Comércio global resiste a pandemia, guerras no Irã, na Ucrânia e a tarifaço de Trump
Apesar dos choques causados pela pandemia, guerras e tarifas dos EUA que enfraquecem as regras da OMC, o comércio global segue resiliente, impulsionado pela demanda por inteligência artificial. O cenário atual reflete mais uma reorganização de parceiros comerciais e rotas de energia do que uma desglobalização total. Contudo, analistas alertam que o aumento do protecionismo e a fragmentação geopolítica ameaçam o crescimento do PIB mundial, prejudicando sobretudo as economias menores.
Nos últimos seis anos, a pandemia, duas guerras e as tarifas dos EUA abalaram o comércio mundial. Com a globalização já perdendo fôlego, trata-se de um choque temporário ou do início de uma grande reversão?Da covid-19 às tarifas de Donald Trump, passando pelas guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, a política comercial mundial atravessa o período mais imprevisível do pós-guerra.
A pandemia paralisou fábricas em todo o mundo e acelerou um movimento de afastamento da China, líder da indústria global. Em seguida, os dois conflitos abalaram o abastecimento mundial de petróleo, gás, alimentos e fertilizantes.
Paralelamente, as tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elevaram as taxas de importação americanas ao nível mais alto em décadas, forçando as empresas a buscar novos fornecedores e mercados.
Robert Staiger, economista-chefe da Organização Mundial do Comércio (OMC), classifica essa turbulência como "as perturbações mais graves e persistentes desde a criação do sistema [de comércio mundial], há 80 anos".
Comércio impulsionado pela demanda por IA
Apesar desses choques, o comércio global se manteve surpreendentemente resiliente.
Segundo o relatório anual da OMC publicado na semana passada, o volume do comércio de mercadorias cresceu 4,6% no ano passado, impulsionado pela forte demanda por tecnologias avançadas que sustentam a expansão da inteligência artificial (IA). O volume do comércio de serviços cresceu 5,3%.
A China continua sendo a maior exportadora mundial de mercadorias, enquanto os Estados Unidos foram, novamente, o maior importador. A União Europeia (UE) ocupou o segundo lugar em ambas as categorias.
Staiger, porém, afirmou na semana passada que a alta nas exportações relacionadas à IA "pode estar mascarando parte da queda no comércio mundial que, de outra forma, estaria ocorrendo".
Em sua perspectiva comercial de março, a OMC observou que os países asiáticos dominaram o comércio de mercadorias relacionadas à IA, enquanto a África, a América Latina, o Oriente Médio e grande parte da Europa tiveram participação inexpressiva.
As tecnologias relacionadas à IA representaram cerca de um sexto do comércio de mercadorias, mas foram responsáveis por quase metade do crescimento do comércio global.
Washington contorna as regras da OMC
Desde o início de seu segundo mandato na Casa Branca, no ano passado, Trump continuou a se afastar das regras da OMC sobre o comércio global.
O presidente dos EUA estabeleceu tarifas específicas para cada país, violando a regra de tratamento igualitário da OMC. Desde então, seu governo negociou isenções e tarifas "recíprocas" individualmente com os países parceiros.
Apesar disso, em nível global, cerca de 72% das mercadorias ainda são comercializadas sob as regras fundamentais da agência sediada em Genebra - o que representa uma queda em relação aos cerca de 80% registrados em 2022.
Numa perspectiva de longo prazo, no entanto, a globalização parece ter estagnado. Dados da OMC mostram que, desde aproximadamente 2015, o comércio mundial tem crescido no mesmo ritmo da economia global. Apesar das recentes turbulências geopolíticas, a globalização ainda não entrou em marcha a ré.
Autoridades e economistas afirmam que é cedo demais para saber se as guerras - somadas a uma guinada em direção ao protecionismo nos EUA, na China, na UE e no Reino Unido pós-Brexit - marcam o fim de um mundo cada vez mais interconectado.
"O mundo certamente não está se tornando mais globalizado", disse à DW Thomas Sampson, professor associado da London School of Economics. "Mas ainda é uma incógnita se estamos realmente vivenciando uma desglobalização ou apenas mudando nossos parceiros comerciais."
