Chef de Alto Nível está de volta! Amadores, influencers e chefs põem suas cozinhas na mesma bancada
Participantes de trajetórias distintas encontram na competição uma chance de aprender, mostrar seu repertório e se transformar com a parceria dos mentores Alex Atala, Renata Vanzetto, Jefferson Rueda e da apresentadora Ana Maria Braga
A segunda temporada de Chef de Alto Nível estreia dia 13 de outubro na TV Globo com 24 participantes, entre amadores, chefs e influenciadores. Avaliados por Alex Atala, Jefferson Rueda e Renata Vanzetto, os competidores enfrentam os desafios de cozinhas em três níveis, desde a escassez do porão até a estrutura profissional. Mais do que disputar o título, os cozinheiros encaram a pressão para se reinventar, sair da zona de conforto e expressar suas identidades culturais e regionais em cada prato.
A partir do dia 13 de outubro, 24 cozinheiros divididos nas categorias amador, profissional e da internet chegam na telinha para descobrir quem será o próximo Chef de Alto Nível. Chegando para a sua segunda temporada brasileira, o programa de competição culinária da TV Globo coloca os participantes à prova em uma grande torre de cozinhas construída dentro do estúdio no Rio de Janeiro.
O porão, no primeiro nível, é onde a escassez de recursos se coloca como principal desafio, enquanto no meio a cozinha remete à de casa, sem grandes equipamentos, mas com maior estrutura do que a primeira. A do topo é a cozinha profissional, recheada de equipamentos. Nos primeiros episódios, os participantes disputarão uma vaga nos times dos mentores Alex Atala, Jefferson Rueda e Renata Vanzetto, que, a partir do terceiro episódio, terão times de seis, dois de cada categoria nas mãos. A partir daí, os times enfrentam ainda mais desafios até a final.
No ano passado, o profissional Luiz Lira, do time de Atala, foi o grande campeão. E, agora, um novo nome entrará para o pódio do programa. Paladar conversou com os participantes deste ano e concluiu que, mais do que uma competição culinária, o reality aparece como uma possibilidade de mudança, independentemente da trajetória.
Há quem enxergue no programa uma porta de entrada para uma nova carreira, quem queira provar que existe técnica por trás da tela e quem, apesar de já ter anos de experiência profissional, esteja disposto a deixar a zona de conforto para descobrir novos caminhos. Em comum, todos chegam à cozinha movidos pela vontade de aprender, se testar e ampliar os limites do que já construíram.
Entre os cozinheiros amadores, Bruno dos Santos, nutricionista que já trabalha indiretamente com gastronomia por meio de consultorias, vê no reality a possibilidade de transformar uma paixão antiga em profissão. "Eu gostaria de me reinventar. A gastronomia é algo que eu conheci e estava bem presente na minha vida durante alguns anos atrás e agora eu quero trabalhar com isso", conta.
A ideia de se desafiar também aparece entre aqueles que já tiveram contato com cozinhas profissionais, como Mitchell Figueiredo, que decidiu participar justamente para colocar sua experiência à prova. "Enxerguei uma oportunidade de me desafiar como cozinheiro profissional. Depois de alguns anos trabalhando com isso e assumindo posições de liderança, senti que era o momento de sair um pouco da minha zona de conforto, colocar minha cozinha à prova e viver uma experiência que pudesse me fazer evoluir ainda mais".
Para os amadores, no entanto, a falta de formação ou inexperiência pode parecer, inicialmente, uma desvantagem. A dúvida sobre técnica e repertório aparece como uma preocupação comum, sobretudo diante de participantes que já passaram por cursos de gastronomia ou a tem como profissão. Bruno aposta justamente na capacidade de aprender ao longo do caminho: "as mentorias dos chefs e o apoio dos colegas que estarão do lado na fase de times, por exemplo, serão de suma importância. Eu gosto muito de absorver as coisas".
Outros preferem olhar para a falta de experiência por outro ângulo. Dudu Teruszkin, celebrante de casamentos que também encontrou na comida uma forma de se comunicar, acredita que o olhar de quem não está preso às regras pode ser, na verdade, uma baita vantagem. Para ele, "a principal força do amador é a capacidade de surpreender em cima de pessoas que já têm anos de gastronomia nas costas. Nós podemos chegar e mostrar algo inesperado, usando isso a nosso favor".
Jéssica Cunha, por outro lado, em meio a risos nervosos, admite que não vê tantas vantagens em ser amadora. "Na verdade, uma das minhas maiores inseguranças foi perceber que participantes da categoria têm cursos de gastronomia ou alguma formação na área. Em alguns momentos, me perguntei o que estava fazendo aqui". Ainda assim, ela aposta na ousadia e na ideia de que "o simples bem-feito funciona".
Para Lucio Flajore, a experiência de cozinhar em casa traz justamente uma capacidade que pode fazer diferença em uma competição: o dom de improvisar. "Quem cozinha em casa aprende a adaptar receitas, aproveitar sobras e encontrar soluções criativas quando não tem todos os ingredientes à disposição. Essa flexibilidade pode ser um diferencial em provas que exigem criatividade e adaptação rápida."
