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Político ensandecido é ameaçado de impeachment... em novela

Profética em relação ao Brasil das últimas décadas, ‘O Salvador da Pátria’ mostra Sassá Mutema acometido pela ‘síndrome do poder’

8 set 2021 10h12
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No capítulo de ‘O Salvador da Pátria’ exibido na segunda-feira (6), no canal Viva, a empresária Gilda (Susana Vieira) disse que a única maneira de parar os arroubos autoritários e o descontrole administrativo de seu marido, o prefeito de Tangará Sassá Mutema (Lima Duarte), é recorrer ao impeachment.

Dois em um: o Sassá ‘ditador’ e o Sassá matuto de ‘O Salvador da Pátria
Dois em um: o Sassá ‘ditador’ e o Sassá matuto de ‘O Salvador da Pátria
Foto: Reprodução/Canal Viva e Acervo/TV Globo (Fotomontagem: Blog Sala de TV)

O folhetim escrito por Lauro César Muniz foi ao ar em 1989. Ninguém imaginaria que apenas três anos depois um presidente da República, Fernando Collor, renunciaria antes de sofrer o impeachment e, 27 anos mais tarde, uma presidente, Dilma Rousseff, perderia o cargo pelo mesmo julgamento político no Congresso Nacional.

Não se poderia prever ainda que, passados 32 anos, outro presidente, Jair Bolsonaro, seria alvo de mais de 100 pedidos de abertura de processo de impeachment. Às vezes, a teledramaturgia é mais do que um espelho da sociedade – ganha ares de ficção profética ao antecipar o futuro.

No antigo folhetim da Globo, o humilde boia-fria Sassá se transforma ao sentar na cadeira de prefeito. O poder sobe à cabeça. Ordena que dois policiais estejam a postos na frente do gabinete para prestar continência a ele todos os dias. Exige que a secretária se levante quando ele passa.

Em conversa com o delegado da cidade, faz questão de ser chamado de “Excelência”. Num encontro com jornalistas, Sassá faz uma ameaça: “Se publicarem algo que eu não disse, mando prender todos vocês”.

O homem que suscitou a esperança do povo acaba vítima da Síndrome de húbris, também conhecida como Síndrome da presunção. Húbris é um termo do direito da Grécia Antiga em referência ao excesso de orgulho e arrogância cega.

Esse transtorno já foi bastantePolítico ensandecido é ameaçado de impeachment... em novela citado, especialmente no meio acadêmico, para definir homens e mulheres que perdem o equilíbrio emocional, o bom senso e o espírito democrático ao ocupar uma posição de grande destaque.

Ao notar o ímpeto ditatorial, a agressividade e a alienação do prefeito que ajudou a eleger, a professora Clotilde (Maitê Proença), apaixonada por ele, se vê obrigada a assumir parte da culpa. “Eu criei um monstro! Um monstro!”, grita, decepcionada.

Em capítulos a serem transmitidos a partir do dia 21, o plano de Gilda para destituir Sassá – e fazer o grupo político dela reassumir a prefeitura – começa a tomar forma. Em reunião, os vereadores de Tangará decidem instaurar o processo de impeachment.

Mas a ameaça dura pouco. Um acordo de bastidores entre figurões da política local enterra o procedimento. No final da trama, Sassá recupera a essência humilde e termina nos braços de Clotilde e do filho recém-nascido.

Na sinopse original, ele seria eleito presidente do Brasil. Naquele 1989, ano do confronto entre Lula e Collor, houve pressão de Brasília para que a Globo mudasse o roteiro. Caciques de centro-direita temiam que a ascensão do personagem associado a Lula beneficiasse o candidato petista nas urnas.

No post ‘10 coincidências ligam o Sassá de 1989 ao Lula de 2021’, esse bastidor de ‘O Salvador da Pátria’ é contado em detalhes. Apesar da interferência no trabalho do autor, a novela com forte contexto político-social fez sucesso na sua exibição original. Teve média de 62 pontos no Ibope, uma das maiores audiências da história da teledramaturgia da Globo.

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