Chuvas causam antecipação de florada nos cafezais no Brasil, com possível impacto para 2027
As chuvas volumosas que atingem áreas de café arábica do Brasil causam uma prejudicial antecipação das floradas que vão gerar os frutos para a safra de 2027, de acordo com especialistas reunidos em um fórum da cooperativa Cooxupé, nesta quarta-feira.
O inverno mais chuvoso atípico, associado às condições climáticas do El Niño, já está trazendo problemas para a qualidade do café, além do atraso na colheita de 2026, disseram os especialistas.
As floradas antecipadas, marcadas por menor intensidade, podem tirar ainda assim a energia da planta para o desenvolvimento das flores e frutos da floração principal dos cafezais, que geralmente acontece em setembro, explicaram os especialistas.
Assim, os pequenos frutos -- ou chumbinhos formados na florada principal -- estariam mais suscetíveis a cair do pé de café, afetando a produtividade da safra de 2027 no Brasil, maior produtor e exportador global da commodity.
"Quanto mais floradas (antecipadas), mais vai haver competições entre frutos grandes e pequenos... pode ser que os frutos grandes da pequena florada (antecipada) ganhem a competição de floradas médias em setembro e outubro", disse o professor José Donizeti Alves, docente de Fisiologia Vegetal da Universidade Federal de Lavras (Ufla).
A intensidade da florada e o pegamento dos frutos são etapas fundamentais para a formação da próxima safra.
"Quando tivermos chumbino (grãos pequenos) da florada de setembro, esses frutos da florada em agosto (maiores), vão competir, e pode ter queda acentuada de chumbinhos da segunda florada", explicou.
Outro desafio ressaltado pelos especialistas tem relação com a colheita da safra de 2026, que está atrasada.
Na área da Cooxupé, maior cooperativa de cafeicultores do Brasil, com atuação em regiões como o Sul de Minas e Cerrado Mineiro, a colheita havia atingido 58,3% da área até o dia 24 de julho, o menor índice registrado para esta época do ano ao menos desde 2018.
O atraso na colheita aumenta preocupações com a qualidade da safra.
"A qualidade é um ponto de atenção pelo alto volume de chuva na colheita, isso pode trazer fermentação indesejável e queda de fruto, estamos vendo muito café no chão", disse o engenheiro agrônomo Guilherme Vinícius Teixeira, coordenador de Geoprocessamento da Cooxupé.
O agrometeorologista Marco Antonio dos Santos, da Rural Clima, projeta mais chuvas para próximos 15 dias para o Sul e Sudeste do Brasil devido ao El Niño.
"Devemos regitrar mais chuvas... e a gente sabe que a situção já está caótica, já temos café no chão, baixa qualidade. E, se chover de novo, dependendo do volume de chuva, além de atrapalhar a colheita, o que vai acontecer é induzir novas floradas em meados de agosto", disse ele.
Teixeira, da Cooxupé, ponderou ainda que a safra de 2026 não será recorde, mas citou fatores climáticos anteriores às chuvas.
"Não é uma supersafra, mas é uma safra boa", disse, ressaltando que a peneira do café e o rendimento estão dentro da média histórica da cooperativa.
OUTROS RISCOS DO EL NIÑO
Se o El Niño tem antecipado as floradas e gerado preocupações com a qualidade do café, o fenômeno climático deve trazer mais desafios para o desenvolvimento da próxima safra, disse Santos, da Rural Clima.
Ele explicou que uma das características do El Niño é antecipar as chuvas, que deverão seguir nos próximos meses.
Mas o meteorologista alertou também sobre a possibilidade de bloqueios atmosféricos e períodos de seca em novembro, quando os grãos já estiverem em desenvolvimento na maior parte das lavouras.
"Se a umidade estiver boa, isso não deve gerar problemas, mas a atenção é necessária em relação às temperaturas mais elevadas", disse.
Santos disse que outra característica do El Niño é a temperatura mínima "muito alta", o que pode acelerar a evapotranspiração, afetando a lavoura em caso de ausência de chuvas ou baixa umidade do solo.
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