'Temos a mesma mentalidade de Van Gogh e Michelangelo', diz pioneiro do uso de IA na arte
Ferdi Alici, convidado do São Paulo Innovation Week e fundador de estúdio que trabalha com projetos artísticos construídos a partir do uso de inteligência artificial e ciência de dados, fala sobre inovação no mundo da arte
O que significa ser um artista no século 21, em um mundo dominado pela tecnologia? Essa é a questão levantada por Ferdi Alici, fundador do Ouchhh, estúdio pioneiro no uso de inteligência artificial e ciência de dados na criação de projetos artísticos em ambientes físicos e digitais.
"Nosso mote principal é 'o dado como tinta e o algoritmo como pincel'. Isso significa que temos a mesma mentalidade dos pintores de 500 anos atrás, como Van Gogh, Michelangelo e Leonardo. Mas nossas ferramentas são muito diferentes neste século", diz o artista e empresário turco ao Estadão.
Alici é um dos palestrantes confirmados no São Paulo Innovation Week. O evento de inovação, tecnologia e empreendedorismo reunirá mais de mil convidados brasileiros e internacionais, entre os dias 13 e 15 de maio, na Mercado Livre Arena Pacaembu e na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap).
O festival é uma realização do Estadão, em parceria com a Base Eventos. Assinantes do Estadão podem comprar ingressos com 35% de desconto: para adquirir o passaporte para os três dias de evento. Não assinantes podem acessar este link.
Nascido em 1981 em Esmirna, na costa do Mar Ege, na Turquia, Alici fundou o Ouchhh em 2011 e, desde então, vem integrando arte, ciência e tecnologia. "Não é um projeto de um único indivíduo, é um estúdio enorme, em Istambul. A equipe é formada por pessoas muito talentosas: engenheiros, acadêmicos, cientistas de dados, programadores de IA, arquitetos e artistas de novas mídias", ele explica.
Os trabalhos realizados por ele vão desde de colaborações com grandes marcas, como Bulgari, Nike e Ferrari, a exposições imersivas e projetos que buscam ultrapassar os limites do que entendemos como arte. A empresa de Alici foi, por exemplo, a primeira a enviar uma obra criada com IA para a lua.
A empreitada nasceu de uma parceria com o Human Cell Atlas, projeto global que busca criar um mapa abrangente de todas as células humanas, e com a CERN (Organização Europeia para a Investigação Nuclear), o maior laboratório de física de partículas do mundo.
O Ouchhh alimentou uma IA com mais de 37 trilhões de dados sobre as células humanas, criando uma espécie de autorretrato da humanidade a partir da percepção da máquina. Em fevereiro de 2024, a obra foi inserida em um nanodisco e enviada à lua em um foguete da SpaceX . "Esse era um dos meus sonhos de infância", diz ele. "Aí você consegue ver que não é sobre o algoritmo. É sobre a ideia, sobre criar algo complexo."
Em conversa com a reportagem, Alici defende que não há regras para a criação artística e que não deve haver limites para o uso da inteligência artificial na arte. O importante, para ele, é que uma obra de arte tenha história e significado por trás. Leia os principais trechos da entrevista:
Você é considerado um pioneiro no uso da ciência de dados e da inteligência artificial para criar arte em diferentes formatos. Como explicaria o seu trabalho para quem está o descobrindo pela primeira vez?
Nos últimos anos, trabalhamos estritamente com diferentes tipos de algoritmos. Alguns deles inventamos em nosso estúdio, outros são de código aberto. Desde o início, pensamos em como podemos integrar a percepção da máquina dentro do nosso fluxo de trabalho criativo de uma forma significativa. Durante esse processo, percebemos que a IA não é uma ferramenta. Na verdade, ela parece mais uma espécie de parceira colaborativa. E assim vivemos um pingue-pongue infinito, o processo entre nós e o algoritmo para criar a arte.
Existem vários algoritmos criados por nós para diferentes meios. Em primeiro lugar, por exemplo, para a compreensão dos dados. Em segundo, tentamos criar diferentes tipos de espaços latentes a partir desses dados. Depois disso, há outro processo: como podemos visualizar a percepção da máquina a partir deles? Isso é apenas o lado do conteúdo. Há também outro desafio para as regras físicas porque toda vez que estamos nos preparando para um tipo de experiência imersiva, é um trabalho sob medida. Já integramos todos os tipos de tecnologia visual do mundo, como RA, RV e hologramas.
