Acusados de crimes viram galãs desejados graças à sexualização desavergonhada feita na TV e nas redes sociais
Quando um fora-da-lei ganha fã-clube, a vítima desaparece e o delito acaba embalado como entretenimento
Nos Estados Unidos, Luigi Mangione ressurgiu num tribunal e a internet voltou a elogiar sua beleza, sem nenhuma palavra de respeito à memória do homem que ele matou.
Em São Paulo, Cristian Cravinhos, ex-presidiário do caso Richthofen, gera manchetes por supostamente faturar R$ 30 mil em poucos dias vendendo material com nudez e anunciar novos vídeos usando calcinha.
Na Bahia, o influenciador de conteúdo adulto Júnior Honorato aparece na TV em matéria sobre prisão por drogas, ganha apelido ‘bandigato’ e 150 mil novos seguidores.
Pelo visto, basta um rosto bonito, um corpo malhado ou uma personalidade carismática para que a ficha criminal seja desprezada em nome do fetiche.
Caso seja apenas uma leve atração física, menos mal.
Pior se o interesse crescer a ponto de ser caracterizado como hibristofilia passiva.
Trata-se da condição em que a pessoa sente desejo sexual ou impulso romântico por criminosos, sem a intenção de participar de atos ilícitos.
Existe a versão mais grave, a hibristofilia ativa ou agressiva, quando surge a vontade de incentivar ou atuar em atividades criminosas junto com um infrator admirado pela beleza e sensualidade.
Para a Psicanálise, essa parafilia pode ser entendida como um fenômeno ligado ao inconsciente e às fantasias do sujeito.
A figura do transgressor provavelmente representa pulsões e conflitos relacionados a poder, submissão, histórico de agressões e outras questões íntimas.
Não faltam incentivos para o desenvolvimento dessa fixação.
Na mídia em geral e, principalmente, nos programas policiais, vários suspeitos e condenados recebem status de celebridade por representar potencial de audiência.
Muitas vezes, a vítima é tratada como mera coadjuvante e a gravidade do delito acaba relativizada.
No fim, o que seria uma notícia séria vira entretenimento picante.
A filósofa Hannah Arendt tinha razão ao apontar a capacidade humana de banalizar o mal.
Quando criminosos passam a despertar fascínio e tesão, parte da sociedade deixa de repudiá-los e faz um consumo recreativo da violência.
Violência esta que, a cada dia, se torna mais feia e assustadora.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.