Leifert e direção do ‘BBB’ erram ao se omitir sobre racismo
Apresentador desperdiça a oportunidade de oferecer valiosa contribuição a debates sociais refletidos no reality show
No Jogo da Discórdia do episódio de segunda-feira (5) do ‘BBB21’, João e Camilla verbalizaram a dor emocional provocada pelo racismo. Dor geralmente incompreendida e até criticada por quem não a sente. Vira ‘mimimi’ na interpretação daqueles que consideram ‘normal’ e aceitável debochar das características do outro.
O comentário infeliz de Rodolffo, que comparou o cabelo black power do professor com uma peruca desgrenhada de homem das cavernas, levou o competidor às lágrimas e o fez representante de milhões de outros brasileiros igualmente discriminados e ironizados por ter cabelos crespos.
“Machucou muito. E não adianta você vir com o discurso que não teve a intenção porque eu estou cansado de ouvir isso, não é só aqui dentro. É lá fora também. Nunca ninguém tem a intenção de machucar”, disse João ao cantor sertanejo. Aqui fora, a assessoria de Rodolffo se manifestou.
“Não foi dito na maldade, mas que isso acaba sim ferindo a alguns”, afirma trecho do comunicado postado em rede social. ‘Alguns’ são os 56% da população do Brasil formados por pretos e pardos — e muitos brancos que também sofrem zoação por não ter ‘cabelo bom’.
Diante do contundente e comovente desabafo embalado em conscientização social de João e Camilla, ao vivo, o que fez Tiago Leifert? Nada. “Vamos dar um tempo para eles se acalmarem. João vai beber uma água. Vão precisar conversar mais. Mas o jogo tem que continuar”, minimizou.
É sempre assim: calma, vai passar. Negros escutam isso há séculos, antes e depois da abolição. Mas não passa. O racismo não passa. Depois, Tiago comentou superficialmente sobre “assuntos relevantes” da sociedade que surgem dentro da casa, “que eles tratam do jeito deles”.
O apresentador e a direção do ‘Big Brother Brasil’ não deveriam tratar com o público de casa de tema tão urgente? Além de ser jornalista, Tiago Leifert tem formação em Psicologia. Teoricamente, ele seria mais sensível e preparado para compreender, explicar, acolher. Fazer graça com o ‘fogo no parquinho’ é fácil. Difícil é fazer história.
A cúpula da Globo, aparentemente preocupada no combate ao racismo dentro da própria emissora e na sociedade em geral, e que produz consistentes campanhas antirracistas, não deveria aceitar tamanha omissão. E o todo-poderoso diretor do ‘BBB’, Boninho, que se manifesta a respeito de tantos aspectos do reality show, não deveria se manter calado diante do racismo no programa sob sua responsabilidade.
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