Xenia França destaca força da música brasileira em festival de jazz de Marselha e prepara novo disco
A cantora Xenia França vive um momento de expansão internacional da carreira. Após se apresentar seu projeto Tudo Sobre o Amor no Festival de Jazz de Marselha, no sul da França, a artista falou à RFI sobre a recepção de seu trabalho pelo público europeu, a trajetória construída como artista independente, a conquista do Grammy Latino em 2023 e o processo de gestação de seu terceiro álbum.
Ansiosa antes de subir ao palco em Marselha, Xenia contou que a participação no festival representou um marco em sua trajetória. Embora reconheça a forte presença do jazz em seu universo musical, ela ressalta que sua obra não se enquadra no gênero de forma tradicional.
"Oficialmente, acho que esse foi o meu primeiro festival de jazz. Na verdade, meu trabalho não é um trabalho de jazz tradicional, mas obviamente o jazz influencia a minha música por causa das escolhas artísticas e musicais que eu faço", afirmou.
O convite para o festival francês nasceu de uma apresentação realizada em 2023 no Jazz Ahead, em Bremen, evento voltado para curadores e programadores de festivais. "Provavelmente o convite para o Marseille Jazz veio dessa apresentação e eu fiquei super feliz. Foi uma experiência maravilhosa", conta.
Música brasileira atravessa fronteiras
Depois de apresentações em diferentes países, incluindo Portugal e Japão, Xenia diz observar com surpresa o alcance internacional de seu trabalho. Para ela, esse reconhecimento também é resultado do legado deixado por grandes nomes da música brasileira.
"Existem artistas magníficos no nosso país. Caetano, Gil, Djavan, Milton, Gal Costa, Elza Soares. Tanta gente maravilhosa que nos ensinou a gostar de música e ajudou a construir uma linguagem da música brasileira para o mundo."
A artista acredita que sua produção dialoga com influências nacionais e internacionais, reunindo referências que vão de Michael Jackson a Sarah Vaughan, passando por Herbie Hancock e Ella Fitzgerald.
"Eu fico muito orgulhosa de que meu trabalho possa abrir esse portal para o mundo, porque eu amo o mundo."
Da indicação ao Grammy Latino à conquista do prêmio
Natural de Candeias, na Bahia, e radicada em São Paulo, Xenia aponta o lançamento de seu primeiro álbum, em 2017, como o início de uma sequência de acontecimentos decisivos para sua carreira. O disco lhe rendeu duas indicações ao Grammy Latino e abriu portas para apresentações internacionais.
"Seis meses depois de lançar esse disco, eu já estava fazendo meu primeiro show no Central Park", lembra.
Artista independente, ela destaca que cada conquista ganha uma dimensão ainda maior pela ausência de uma grande estrutura por trás do trabalho.
"O artista independente está sempre montando um quebra-cabeças de duas mil peças com pecinhas bem pequenas."
A consagração veio em 2023, quando conquistou o Grammy Latino com o álbum "Em Nome da Estrela". Para a cantora, a premiação teve um significado comparável a uma grande façanha esportiva. "Se eu fosse uma atleta ou uma montanhista, a sensação seria a de ter subido o Everest."
Ela avalia a conquista como um reconhecimento coletivo e um sinal de que sua trajetória segue na direção certa. "Ganhar é uma coisa meio surrealista. Ao mesmo tempo, honra todas as pessoas que trabalharam nesse projeto e acende um farol de que, de alguma forma, o universo está dizendo que eu estou no caminho certo."
O amor como força transformadora
Durante sua passagem pela França, Xenia apresentou o espetáculo Tudo Sobre o Amor, inspirado na obra da escritora e ativista norte-americana bell hooks. Mais do que um show, ela define o projeto como uma performance em que música e reflexão caminham juntas.
"Eu tento criar uma trilha sonora baseada em músicas que fazem sentido para mim, do cancioneiro brasileiro, de algumas referências internacionais e também do meu próprio repertório", explica.
A artista afirma que a leitura da autora ampliou reflexões que já faziam parte de seu processo de amadurecimento pessoal e artístico. Em um contexto marcado por polarizações e relações cada vez mais mediadas pela tecnologia, ela defende o amor como uma ferramenta essencial de transformação. "Eu sinto que a grande tecnologia humana é amar."
Segundo Xenia, essa visão vai além do amor romântico e se relaciona com a capacidade humana de criar vínculos, produzir conhecimento e transformar a realidade.
"O amor é essa cola, essa coisa que cria e ao mesmo tempo amalgama tudo o que existe."
Terceiro álbum está em gestação
Questionada sobre o próximo trabalho de estúdio, Xenia confirma que tem sido cobrada para o aguardado terceiro álbum, que já começou a tomar forma, embora ainda esteja em fase inicial. Ela afirma resistir às pressões do mercado digital e prefere respeitar o tempo necessário para a criação artística.
"É preciso que as coisas façam sentido para mim. É um trabalho feito à mão, costurado com linha e agulha."
A cantora revela que já retomou a rotina de estúdio, estudos e pesquisas, recolhendo referências das experiências vividas em diferentes partes do mundo. Cada viagem, segundo ela, se transforma em matéria-prima para novas composições.
"Já manifestei esse interesse para o universo, já tenho me movimentado, já tenho estado em estúdio, tenho estudado muito", diz, sem estabelecer prazos para o lançamento do novo trabalho.
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