Ator de 'Vidas em Jogo' diz que pensa em escrever para a TV
André di Mauro é um entusiasta. Ciente de seu farto sorriso, este ator de 45 anos praticamente cresceu na tevê, desde sua estreia em Malu Mulher, na Globo, em 1979. De lá para cá, o irmão da atriz Cláudia Mauro e sobrinho-neto de Humberto Mauro, um dos primeiros cineastas do país, construiu uma trajetória entre os palcos e a tevê, onde quase sempre esteve no ar em emissoras como a extinta Manchete, Globo, Rede TV! e, por fim, a Record - onde assinou um contrato de cinco anos. Com papéis diversificados na emissora, na qual estreou em Prova de Amor, em 2005, André agora se deleita com o recente milionário e ex-policial Carlos, de Vidas em Jogo, da Record. O personagem começou a história de Cristianne Fridman como um morador e líder de um prédio abandonado no Centro do Rio. "Este é o personagem mais difícil que já fiz até hoje. Normalmente, quando você recebe um personagem, molda com as referências de seu passado. Mas o Carlos sempre teve mistérios. Só agora sei quem ele é", analisa.
Seu personagem mudou radicalmente na trama. Você chegou a precisar fazer composições distintas para esse papel?
André - Olha, foi super difícil porque foram dois personagens em um. No início, quando ele era mais sonhador e hippie, fugia de um trauma, que foi o assassinato de sua mulher. Fiz uma composição inspirada no (Charles) Chaplin, apesar do visual não ser parecido. Me baseei no clima lúdico do Chaplin, nas brincadeiras, a amizade, a relação dele com o cachorrinho, o amor platônico. Mas sempre de forma singela, de um cara que faz esculturas, toca um sax de bambu, que transforma sucatas em obras de arte e instrumentos. No início, o Carlos era um artesão da sucata. Me inspirei em pessoas mais excêntricas da internet. Compus nessa linha, com um andar e movimentação corporal próprias para ele. Depois, tive de desconstruir tudo e fazer um cara mais forte e durão.
Que recursos você buscou para essa mudança?
André - Voltei a malhar mais para pegar outra postura. Afinal, descobri que o Carlos é um ex-policial. Um cara que enfrenta vários traficantes de uma vez tem de ser forte, ter preparo físico. Não dava para ser magrinho. Costumo andar na praia no final do dia e fazer umas barras. Intensifiquei os exercícios e passei a fazer mais braço e peitoral. Ele virou um cara mais corpulento. Mudei minha voz, que está mais grave, mais encorpada. Ele também sorri menos, tem cabelo curto. Mas continua carinhoso com os filhos e com o cachorrinho Zé.
Antes do Carlos, você conseguiu se destacar em personagens bem diversificados na Record, como o pedófilo Lipe, de Chamas da Vida, e o eunuco Hegai, em A História de Esther. A que você atribui seu crescimento na emissora?
André - A muitas coisas. Consegui assinar um contrato longo. Acho que o Lipe me deu muito destaque e chamou atenção na minha carreira. Ele teve uma repercussão e uma função social importante. Soubemos de muitos relatos de pedofilia e as pessoas começaram a denunciar por causa dele. Isso me levou a outro patamar na Record. Sinto que a direção da emissora tem confiança no meu trabalho e me entrega personagens maravilhosos e completamente diferentes. Acho chato quando você é rotulado como um só tipo. Também acho que a Cristianne (Fridman) é uma das melhores autoras da atualidade. Os personagens dela nunca ficam estagnados, são sempre fortes e reais.
Você estreou na tevê em 1979, em Malu Mulher, na Globo, há mais de 30 anos. Como você analisa sua trajetória como ator?
André - Acho que hoje em dia os atores estão bem melhores do que nessa época em que estávamos restritos apenas à Globo. Eu tinha 13 anos. Comecei na tevê e no teatro simultaneamente. Eu tinha um grupo teatral, o Além da Lua, com a Lícia Manzo, que hoje é autora de A Vida da Gente. Éramos um grupo de adolescentes. Tínhamos somente o teatro e a Globo. No cinema, só haviam pornochanchadas. Depois, fiz a primeira novela da Manchete, Antônio Maria (de Geraldo Vietri). Em seguida, trabalhei com o (diretor Walter) Avancini em Xica da Silva. Pena que a Manchete não se firmou como a Record na dramaturgia. Mas é bom ver que agora temos concorrência, com essa transição de atores de uma emissora para outra. Mas tive sorte porque quase tudo que teve de produção esporádica, fora da Globo, em teledramaturgia, eu participei, como na Manchete e na Rede TV!.
Você também escreve peças, curtas e roteiros há muitos anos. Planeja escrever para a tevê?
André - Ultimamente tenho pensado mais nisso. Escrevo desde os 12, 13 anos de idade. Logo ganhei alguns prêmios como autor no teatro e nunca parei de escrever. Tenho livros publicados, sete peças que já foram montadas, já escrevi um seriado, o Pousada Búzios, que foi exibido na TVE, e tive experiências independentes, como roteiros de curtas. Meu último movimento foi participar do concurso para autores da Record, aquele que a Gisele Joras ganhou. Fiquei entre os primeiros lugares, segundo ou terceiro, não lembro. Era para fazer um projeto de novela, mas fiz uma minissérie de época. Tenho vontade de voltar a escrever para a tevê. Mas não sei se conseguiria fazer novela, talvez um seriado semanal. Algo que dê mais tempo para elaborar.