O que significa exatamente dizer que a IA é uma colaboradora, não apenas uma ferramenta?
Não estamos usando ferramentas como o ChatGPT, Midjourney, Runway, Sora ou outras aplicações desse tipo. Na verdade, não temos interesse em usá-las. Estamos interessados em inventar novos algoritmos. Primeiro de tudo, estamos fazendo engenharia reversa. Isso significa que, acima de tudo, tentamos esquecer toda tecnologia - algoritmos, dados, técnicas de áudio e imagem - e focamos na ideia. Tentamos projetar algo único, começando pelo resultado final e, depois, fazendo a engenharia reversa, porque quando você fica preso no algoritmo e na tecnologia, sua ideia será limitada e ficará presa nas capacidades dos dados. Mas, sem pensar na tecnologia, suas capacidades de criação serão infinitas.
Depois disso, que tipo de arquivo de dados podemos integrar? Tentamos entender e encontrar as fontes, algumas delas de código aberto. Por exemplo, já integramos mais de 100 tipos diferentes de dados dimensionais. Às vezes, os dados vêm do cérebro humano, às vezes do espaço, às vezes debaixo da terra. Às vezes vêm de dados sobre as mudanças climáticas do nosso planeta.
Para compreender a enorme quantidade desses dados, criamos diferentes tipos de classificações de IA. Depois, existem múltiplos softwares, alguns deles feitos sob medida pelo estúdio de arte. Em seguida, tentamos visualizar a partir dos dados e da IA. Sempre pensamos em como podemos integrar os sentimentos das pessoas em tempo real no nosso processo criativo. Quando você vai a um museu, por exemplo, você é apenas um observador. Existe um abismo entre você e o artista, certo? Não há interação. Não há uma ligação significativa ou científica entre você e a obra de arte. Então, desde cerca de 2015 ou 2016, tentamos integrar os sentimentos das pessoas em tempo real.
Existe uma grande discussão hoje em dia sobre o que pode ser chamado de arte, especialmente com a tecnologia. Como você vê essa discussão? O que pode ser chamado de arte? E, nesse contexto, para onde a tecnologia está nos levando no mundo da arte?
Eu acredito em fazer arte de forma democrática. É para ser acessível a todos. Não existe nenhum lugar ou pessoa que possa dizer que 'isso é arte ou não'. A arte é sobre levantar questões. Você tem que criar as perguntas. Da minha perspectiva, eu tento fazer isso usando diferentes mídias e áreas, porque, para mim, quando eu foco em algo complexo e com tecnologia diferente, parece muito mais real.
Do meu ponto de vista, a arte tem que ter diferentes níveis para diferentes tipos de mídia, e cada mídia tem que ser um desafio para o artista. Qual é a ideia por trás da criação? Qual é a sua declaração? Qual é a sua grande pergunta para esta obra de arte? Não é apenas sobre a visualização. É sobre tocar a alma das pessoas. No fim das contas, não é sobre criar uma obra de arte com um único prompt - aliás, isso ainda pode virar uma obra de arte incrível, se houver uma história profunda por trás.
Hoje em dia, o jeito que consumimos arte está mudando. Pode ser em um museu, na internet, em diferentes formas. Qual papel você acha que a inovação desempenha na mudança da forma como vivenciamos a arte?
Eu realmente aprecio todas as formas de criação artística. Ela não deveria ficar presa apenas às paredes de concreto. Ela tem que estar em toda parte. É por isso que apoio todas as formas de arte. O objetivo é ter criatividade, de uma maneira poética, para fazer arte. Acho que isso abre a mente das pessoas e dá inspiração.
Para dar um exemplo, trago nossa colaboração recente com o CERN. O CERN é o local do maior colisor de partículas do mundo, na Europa, e eles estão tentando entender o universo por meio de técnicas científicas. Tivemos a chance de trabalhar com os melhores professores de aprendizado de máquina do mundo da Universidade de Nova York (NYT), Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e Harvard, para fazer arte.
Eles nos deram o arquivo de dados do projeto Dark Machine. Do ponto de vista deles, aqueles números representam algumas conclusões científicas, certo? Mas nós transformamos esses códigos numéricos em experiências poéticas. Você consegue imaginar inspirações em duas vias entre cientistas e artistas? Eles nunca viram esses números representados como formas de arte. Pode ser que isso dê inspiração, talvez resolva alguns problemas físicos. É por isso que eu realmente amo fazer arte de todas as maneiras.
