Paula Picarelli relata em livro vivência num culto religioso
Atriz se tornou ‘cética ateia’ após contestar o que acontecia em seita
O escritor inglês Aldous Huxley, autor do clássico ‘Admirável Mundo Novo’, defendia o uso controlado de LSD para ampliar a consciência e estimular a criatividade.
Ele acreditava que o ácido lisérgico elevava o contato místico do ser humano consigo mesmo.
Daí surgiu uma de suas frases mais repetidas: “Experiência não é o que acontece com um homem; é o que um homem faz com o que lhe acontece”.
Paula Picarelli decidiu transformar em livro o que viveu nos anos em que esteve imersa num culto religioso.
A atriz criou uma narrativa ficcional baseada na sua experiência em rituais com o consumo da bebida alucinógena ayahuasca.
Em ‘Seita – O dia em que entrei para um culto religioso’ (Editora Planeta), o leitor vai encontrar ainda reflexões coerentes a respeito do lado cruel da profissão de ator, como a superexposição e a busca obsessiva pela autoafirmação do talento.
Sempre lembrada pela atuação na novela ‘Mulheres Apaixonadas’, de Manoel Carlos, exibida na Globo em 2003, na qual fez par romântico com Alinne Moraes, Paula Picarelli conversou com o blog.
Como surgiu a vontade ou necessidade de escrever o livro?
Eu tinha deixado a seita que fiz parte havia quase nove anos quando decidi escrever o livro. Sentia que já tinha um distanciamento mínimo para criar uma história a partir dessa experiência, e que conseguiria olhar para essas vivências com honestidade. Quando comecei a escrever o livro, tinha um sentimento de indignação muito forte, me incomodava o fato desse tipo de coisa continuar acontecendo, pessoas enganadas na sua fé mais ingênua. E penso hoje que é interessante falar sobre nossa vontade de impor aos outros nossas crenças, já que nesse momento um grupo de pessoas deseja chegar à Presidência da República e impor ao País inteiro um tipo de comportamento. E eu também acreditava que tinha uma boa história nas mãos, que valia a pena criar uma narrativa que discutisse e escancarasse tanto os mecanismos de manipulação quanto as fragilidades que levam alguém a se envolver num culto religioso.
Como foi o processo de escrita?
Levou dois anos, entre ter a ideia, apresentá-la ao editor, terminar as revisões e a publicação. Foi curioso que os primeiros textos que se referiam à infância, adolescência e à família da personagem que leva meu nome fluíram muito bem, de uma maneira prazerosa, isso me surpreendeu. Escrevi algumas passagens de cara, já sabia qual seria o último texto, mas estava ainda buscando a estrutura. Então surgiu a ideia do interlúdio que coloca a personagem na gravação de uma novela. Uma das coisas mais difíceis foi segurar minha crítica na escrita das passagens onde Paula está dentro da seita. Eu escrevi e reescrevi esses trechos muitas vezes. Hoje sou cética, ateia, mas busquei deixar essas cenas ambíguas. Tentei segurar a ironia, o sarcasmo e a agressividade que eu sentia. Descobri com esse livro que a amargura é uma tinta que precisa ser usada de maneira comedida. Então, me colocando como leitora, fui segurando a vontade de criticar toda a experiência de cara e acho que isso foi acertado. Vejo que o livro tem dialogado com pessoas de diversas crenças e experiências, e com ateus céticos como eu.
Por que se envolveu num culto religioso?
O que leva uma pessoa a se entregar para um culto religioso não está apenas nas circunstâncias diretamente ligadas ao momento da entrada. Você encontra as motivações na infância, nas vivências até ela chegar ali. Eu tinha um apanhado de crenças que reuni intuitivamente, inconscientemente, desde criança, que me fizeram estar muito aberta, entregue, no momento em que fui para a seita. Eu acreditava ser especial, que tinha poderes paranormais, e quem não quer ser único, diferente de todos? Mas acho que a minha maior fragilidade foi um complexo de inferioridade, me achava burra, e olhava para as outras pessoas que eu achava tão inteligentes e interessantes que faziam parte do grupo e pensava ‘se elas estão aqui então esse deve ser o caminho correto’.
Optar pela ficção foi uma maneira mais fácil de abordar uma questão delicada?
Acho que a melhor forma de dizer o que penso e sinto é contando histórias. Eu queria chamar atenção para o assunto, e não para um caso específico. Usei esse recurso de transitar entre ficção e realidade para despertar a curiosidade. Quero que as pessoas fiquem curiosas para saber o que realmente aconteceu ou não. Eu quero que as pessoas leiam o livro até o final. A curiosidade é a porta de entrada mas, na verdade, quero abrir discussões. A religião é uma seara que coloca as coisas num lugar indiscutível. A fé é irracional, mas se alguém mandar você se deitar no chão e você se deitar, obedecer, sem pensar, tem alguma coisa errada aí. Se alguém humilhar outra pessoa na sua frente, ou te humilhar, e um grupo apoiar essa atitude, tem alguma coisa errada. Há um mínimo de pensamento que não dá pra abrir mão. O que o livro faz, espero, é apontar esses indícios de manipulação psicológica.
