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Netflix conta luta do gay mais odiado e espancado do planeta

Peter Tatchell já foi xingado de “bicha comunista”, “fascista gay” e “terrorista homossexual” por sua atuação contra homofóbicos

25 mai 2021 09h15
| atualizado às 10h27
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Uma camisa da torcida do Brasil foi o disfarce usado por Peter Tatchell para passar despercebido ao acessar a Praça Vermelha, em Moscou, a fim de fazer um protesto solitário pró-LGBT+ e contra o presidente da Rússia, Vladimir Putin, na Copa do Mundo de futebol, em 2018.

Cenas do documentário sobre Peter Tatchell: militância marcada por vitórias, ameaças e violência
Cenas do documentário sobre Peter Tatchell: militância marcada por vitórias, ameaças e violência
Foto: Divulgação/Netflix

Conseguiu o que queria: visibilidade na mídia dos quatro cantos do planeta. “Roubei o protagonismo do Putin”, disse, irônico. Ele foi preso e logo liberado, como aconteceu em boa parte dos 3 mil protestos dos quais participou em mais de 50 anos de ativismo pelos direitos civis de gays e lésbicas.

A história de um dos mais importantes e polêmicos militantes de todos os tempos é contada no documentário ‘Peter Tatchell: Do Ódio ao Amor’, que estreou este mês na Netflix. A produção executiva é do cantor Elton John e do marido dele, David Furnish.

A entrevista com o ativista, hoje com 69 anos, é feita pelo ator Ian McKellen, 81 anos, o Gandalf da franquia ‘O Senhor dos Anéis’, gay assumido desde a década de 1980 e também atuante no movimento LGBT+.

Nascido em lar evangélico, Peter Tatchell cresceu com a imagem estereotipada e preconceituosa do que seria um homem gay: “Um velho que molestava crianças”. Somente na juventude se permitiu admitir o desejo reprimido.

Mesmo assim, vivia com medo. Temia que a mãe e o padrasto violento o denunciassem à polícia numa época em que, na Austrália, a homossexualidade era punível com prisão e gay poderia ser submetido a tratamento psiquiátrico compulsório.

A visão de mundo do jovem Peter começou a mudar quando o noticiário na TV destacou a morte de meninas negras em uma igreja incendiada por supremacistas brancos no sul dos Estados Unidos.

O ativista Peter Tatchell com o ator Ian McKellen, entrevistador no documentário dirigido por Christopher Amos
O ativista Peter Tatchell com o ator Ian McKellen, entrevistador no documentário dirigido por Christopher Amos
Foto: Instagram/@thechrisamos

A luta dos afroamericanos por direitos civis despertou nele o interesse pela militância em prol de gays e lésbicas. Crítico da guerra do Vietnã, mudou-se para a Inglaterra aos 19 anos por não aceitar integrar tropas australianas enviadas ao front.

Em Londres, Peter imediatamente passou a fazer parte de grupos pró-LGBT+. Em 1972, ajudou a promover a primeira Parada Gay do País. Seu destemor o fez ganhar fama e respeito entre os ativistas. Tentou se eleger deputado. Foi alvo de uma campanha suja baseada em sua sexualidade. Perdeu a eleição, porém saiu com mais prestígio.

Em época anterior à internet, Tatchell tinha impressionante senso midiático. Suas ações públicas eram comunicadas antes à imprensa. Quando ele surgia para protestar contra os políticos, a polícia, a igreja e a sociedade homofóbica em geral, lá estavam repórteres, cinegrafistas e fotógrafos prontos para registrar e repercutir. Um marqueteiro do ativismo.

Peter se projetou em um tempo muito mais intolerante do que o atual. Sexo, mesmo consensual, era proibido por lei a menores de 21 anos. Policiais à paisana vigiavam banheiros públicos para prender gays que insinuassem interesse sexual. Um beijo em público poderia render prisão em flagrante por atentado ao pudor. Pessoas do mesmo sexo não tinham direito à união civil tampouco recebiam benção na igreja.

O documentário mostra a então primeira-ministra Margaret Thatcher, de pensamento conservador, como vilã. Ela impulsionou uma lei que proibia professores de falar sobre homossexualidade nas escolas.

Tatchell estava no oposto do espectro político: era visto como um esquerdista radical. Em um indiciamento na polícia, chegou a ser descrito como ‘queer terrorist’ — terrorista viado, em tradução condizente com a intenção pejorativa do termo.

Alto e magro, de aparência frágil, Peter apanhou muito ao longo da vida. Empurrões, chutes, socos, garrafadas, tentativas de estrangulamento. Certa vez, ao dar ‘voz de prisão civil’ ao ditador de Zimbábue, Robert Mugabe, levou golpes no rosto e na cabeça que deixaram sequelas neurológicas. Na Rússia, foi atacado por neonazistas.

Na batalha contra seus inimigos, ele usou táticas eticamente contestáveis, como revelar a homossexualidade de enrustidos famosos, como políticos e bispos. O filme usa trechos dos incontáveis programas de TV nos quais foi duramente questionado por expor a sexualidade de pessoas públicas.

“Não se preocupa em ser odiado?”, pergunta um apresentador. “Preferiria ser amado e valorizado”, responde o militante. O título original da produção é ‘Hating Peter Tatchell’, ou seja, ‘Odiando Peter Tatchell’.

Em depoimento no documentário, aquela que já foi a maior autoridade da igreja Anglicana, ao lado da rainha Elizabeth, e teve uma missa de Páscoa interrompida por um discurso do ativista, reconhece o mérito de Tatchell em sua incansável batalha por igualdade. “Ele está, sem dúvida, do lado certo da história”, diz George Carey, ex-arcebispo de Canterbury.

Paralelamente ao contexto histórico contra a homofobia e em favor dos LGBT+, o filme acerta ao descortinar a relação terna e, ao mesmo tempo, conflituosa entre Peter e sua mãe. A carismática senhora, já bastante idosa, hoje o aceita e até demonstra orgulho pelo filho.

Contudo, ainda condena a homossexualidade de acordo com os dogmas do fundamentalismo cristão. Outra abordagem relevante é sobre o aumento da discriminação e da estigmatização de gays a partir da epidemia da aids.

Muitos LGBT+ brasileiros, que se acham ‘lacrativos’ por exprimir sua identidade sexual livremente, em qualquer lugar, não fazem ideia – e tal ignorância é inadmissível – que os verdadeiros ‘lacradores’ foram militantes como Peter Tatchell.

Sem a coragem e a ação política de precursores audazes como ele, a maioria dos gays estaria hoje ainda escondida dentro do armário e renegando a si mesma.

Em tempo: o militante mais detestado do mundo planeja protestar ano que vem na Copa do Catar, na primeira vez que o torneio da FIFA acontecerá em um País árabe e de maioria muçulmana. Resta descobrir se o destemido Peter vai recorrer à mesma camisa do Brasil para se infiltrar.

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