As transformações no comércio global
Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, a UE reduziu drasticamente sua dependência do gás russo transportado por gasodutos, de 37% no final de 2021 para cerca de 10%, segundo o Eurostat, a agência de estatísticas do bloco. As importações de petróleo e carvão russos pela UE são atualmente insignificantes.
Essas medidas impulsionaram novos acordos energéticos com os EUA, Noruega, Austrália e Cazaquistão, com o gás natural liquefeito (GNL) substituindo o gás russo transportado por gasodutos.
Moscou encontrou novos compradores de energia, notadamente China e Índia, que adquiriram petróleo russo com grandes descontos em relação aos preços de referência globais.
Camille Reverdy, pesquisadora associada do think tank Bruegel, sediado em Bruxelas, duvida que a UE retome o comércio de energia com Moscou quando a guerra terminar. "Se as alternativas se tornarem fontes confiáveis, não vejo um retorno à situação anterior", afirmou a analista à DW.
Quando a guerra com o Irã começou, no final de fevereiro, Teerã fechou efetivamente o Estreito de Ormuz, um dos gargalos mais críticos do trânsito de energia no mundo. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos (EAU) enviaram parte do petróleo por meio de oleodutos para portos alternativos.
Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), o mundo também compensou a falta de milhões de barris de petróleo com o aumento da produção dos EUA, Cazaquistão, Brasil e Venezuela. Várias nações também utilizaram cerca de 300 milhões de barris de suas reservas estratégicas de petróleo, conforme relatado pela agência de notícias Reuters em agosto.
Quase sete meses após o início do conflito, os preços da energia permanecem elevados, com o petróleo Brent sendo negociado acima de 100 dólares (R$ 520) durante grande parte da guerra. Vários analistas alertam agora para uma perigosa escassez de oferta no outono e no inverno no Hemisfério Norte.
A pressão decorrente do tarifaço de Trump também pesa sobre o comércio.
As importações americanas provenientes da China, por exemplo, caíram cerca de 28% no ano passado, segundo o Peterson Institute for International Economics, sediado em Washington. Ao mesmo tempo, as importações do restante do mundo cresceram quase 10% - grande parte provenientes do Vietnã, Taiwan e México, como parte de esforços para redirecionar o comércio e reduzir a dependência de fornecedores chineses.
A estratégia de Trump sobreviverá além dele?
Os ataques de Trump à OMC levantaram uma questão mais aguda: se a entidade fosse desativada, o que a substituiria? Especialistas aventaram várias alternativas.
Entre elas, estão a manutenção das tarifas específicas para cada país impostas por Trump ou uma rede de acordos de livre-comércio entre blocos econômicos, incluindo as nações do Brics e do Sul Global.
Uma terceira opção, sugerida por think tanks como a Chatham House, envolveria a UE, o Japão, o Canadá, a Austrália e o México, que manteriam o comércio sob regras nos moldes das adotadas pela OMC, em uma escala que os EUA e a China não poderiam ignorar.
A pesquisadora Reverdy acredita que a UE preferiria uma OMC reformada às demais alternativas.
"A UE ainda quer ser vista como líder do comércio livre e multilateral", afirmou ela à DW, destacando que Bruxelas tem acrescentado novas camadas à política comercial, incluindo a possibilidade de tornar o Canadá um membro associado.
O economista Sampson alertou que persistir na "lei da selva" de Trump prejudicaria países menores, que, segundo ele, têm uma "voz mais ativa" no atual sistema da OMC.
Sampson observou que a "confiança nos EUA como parceiro comercial desmoronou", e disse que pode levar muitos anos para que isso seja restaurado, mesmo com um presidente democrata.
Enquanto isso, economistas da OMC elaboraram modelos para diferentes cenários futuros, apontando que um maior fracionamento do comércio ao longo de linhas geopolíticas poderia reduzir o PIB global em cerca de 5% até 2050.
Em um mundo no qual a OMC não mais existisse e restasse apenas uma colcha de retalhos de acordos de livre-comércio, a queda do Produto Interno Bruto (PIB) global poderia chegar perto de 7%, com as economias menores e mais pobres sendo as mais atingidas.
Por outro lado, o fortalecimento das regras multilaterais poderia elevar o PIB global em aproximadamente 3%, segundo estimativas da organização.
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