Nathascha Francis resume esse repertório afetivo em uma palavra: "borogodó". "Vou trazer para a competição aquilo que considero a essência do cozinheiro amador: o amor pela comida. Tudo o que aprendi veio da convivência com a minha mãe, a minha avó e das experiências que vivi dentro da minha família. É o borogodó do amador".
Mesmo entre aqueles que chegam com experiências de outras áreas, a bagagem pode se transformar em ferramenta culinária. Vitória Cruz, por exemplo, trabalha há cerca de oito anos atrás do balcão, como mixologista, e pretende levar para os pratos aquilo que aprendeu na coquetelaria. "Eu acho que eu consigo transmitir essas técnicas para dentro do prato."
A chegada ao reality, porém, representa também uma mudança de território. Camila Masullo quer sair do ambiente controlado do estúdio e mostrar sua cozinha diante da pressão de uma competição. "Chegou o momento de sair da zona de conforto da tela e do meu estúdio para mostrar a força da minha cozinha ao vivo, sob pressão real. Quero provar que criadores de conteúdo não são 'produtos de edição': temos técnica, repertório e uma capacidade absurda".
Ela vê na própria experiência digital, ainda, ferramentas que podem ser úteis diante das provas: dinamismo, agilidade mental, improvisação e uma leitura rápida daquilo que desperta o desejo de quem está do outro lado da tela são algumas delas. A cozinha da vida real, segundo ela, também ensinou a trabalhar com limitações. "É por isso que cair no porão não me assusta nem um pouco, pelo contrário, estou totalmente ambientada! O que para um chef profissional pode ser um pesadelo e gerar medo, para mim é rotina. Estou acostumada a fazer milagres com faca cega, tábua bamba e panela sem antiaderente".
Yasmim Juliana compartilha dessa confiança na capacidade de adaptação. Em vez de tentar antecipar tudo o que encontrará pela frente, pretende confiar no repertório que construiu. "Eu quero continuar acreditando na minha cozinha. Vou confiar nos conhecimentos que construí até aqui, nas experiências que eu já vivi e, principalmente, na minha capacidade de pensar, criar e me adaptar."
A trajetória de Gabriella Perri, por sua vez, sintetiza uma mistura de mundos e como isso pode ser sua arma secreta. Ela já foi amadora, profissional e, agora, cozinheira da internet. "Já estive em diferentes lugares dentro da gastronomia e vou usar cada uma dessas experiências a meu favor." Da primeira fase, leva a curiosidade e a disposição para aprender; da cozinha profissional, foco e responsabilidade; da internet, irreverência, espontaneidade e entretenimento. Seu desafio, portanto, é justamente conciliar essas diferentes versões de si mesma.
Quando a cozinha também é identidade
Por trás de técnica, competição e vontade de mudar de vida, existe ainda uma relação mais profunda com a comida. Para muitos participantes, cozinhar é uma forma de contar de onde vieram e se conectar com outras pessoas.
Para Deborah Pataxó, integrante de uma família indígena de pescadores da etnia Pataxó, a cozinha é o seu elo com a ancestralidade. "Desde pensar o ingrediente e os caminhos que ele percorre, se desconectando da natureza para se conectar ao nosso corpo e ao nosso espírito, a cozinha é o elo mais forte que me liga à minha ancestralidade. Um prato é muito mais do que o conjunto de ingredientes e técnicas, é tudo que foi escolhido para acessar os sentimentos de outras pessoas através dos meus próprios."
Camila Masullo também atribui à cozinha uma dimensão que ultrapassa a comida. Para ela, a cozinha representa "cura, libertação e recomeço" e se tornou o espaço em que descobriu seu potencial, recuperou a própria força e encontrou uma maneira de se expressar. A relação com a comida também passa pela memória da mãe e dos avós e pela possibilidade de entrar, ainda que indiretamente, na casa de outras famílias e inspirá-las.
Stenio Birth, por sua vez, enxerga a cozinha como uma forma de preservar e comunicar território. "A cozinha representa identidade, memória e pertencimento. Eu sou de Campina Grande, na Paraíba, e o Nordeste está presente na minha forma de cozinhar e de enxergar a gastronomia. Eu acredito que cozinhar também é contar a história de um lugar através dos ingredientes."
É justamente essa ideia de identidade que aparece também nos sonhos que os participantes querem alcançar com a visibilidade e o prêmio conquistados no programa.
O reality como oportunidade de sonhar alto
Bárbara Graziela quer transformar seu projeto de bolos e doces em algo maior e criar o bistrô Selitas, homenagem à avó, Iracema Selita. "Eu quero poder lançar um bistrô de comida quente que mistura brasilidade e a alegria da minha avó com as receitas alemãs que eu cresci comendo."
