A Índia ocupa uma situação intermediária: é considerada estratégica para os Estados Unidos na contenção da influência chinesa, mas mantém relações econômicas com a Rússia e uma política comercial própria.

Cordenonssi acrescenta que aliados tradicionais dos Estados Unidos podem ser beneficiados pela mudança no Congresso, mas ressalta que a condução da política externa continua concentrada no Executivo. Por isso, a atuação dos democratas no Legislativo não garante alterações imediatas nos acordos comerciais.

Brasil pode ganhar espaço para negociar?

Para o Brasil, a nova composição do Congresso americano pode abrir oportunidades de interlocução, mas não assegura a retirada das tarifas aplicadas a produtos nacionais. Santos Filho considera que o Brasil ocupa uma posição diferente da China, já que não representa uma ameaça estratégica comparável para Washington. Ainda assim, o País permanece exposto a decisões comerciais do governo americano, especialmente porque as tarifas adicionais foram justificadas por meio de um instrumento legal que permite medidas direcionadas.

"A vitória dos democratas abre uma janela diplomática, mas não garante uma revisão automática. O Brasil pode abrir conversas com essa ala democrata, enviar delegações e buscar negociações mais técnicas, com compromissos específicos", afirma.

O economista acredita que a oposição no Congresso também poderá questionar os benefícios econômicos das tarifas para os próprios Estados Unidos, criando espaço para que países afetados apresentem argumentos contra as medidas. Nesse cenário, o Brasil poderia aproveitar a maior pressão institucional sobre a Casa Branca para tentar avançar nas negociações.

Cordenonssi também vê possibilidade de aproximação entre os dois países, mas considera que uma eventual revisão das taxas dependerá de outros caminhos, inclusive jurídicos. "O Brasil talvez seja um símbolo que os democratas vão buscar reverter, pela proximidade que existe entre o Partido Democrata e o PT e por todo o questionamento da imposição de tarifas que Trump fez em relação ao País. Mas essa parte da política externa está muito mais ligada ao Executivo do que ao Legislativo", avalia.

O professor acrescenta que o Congresso poderá utilizar negociações sobre orçamento e o limite de endividamento do governo americano para pressionar a Casa Branca. Ainda assim, a prioridade dos parlamentares poderá estar concentrada em questões internas, como saúde e custo de vida.

Tarifas contribuíram para insatisfação dos eleitores?

A economia esteve entre os temas que influenciaram o resultado das eleições americanas. O aumento do custo de vida e a insatisfação com os preços de produtos e serviços fizeram parte das preocupações dos eleitores, em um contexto no qual as tarifas comerciais também pressionaram os custos de importação.

Santos Filho afirma que parte desse impacto foi repassada aos consumidores americanos desde o início da política tarifária. Embora as empresas tenham absorvido uma parcela dos custos, produtos com maior presença de componentes importados ficaram mais expostos aos aumentos.

"Desde 2025, uma parcela importante dos custos foi repassada aos consumidores. As tarifas têm impacto na formação dos preços, principalmente nas categorias com elevada presença de bens importados ou de componentes importados", diz. "[No entanto], não é possível estabelecer uma relação de causalidade exclusiva entre as tarifas e o resultado das eleições. O eleitor não vota sobre tarifa de forma abstrata. Ele reage ao preço dos alimentos, automóveis, eletrodomésticos, moradia e crédito", acrescenta.

Tsunami democrata tira de Trump controle da Câmara e do Senado:

O tarifaço pode acabar nos próximos dois anos?

Apesar do novo cenário político, os especialistas não esperam que a vitória democrata provoque o encerramento imediato da política tarifária. A possibilidade de mudanças dependerá da capacidade de articulação do Congresso, de eventuais questionamentos judiciais e da disposição do próprio Trump para rever medidas.

"Essa vitória não representa o fim do tarifaço. O que ela traz é uma fase de maior contestação política e institucional. O Congresso dispõe de mecanismos que podem tornar as decisões sobre tarifas mais difíceis em várias esferas", afirma Santos Filho.

Para Cordenonssi, eventuais contestações judiciais podem levar tempo e não devem produzir efeitos imediatos sobre as taxas em vigor. O professor também não acredita que Trump vá alterar significativamente sua postura comercial apenas por causa da nova maioria legislativa.

"Eu não vejo como Trump pode mudar a estratégia de negociações comerciais. O dano que as tarifas já provocaram talvez possa ser reduzido com algum recuo, mas não acredito que isso esteja nos planos dele. Acho que ele vai querer continuar se mostrando duro e vai ficar cada vez mais isolado internacionalmente", diz.

Fonte: Portal Terra
Compartilhar
TAGS

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra