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'Agricultura regenerativa não é moda, é necessidade', diz presidente da Unilever Alimentos no Brasil

Para Rodrigo Visentini, custo da inação contra as mudanças climáticas já está impactando os negócios das empresas

30 jun 2025 - 11h11
(atualizado às 13h35)
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O produto na gôndola do supermercado é apenas a ponta do iceberg. Se não chover no campo, e se as cadeias produtivas não estiverem organizadas - inclusive com a presença dos pequenos produtores que tiram o sustento da terra -, nada vai funcionar de forma orgânica. Além disso, com as mudanças climáticas globais, uma espécie de tempestade perfeita pode estar se formando no horizonte.

Nesta entrevista para a série especial "A Era do Clima, Rumo à COP-30?, o presidente da Unilever Alimentos no Brasil, Rodrigo Visentini, é categórico: "O custo da inação já está acontecendo". Por isso, a COP-30, que será realizada em novembro no Brasil, deve ser tratada como um fórum essencial para a discussão de temas como fontes renováveis de energia e a agricultura regenerativa.

"São tópicos muito relevantes para nós", explica o executivo, que também discute temas como o da oferta de alimentos ultraprocessados pela indústria de alimentos nacional.

A íntegra da conversa está disponível no vídeo acima.

O tema da alimentação saudável se relaciona diretamente com sustentabilidade. Existe uma discussão importante sobre os alimentos ultraprocessados e seus impactos na saúde. Como esse assunto é tratado internamente na Unilever Alimentos?

Esse é um tema que a gente discute muito, sem dúvida. Na Unilever, temos muitos cientistas, uma estrutura forte de pesquisa e desenvolvimento, e nossa postura é sempre dialogar com especialistas e estudiosos da área. Mas, como indústria, nós focamos mais na qualidade dos ingredientes do que no grau de processamento em si. Por exemplo, na nossa granola da Mãe Terra, trabalhamos com ingredientes orgânicos, veganos, de agricultura regenerativa — como aveia e açúcar demerara. Na maionese, usamos ovos caipiras e óleo de soja regenerativo, não transgênico. A nossa Maizena não contém glúten. Ou seja, estamos muito mais preocupados com o que usamos e como esses ingredientes são consumidos do que com a discussão sobre o processamento em si. Além disso, a Mãe Terra não utiliza conservantes artificiais — apenas conservantes naturais. E seguimos melhorando continuamente nossas formulações, sempre buscando oferecer ingredientes melhores e mais saudáveis. É assim que a gente enxerga o papel da indústria de alimentos. Buscamos manter um diálogo constante com o consumidor e com os especialistas, porque acreditamos que comida não pode ser veneno. A comida tem que ser saudável e gostosa também. É importante reforçar que não se deve vilanizar um alimento isoladamente. O mais relevante é o conjunto da alimentação no dia a dia. Por isso, entendemos essa discussão como um diálogo aberto e contínuo com todos os envolvidos.

E dá para afirmar que os produtos da Unilever Alimentos hoje são melhores do que eram, digamos, há cinco anos?

Com certeza, estão melhorando. E isso vem ocorrendo independentemente de mudanças regulatórias, como a implementação da lei dos selos. A gente já vinha tirando sal, reduzindo açúcar, ajustando fórmulas para torná-las melhores, sem abrir mão do sabor. Isso é fundamental para nós. O alimento tem que ser gostoso. Se uma maionese não for gostosa, ninguém vai querer comer. Então, buscamos esse equilíbrio: melhorar o produto sem comprometer a experiência de sabor. Desde que adquirimos a Mãe Terra, por exemplo, essa tem sido uma conversa constante. Os alimentos precisam ser gostosos e saudáveis ao mesmo tempo.

E como o consumidor brasileiro responde a esses produtos com formulações mais saudáveis? Ele está disposto a pagar por isso?

O Brasil tem uma dicotomia grande em relação à renda. Por isso, tentamos encontrar formatos e faixas de preço que atendam consumidores de diversas classes. Trabalhamos com tamanhos e embalagens diferentes, como bisnagas menores e embalagens laminadas para tornar os produtos mais acessíveis sem mudar a fórmula. A fórmula é a mesma, o que muda é a entrega. Helmann's está presente em 7 a cada 10 lares brasileiros, o que mostra que nossa estratégia funciona. A mesma coisa com a Maizena, presente em 60% dos lares ao longo do ano. São marcas democráticas.

E quanto às faixas etárias ou perfis de consumo? Há uma resposta diferente entre gerações, especialmente em relação à preocupação ambiental?

Muito. A geração Z, por exemplo, é mais preocupada com a saudabilidade e o meio ambiente. A Mãe Terra é uma marca que dialoga diretamente com essa geração. Um exemplo é a nossa aproximação com o universo do surfe. O açaí, por exemplo, cresceu muito como produto por meio desse público.

Até que ponto a sustentabilidade é uma prioridade real para a Unilever Alimentos?

A sustentabilidade está, de fato, no centro da nossa estratégia. Não é um pilar separado ou periférico, mas algo integrado às decisões do negócio. Um bom exemplo é a marca Hellmann's, onde os pilares de sustentabilidade são diretamente incorporados nas ações e no posicionamento da marca. São quatro pilares, clima, natureza, plástico e impacto social, que formam as diretrizes globais da Unilever, e cada divisão, incluindo Alimentos, os adota de maneira estratégica dentro do seu contexto.

Você pode explicar um pouco como a empresa está organizada atualmente?

Há dois anos, a Unilever passou por uma reestruturação que organizou a empresa em quatro divisões globais: alimentos, cuidados com a casa (marcas como OMO, Brilhante, Comfort), cuidados pessoais (desodorantes, sabonetes) e beleza (cabelos, skincare). Além disso, houve um spin-off recente da divisão de sorvetes, que, embora ainda seja parte do grupo Unilever, passou a operar de forma separada. Cada uma dessas divisões tem um presidente no Brasil e se reporta verticalmente à estrutura global.

Em relação ao tema das mudanças climáticas, como essas diretrizes aparecem no mundo real?

Um exemplo concreto é a nossa maior fábrica de alimentos, em Pouso Alegre, Minas Gerais. Ela produz itens como maionese, os produtos da marca Mãe Terra e o caldo Knorr. Nessa unidade, instalamos um biodigestor que transforma os resíduos gerados na produção em energia limpa. É um processo que permite, por exemplo, produzirmos a granola com energia limpa usada para abastecer os fornos. Se não fosse assim, a produção dependeria de energia não renovável. Essa fábrica, hoje, não gera emissões de carbono e nem resíduos que precisam ser descartados no meio ambiente. Ela é totalmente pensada para mitigar impactos climáticos, usando energia renovável e eliminando desperdícios. É um exemplo claro de como o pilar "clima" está incorporado ao negócio de maneira prática.

E quando você fala de 'natureza', como esse pilar se manifesta na estratégia da Unilever Alimentos?

Dentro do pilar natureza, um dos principais focos hoje é a agricultura regenerativa. Pegando como exemplo a maionese, que tem o óleo de soja como principal matéria-prima, acabamos de assinar um contrato de cinco anos com o nosso maior fornecedor. Trata-se de um projeto de 5,5 milhões de euros que visa fazer com que, até 2030, 90% da soja utilizada na maionese venha de sistemas de agricultura regenerativa. É um projeto focado em pequenos produtores principalmente no bioma do Cerrado, abrangendo regiões do Centro-Oeste e de Minas Gerais. A proposta é desenvolver, com os agricultores, uma cadeia produtiva que regenere o meio ambiente. Ainda temos muito pela frente, porque trata-se de um processo que demanda aprendizado e colaboração. Um dos critérios fundamentais para entrar nesse programa é não praticar o desmatamento.

A agricultura regenerativa está presente em outras partes da cadeia de produção de vocês?

A aveia usada na granola Mãe Terra vem de agricultura regenerativa, cultivada no sul do Brasil, onde também se planta trigo. É uma escala menor do que a da maionese, claro, que está presente em oito, nove ou até dez lares brasileiros. Mas agora, com a maionese, estamos falando de um impacto em escala realmente grande. É importante lembrar que o conceito da agricultura regenerativa envolve o uso de menos pesticidas, menos água e a proteção da biodiversidade. A ideia principal é melhorar a saúde do solo e promover práticas sustentáveis, ao mesmo tempo em que se garante a produtividade do agricultor. O produtor tem um papel central e precisa continuar tendo rentabilidade. Sustentabilidade, nesse sentido, também tem uma dimensão econômica. A meta global da Unilever é alcançar um milhão de hectares com agricultura regenerativa até 2030. Esse projeto com o óleo de soja vai impactar 45 mil hectares. É um primeiro passo. Vamos ampliar para outras matérias-primas ao longo do tempo, mas nosso foco agora é fazer esse projeto funcionar bem.

No campo das emissões de carbono, há metas específicas para serem alcançadas pela Unilever Alimentos?

Temos uma meta clara: até 2030, zerar as emissões líquidas de carbono. Isso envolve toda a cadeia, não apenas o que acontece dentro das nossas fábricas. Além disso, temos as metas da redução de plásticos e da agricultura regenerativa, como mencionei. Os frascos de ketchup e Helmann's são 100% reciclados e recicláveis. No caso da maionese, 40% dos frascos já utilizam plástico reciclado. A meta é chegar a 50% até o fim do ano. Estamos avançando de forma consistente nessa frente.

O impacto social citado por você como um dos pilares está relacionado apenas ao trabalho com produtores ou há outras ações?

Vai além, mas os produtores são uma parte essencial. A marca Mãe Terra, por exemplo, já tinha essa missão de impacto social antes mesmo de ser adquirida pela Unilever em 2017. Trabalhar com pequenos produtores sempre foi um valor importante da marca, e nós mantivemos e expandimos isso. Agora, com Helmann's entrando nesse campo, o impacto tende a ser ainda maior. Além disso, Mãe Terra tem uma parceria com a ONG Amigos do Bem, no Sertão nordestino, de onde compramos castanha. Essa colaboração está estampada nas embalagens para divulgar o trabalho deles. Portanto, o impacto social acontece tanto pelo apoio direto a produtores quanto pelo incentivo a parcerias que transformam realidades locais.

Trazendo a conversa para o relacionamento com o consumidor, vocês trabalham diretamente com o público, e a comunicação, hoje em dia, é cada vez mais fluida, com múltiplos canais. Neste contexto, como a tecnologia, especialmente a inteligência artificial, está sendo utilizada?

A tecnologia, incluindo a inteligência artificial, é uma ferramenta fundamental para nós hoje. Somos uma empresa de bens de consumo centrada no consumidor, então entender o comportamento de compra e de consumo é absolutamente essencial para o nosso negócio. As ferramentas digitais mudaram os hábitos. A pandemia, por exemplo, transformou a forma como as pessoas comem, principalmente em casa. E essas mudanças exigem respostas rápidas. Hoje, usamos tecnologia para criar campanhas, mapear hábitos de consumo e, principalmente, para acessar dados de venda em tempo real. Antigamente, levava dois meses para saber se uma promoção funcionou. Agora, sabemos o resultado da semana passada. Isso nos permite reagir e tomar decisões muito mais rapidamente. E o Brasil é um país continental, e cada estado tem suas próprias características, quase como se fossem países europeus distintos. Os hábitos alimentares mudam muito de região para região. O modo como se consome maionese, por exemplo, varia bastante no Brasil — o uso culinário, os sabores preferidos, tudo muda. Com a tecnologia, conseguimos adaptar nossa comunicação e nossos produtos de forma mais criativa e específica para cada público regional. Isso faz toda a diferença.

Quais seriam, na sua visão, os principais gargalos que o setor ainda enfrenta no Brasil para deslanchar mais nos próximos anos?

Dois pontos principais: o primeiro é a questão fiscal. O Brasil está passando por uma reforma fiscal que, embora positiva, será uma transição longa e complexa. Temos muitos impostos diferentes por estado, o que torna tudo muito difícil operacionalmente. O segundo gargalo é a logística. O Brasil ainda depende demais do transporte rodoviário. Usamos cabotagem em alguns casos, mas o modal rodoviário ainda é dominante. Precisamos diversificar, investir em modais hidroviários, ferroviários, e isso ajudaria bastante a melhorar o cenário.

O Brasil vai sediar a COP-30 pela primeira vez, em Belém. Como esse evento se relaciona com os negócios da Unilever Alimentos?

A COP-30 é superestratégica não só para alimentos, mas para toda a Unilever. A empresa, de maneira institucional, vai estar dialogando com outros atores durante a conferência. A gente não faz nada sozinho. É necessário ter os órgãos do governo, as indústrias, os parceiros, as ONGs envolvidas para discutir o impacto climático, o que já está acontecendo, aliás. Tem uma visão que a gente compartilha muito internamente, que é: isso não é custo, é investimento. Se você não fizer a transição para fontes renováveis, agricultura regenerativa, por exemplo, o custo virá de qualquer forma. Ou seja, o custo da inação já está acontecendo. Então, a COP-30 é um fórum essencial para discutir temas como fontes renováveis de energia e a agricultura regenerativa, tópicos muito relevantes para nós. É um marco importante, inclusive porque se completam dez anos do Acordo de Paris, e queremos estar nessa conversa, porque o mundo já mudou. A resiliência climática é fundamental, especialmente no setor de alimentos. Se a gente não fizer nada agora, o risco é não ter alimento no futuro. A agricultura regenerativa não é moda, é uma necessidade. O solo já foi degradado, então não basta mais não piorar, é preciso melhorar. E para isso, precisamos de todos os elos da cadeia.

Você vê o setor privado efetivamente engajado nesses temas? Há diálogo real entre os elos da cadeia?

Existem muitas indústrias e fornecedores com quem trabalhamos que já entenderam o recado. A seleção de parceiros hoje passa por esse critério também. Seja quem fornece a resina plástica, os agricultores ou os fabricantes de embalagens, tem bastante gente que percebeu que sustentabilidade não é um custo adicional, é uma estratégia de sobrevivência. A preservação do meio ambiente é vital. Nós, como indústria, enxergamos assim.

Como cidadão, não apenas como executivo, qual a sua expectativa pessoal em relação à COP-30? Você é otimista ou pessimista quanto ao enfrentamento das mudanças climáticas?

Eu sou otimista. O Brasil sediar a COP é motivo de muito orgulho. A agricultura brasileira, sem entrar em questões políticas, é super relevante e pode ser feita de maneira muito boa, como a gente vê com a agricultura regenerativa. Espero que saiam ações concretas da COP-30 e que o Brasil mostre tudo de bom que tem acontecido por aqui, sem precisar entrar em discursos políticos. Temos muito a oferecer em termos de agricultura, energia e inovação. O Brasil já foi muito inovador nesses setores e continua sendo. Temos gente muito inteligente aqui, com potencial inclusive de exportar tecnologia. Acho que o Brasil pode — e deve — ser protagonista nessa conferência.

Estadão
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