Lucio Flajore também imagina um espaço capaz de juntar suas paixões. "Imagino um restaurante mais noturno, galeria e ponto de encontro cultural, onde as pessoas possam viver experiências diferentes, apreciar boa comida, música, exposições e criatividade no mesmo ambiente", vislumbra.
Entre os cozinheiros da internet, os planos passam pela consolidação de projetos que já existem ou pela criação de espaços próprios. Deborah Pataxó espera ampliar seu trabalho com conteúdo e dar continuidade ao JOKANAS, projeto de web-documentário dedicado às culinárias tradicionais com mulheres de seu povo. "Eu espero conseguir me dedicar mais à minha criação de conteúdo, ter um retorno material e emocional muito positivo e que eu consiga viabilizar o debate das culinárias indígenas sob perspectivas de pessoas indígenas dando continuidade ao meu projeto JOKANAS."
Stenio Birth sonha com um bistrô que tenha identidade brasileira e espírito nordestino. "Quero abrir meu próprio bistrô, um lugar com identidade, que valorize os ingredientes brasileiros, principalmente os produtos do sertão e do litoral nordestino. Quero mostrar que esses ingredientes podem estar na alta gastronomia, utilizando técnica para elevar aquilo que já tem história e sabor tão fortes".
Entre os profissionais, os sonhos também são atravessados pela identidade. Leila Manhães quer ampliar o reconhecimento de uma gastronomia que, segundo ela, ainda não ocupa o lugar que deveria. "Eu espero que eu fique muito conhecida, tenha patrocínio em viagens, recebidos, panelas e muitos mimos. Meu sonho é levar gastronomia afrobrasileira como alta gastronomia, porque não é vista dessa forma. Inclusive, eu tenho um projeto, que eu não posso contar agora, mas em que busco levar a gastronomia afrobrasileira de uma forma sofisticada para todo o mundo. Há lugares em que eu pretendo fazer jantares com a comida brasileira, como Paris".
Para os profissionais, o desafio é se deixar perder o controle
É bem verdade que os profissionais já sabem cozinhar, já enfrentaram serviço, pressão, volume, liderança e imprevistos, mas o desafio, agora, é descobrir o que acontece quando tudo isso escapa das mãos e deixa de estar sob seu controle.
Bárbara Cardin declara que "o motivo principal que me fez tomar a decisão de participar do programa foi a oportunidade de finalmente aproveitar o que construí até aqui. Aceitar um novo desafio, pois sou movida por eles. Não em uma ânsia de provar meu valor, mas na intenção de sair da zona de conforto. Eu sei do meu potencial e quero ser a próxima Chef de Alto Nível".
A experiência cotidiana também pode ser uma ferramenta. Jamil Máximo pretende levar para as provas o mesmo jogo de cintura que utiliza no restaurante. Para Leila Manhães, porém, experiência profissional só ganha força quando se encontra com repertório e vivência.
"Acho que técnica a gente consegue ensinar, mas vivência, não" e, a partir dessa combinação, ela pretende construir uma cozinha autoral, alimentada por viagens, leitura, ingredientes e a própria personalidade.
É também entre os profissionais que a identidade regional aparece como projeto de afirmação. Natural de Tocantins, Marina Siqueira quer mostrar ao país que "já se faz alta gastronomia no interior" e mostrar suas criações repletas de referências de Goiás, Minas Gerais e Pará. "Gosto de transformar esses saberes em comida brasileira com técnica, mas sem perder a alma."
No entanto, justamente quem está acostumado a controlar uma cozinha pode encontrar uma dificuldade particular no reality. Marina sabe que terá de trabalhar com ingredientes, equipamentos, tempos e situações que não fazem parte de sua rotina. "Justamente por ser profissional, um dos meus maiores desafios vai ser sair do meu ambiente de controle. E acho que esse é um dos pontos que mais me interessam: descobrir como eu vou responder quando a cozinha me obrigar a improvisar".
Pedro Fartura também identifica a perda de controle como um dos principais obstáculos. "Como chef, o costume de ter as decisões passando pelas suas mãos é comum na cozinha e eu tenho certeza de que isso não vai acontecer no reality". A liderança, que normalmente funciona como ferramenta de trabalho, pode se transformar em desafio quando as decisões deixam de estar exclusivamente nas mãos de quem cozinha.
Mitchell Figueiredo, que também aposta na experiência profissional como vantagem, ainda reconhece a necessidade de adaptação. "Acredito que minha experiência profissional pode me ajudar principalmente na organização, no planejamento e na execução sob pressão. Estou acostumado com cozinha profissional, volume de produção, liderança e tomada de decisão rápida. Ao mesmo tempo, sei que o programa vai me colocar diante de situações diferentes da rotina de um restaurante, e acho que esse será um dos meus maiores desafios: conseguir adaptar minha experiência ao que cada prova exigir."
Para todos, porém, permanece uma ideia em comum: a cozinha há de ser um ponto de partida. Ela pode abrir portas para uma nova carreira, dar voz a uma identidade, recuperar memórias, ampliar um projeto ou simplesmente dar a certeza de que se é capaz.
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