Você mencionou o projeto Human Cell Atlas, que você enviou para a Lua. Você disse que era uma espécie de autorretrato da humanidade. Qual é a sua ambição nesse sentido? O que você quer criar para que possamos entender melhor nossa própria humanidade?
Essa é a nossa motivação como artistas. Quando começamos o projeto, há apenas uma ideia. Depois disso, não temos noção do que virá, porque os resultados e algoritmos estão mudando todos os dias, o que é incrível. Se você estivesse vivendo há 500 anos, como um pintor, sua tela seria a mesma. A tela branca, apenas a tinta a óleo e o pincel. Mas, como artista de novas mídias, a cada manhã, a cada dia, podemos integrar novas ferramentas dentro do fluxo de trabalho. É muito empolgante para nós.
Para o projeto Human Cell Atlas, não temos ideia de que tipo de coisas podemos obter. Mas o foco estava nos dois diferentes resultados da percepção da máquina: um deles é a forma humana, o outro é a escala nanométrica, o resultado celular. Um é o mundo micro e o outro é o mundo macro. Podemos comparar os diferentes tamanhos a partir da percepção da máquina e podemos observar como ela nos vê quando a alimentamos com dados científicos.
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Você já realizou uma experiência imersiva sobre Van Gogh usando IA. Alguns críticos de arte argumentam que as exposições imersivas, que se tornaram tão populares, levaram o público a interpretar errado as obras de arte. Como você costuma responder a isso?
Como artista, quando você cria algo, tem que estar pronto para todos os comentários negativos ou positivos. Não me importo com a reação das pessoas, mas levo em consideração cada comentário. Alguns deles são muito valiosos, alguns eu não me importo. Você tem que ouvir cada comentário, mas não precisa seguir.
Acredito que a integração das grandes mentes da história da arte com a inteligência artificial é um contraste incrível. [Podemos] usar aquela consciência anciã com a nova consciência como algo híbrido. Mas há muitas decisões artísticas para a obra de arte final. Não estamos colocando o resultado bruto da IA nas paredes: existe uma tomada de decisão complexa entre nós e o algoritmo.
Posso dar um exemplo como o de Van Gogh: criamos um portal de IA em Milão. Tivemos a chance de trabalhar com a cidade e pudemos integrar mais de 342 pintores italianos a partir de 20 mil pinturas, usando a IA. Cobrimos uma das instalações monumentais em Milão [o Arco della Pace], que foi uma experiência de 360º com a história e o legado deles.
Então, não se trata de comparar as duas maneiras diferentes de fazer arte. Trata-se de ver as possibilidades. Com a percepção da máquina, descobrimos diferentes detalhes que não percebíamos antes da IA. É um tipo de prática artística, mas também de pesquisa e processo de desenvolvimento. E esta é uma oportunidade incrível para o público, que pode entender o futuro da arte usando aquele legado.
Um dos maiores pontos de discussão quando falamos sobre arte e IA hoje é como podemos usá-la de uma forma que ainda seja humana e autêntica. Como podemos fazer isso? E, ao mesmo tempo, existe um limite para o uso da IA na arte?
Não há limite. Como artista, você tem que pensar sempre sem limites e fora da caixa. Há apenas uma maneira se você quiser criar algo único. Não há limitação. Isso significa não apenas criar para o lado do conteúdo, mas também as regras físicas.
Como artistas, nosso principal grande problema é a realidade. Há uma área azul entre o mundo virtual e o real, e estamos brincando nessa área azul. Como podemos misturar o virtual e a vida real como uma experiência poética? Como podemos colocar uma história significativa por trás do processo criativo? Acho que este é outro desafio.
Ferdi, obrigado pelo seu tempo e pela nossa conversa. Estamos felizes em tê-lo aqui em São Paulo em maio.
Mal posso esperar, de verdade. Mal posso esperar para compartilhar meu conhecimento e minha história com as pessoas incríveis do Brasil e de São Paulo. A equipe do São Paulo Innovation Week é incrível. Eles são tão sinceros e têm uma visão enorme. Eu realmente os amo. Eles criaram um evento incrível novamente. São muitos palestrantes e será uma explosão de energias. Mal posso esperar para estar aí.