Dinheiro de igrejas e bets deixam TVs e canais digitais expostos a duras críticas
Empresas de comunicação aceitam vender espaço a anunciantes que trabalham com a fé, a sorte e o azar
O novo acordo envolvendo o missionário R. R. Soares, líder da Igreja Internacional da Graça de Deus, e a Band, garantindo a ele a permanência no horário nobre para a exibição de cultos, expõe um fenômeno que há anos se intensifica na televisão: a crescente dependência de receitas vindas de setores controversos.
Segundo estimativas de mercado, o contrato pode girar em torno de R$ 5 milhões mensais, valor que ajuda a explicar por que espaços valiosos da TV aberta seguem ocupados por programação religiosa vendida como produto comercial.
No ambiente digital, a busca por financiamento também revela forte aproximação com outro polo igualmente polêmico, o das casas de apostas.
Na cobertura da Copa do Mundo, a CazéTV se consolidou como fenômeno de audiência e linguagem, mas também como vitrine onipresente de bets.
Apresentadores e comentaristas incentivam a todo momento o público a apostar nas plataformas patrocinadoras.
“É fato, não tem muito o que fazer, é o que faz girar o negócio”, disse Casimiro ao responder à reclamação de um seguidor de seu canal.
Ele afirmou ainda que “ads de bets” não afetam a CazéTV. “Prejudicar o quê?”
Ads é a abreviação em inglês para advertisements, ou seja, anúncios.
Mas o tema deixou de ser apenas um debate na internet. A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), vinculada ao Ministério da Justiça, decidiu apurar se ações promocionais exibidas pela CazéTV durante os jogos da Copa respeitam as regras de publicidade responsável, segundo informa o site Gov.br.
O ponto de convergência entre esses dois universos — igrejas televisionadas e bets — está na promessa de transformação de vida, seja por meio da fé ou pela possibilidade de enriquecimento rápido.
Defensores desses acordos argumentam que tanto igrejas quanto empresas de apostas online atuam legalmente e têm o mesmo direito de anunciar que qualquer outro segmento econômico.
No centro da discussão, os veículos de comunicação encontram dificuldade cada vez maior de conseguir verbas publicitárias em um mercado fragmentado.
A necessidade de sobrevivência do negócio parece ser mais importante do que as críticas e o eventual dano à imagem.
Não há perspectiva de reversão desse quadro. Pelo contrário.
No momento, a dependência de bem-sucedidos telepastores e de bilionárias empresas de apostas parece irreversível.
E quanto maior essa proximidade financeira, menor a liberdade das empresas de comunicação para se distanciar das polêmicas que cercam quem paga suas contas.
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