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Artistas da TV dão visibilidade a uma onda de fluidez sexual

Público é surpreendido especialmente com atrizes vistas como heterossexuais em relacionamento com outras mulheres

20 jan 2020
12h00
atualizado às 12h07
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Em tempos de radicalismo contra a diversidade sexual, o Brasil assiste a um fenômeno na sociedade e entre as celebridades: o desejo sexual fluido, acima dos rótulos a respeito de orientação sexual. Pessoas anônimas e famosas se permitem novas experiências sem necessariamente se assumir bissexual ou homossexual.

Camila Pitanga, Vitoria Strada e Bianca Comparato: desejo livre e fama usada contra o preconceito
Camila Pitanga, Vitoria Strada e Bianca Comparato: desejo livre e fama usada contra o preconceito
Foto: Divulgação

A mídia tem destacado os casos de atrizes vistas durante muito tempo como heterossexuais e que agora vivem relacionamento com mulher. Camila Pitanga namora a artesã Beatriz Coelho. Vitória Strada e Marcella Rica estão juntas. Alice Braga e Bianca Comparato assumiram romance recentemente. Laryssa Ayres e Maria Maya trocam declarações de amor nas redes sociais. Nanda Costa e Lan Lanh planejam filhos. Além destas, várias outras famosas passaram a viver uma fluidez sexual sem culpa.

O Terra conversou com a psicóloga e coach Alessandra Assis a respeito dessa realidade.

Essas atrizes que vivem livremente seu desejo representam um movimento de maior experimentação sexual?

Sim, é quase uma nova proposta de comportamento sexual.  Muita coisa mudou em relação ao comportamento sexual das mulheres nos últimos 50 anos. Hoje em dia, a grande maioria possui maior liberdade e autonomia sexual e escolhe com quem e quando quer ter sexo.  A liberdade de expressão e a diversidade sexual são presentes no meio artístico. Muitas atrizes usam as redes sociais, principalmente o Instagram, para combater todos os tipos de preconceitos e assumirem quem são, o que querem e com querem estar. Não que não existissem atrizes homossexuais ou bissexuais antigamente. Sempre existiram, porém, era mais velado por medo da rejeição e do preconceito do público, como também de possíveis boicotes profissionais. Hoje, as atrizes se permitem viver sua orientação sexual independentemente de agradar ou não ao empregador e ao público. Assumem a liberdade de ser quem são e ainda usam o poder de influência para combater a homofobia.

A diversidade sexual alimenta a curiosidade de muita gente. Ter uma experiência isolada ou eventual com pessoa do mesmo sexo faz um heterossexual se tornar automaticamente bissexual, ou isso não muda a preferência sexual dominante?

Ter uma experiência isolada não faz com que um hétero se torne bissexual. Vivemos um momento de fluidez sexual, as pessoas podem ser heterossexuais, homossexuais ou bissexuais hoje e não serem amanhã e está tudo certo. Cada vez mais tenho recebido na clínica adolescentes e adultos com o seguinte discurso: “Eu amo pessoas”. O que isso quer dizer? Significa que eles amam estar com pessoas do mesmo sexo ou do sexo oposto, tudo depende da vontade do momento. Por que é importante definir qual orientação sexual a pessoa tem? E por que ela não pode mudar? Algumas pessoas apresentam dificuldade em aceitar a bissexualidade, como se fosse uma bizarrice ou algo passageiro, mas é importante que as gerações Baby Boomers (nascidos de 1945 a 1960) e X (da década de 1960 até o final dos anos 70), compreendam que as gerações Y (1980 a 1995), Z (meados da década de 1990 até 2010) e Alpha (a partir de 2010) não se renderão a quaisquer tipos de preconceito. Essas novas gerações são mais experimentadoras que as anteriores e fogem do que é considerado dentro da “normalidade”, não pelo prazer em transgredir, mas sim pela busca total da liberdade de escolha. Hoje em dia, levam em consideração afinidades e outras prioridades, e não a questão do gênero.

Como analisa essa liberdade sexual de se relacionar com homens e mulheres sem se preocupar com rótulos? É tendência comportamental ou modismo?

Uma tendência comportamental, sem dúvida. Sabe aquele ditado que diz: “Aceita que dói menos”? Pois é isso. É natural que haja um período de transição entre as novas gerações, que vão se libertando de conceitos e padrões obsoletos e trazem para a realidade atual as pessoas mais conservadoras e agarradas a padrões de comportamentos mais bem aceitos, mas que são muitas vezes geradores de insatisfação e frustração.  Claro que há, por exemplo, algumas meninas que fazem porque acreditam que esse comportamento está na moda ou porque os meninos acham sexy ver duas garotas “se pegando”. Enfim, as novas gerações estão se criando em um ambiente mais plural, no qual existe numeroso conjunto de identidades sexuais à disposição. A bissexualidade não é um fenômeno novo, está apenas se tornando cada vez mais visível.

 A psicóloga Alessandra Assis: “Ao longo da vida aprendemos diferentes formas de vivenciar nossos desejos”
A psicóloga Alessandra Assis: “Ao longo da vida aprendemos diferentes formas de vivenciar nossos desejos”
Foto: Divulgação

Os conservadores acreditam que os artistas e a TV influem na preferência sexual das pessoas. Isso é mesmo possível? Uma cantora bissexual ou um personagem gay de novela podem mudar a sexualidade de alguém?

A mídia é grande influência e uma importante referência para a vida do jovem adolescente entre a faixa dos 12 aos 17 anos. Algumas novelas recentes e séries da Netflix despertaram nos jovens a curiosidade pelo tema por exibir personagens que representam o público LGBT (Lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e transgêneros). Podemos citar Orange is the New Black, Eu, Tu e Ela, Sense8, Vis a Vis e Pretty Little Liars, entre outras. Apesar dessa influência, um programa de TV não necessariamente irá mudar a sexualidade de uma pessoa. Vale ressaltar que não nascemos com uma orientação sexual definida, pronta, acabada. Pelo contrário, ao longo da vida vamos aprendendo e nos identificando com diferentes formas de vivenciar nossos desejos de forma mais fixa ou fluida, conforme a experiência de cada um.

Acha que a televisão deveria falar mais de sexo e sexualidade? O veículo pode contribuir para derrubar preconceitos?

Creio que não só a TV, como os educadores e os pais devem sim falar mais sobre sexo e sexualidade, visto que a informação correta sobre diversos temas pode desmistificar tabus e colaborar para que haja menos preconceito. Com isso, diminuir os severos limites sociais e estigmas colocados em qualquer pessoa que queira explorar a fluidez sexual, ou a liberdade de vir a ser o que se quiser ser. Nas escolas, a sexualidade é um assunto incorporado no currículo como tema transversal e de suma importância. A sala de aula e a sala de casa devem ser um espaço para que o jovem possa expor seus questionamentos e colocar para fora todos os seus sentimentos, sem receios.

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