Sentiu-se mais estimulada a escrever após apresentar o programa de literatura ‘Estrelinhas’, na TV Cultura?
O ‘Entrelinhas’ foi uma experiência muito rica, pude conhecer artistas incríveis. Hoje, depois de escrever o livro, vejo a literatura com outros olhos. Agora consigo reconhecer quase imediatamente as estratégias que um autor usa. Na verdade, costumamos exercitar a escrita dentro do grupo de teatro que faço parte, a Cia. Hiato. Nós, atores, ao lado do diretor e dramaturgo, contribuímos bastante para a dramaturgia durante os processos de criação. Eu usei alguns procedimentos que estudamos na companhia para a escrita do livro. Incluir o que acontece com você durante o processo, por exemplo. Numa das primeiras revisões de texto, a editora me disse que eu precisava me decidir pelos tempos verbais, ora eu usava os verbos no passado, ora no tempo presente, e isso acabou entrando no livro na voz da mãe da personagem Paula. Essa linha tênue entre realidade e ficção também é algo que estudamos no grupo.
Poucas atrizes são também escritoras. Pensa em seguir carreira na literatura?
Acho que sim, vou escrever mais. Mas com certeza vou esperar bastante tempo (risos). Me indicaram cursos de literatura para fazer durante o processo de escrita e achei isso ótimo. Sou atriz, não estou acostumada a esse tipo de processo solitário. Para escrever ‘Seita’ me inspirei em alguns livros, filmes e histórias pessoais minhas e de pessoas próximas. Encontrei na poesia de Bruna Beber uma forma de me relacionar com as histórias da minha família. Sua poesia tem um olhar amoroso, um tipo de humor que me atrai. Li também ‘Um Carretel de Linha Azul’, de Anne Tyler, para atentar à fluência na narrativa. ‘A Noite da Arma’, de David Carr, me ajudou a entender como contar uma história a partir de uma parte da minha vida que eu desprezo. Algumas imagens foram inspiradas no genial ‘O Guia Definitivo dos Mochileiros das Galáxias’, de Douglas Adams. Os li vros de Jon Krakauer, principalmente o “Pela Bandeira do Paraíso”, inspiraram coragem e discussões sobre o assunto. Também recorri aos documentários ‘Going Clear: Scientology and the Prison of Belief”, de Alex Gibney, e ‘Holy Hell’, de Will Allen. E diversas histórias que pessoas me contaram. Muita gente divide comigo suas experiências e percepções. Tudo serviu de material de criação.
Por que decidiu não fazer mais novelas?
Não me afastei totalmente da teledramaturgia. Faço parte do elenco fixo da série ‘Psi’, de Contardo Calligaris, com roteiros dele e de Thiago Dottori. A série já vai para a quarta temporada na HBO. Estou também no elenco de ‘Escola de Gênios’, do canal Gloob. Não aconteceu de fazer outras novelas, me envolvi em projetos intensos, viajei com a Cia. Hiato para nove países com nossos espetáculos, entre eles Estados Unidos, Bélgica e Romênia. Vamos estrear “Odisseia” agora em maio, em Atenas, na Grécia. Escrevi e atuei num monólogo, ‘A Domadora’, ano passado. Acho que hoje o mercado de trabalho dos atores está muito mais amplo, novelas são uma das opções.
O livro destaca seu incômodo com o processo industrial da televisão e o ônus da fama. Acha que a TV deixa a arte e o artista em segundo plano?
No livro escolhi criar um ponto de vista ácido sobre a passagem da personagem por uma novela. Mas, cada linguagem tem uma demanda diferente, exige do ator habilidades diferentes. As novelas te exigem prontidão e 100% de disponibilidade de tempo por oito meses inteiros. Você precisa responder rapidamente ao texto, com pouco tempo de preparo, precisa ter o que o papel pede na manga. Ouvi Matheus Nachtergaele dizer uma vez que há novelas em que acontece da dramaturgia, direção e atores estarem em estado de arte. Acontece de uma novela pegar os artistas num bom momento e resultar cenas excelentes. Acho que o que mais estamos atentos nos dias de hoje tem a ver com o conteúdo. São interessantes as discussões éticas sobre a responsabilidade dos atores quanto ao conteúdo de seus trabalhos. Nem sempre está em nossas mãos. Numa novela, por exemplo, não temos como controlar, ou não te mos como ter consciência das posições ideológicas do trabalho como um todo. Mas fazendo parte disso estamos colocando nossa assinatura ali também. Os tempos atuais nos exigem essa postura. Acho que vamos ter cada vez mais que pensar melhor no que estamos dizendo em cena. E pensar dá trabalho, é mais fácil agir obedecendo a um grupo ou a um líder. Acho que o livro fala um pouco disso também.
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