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'Sou a heroína da minha história e ser esquisita é bom', diz Bianca Comparato, que estreia monólogo

Sob a direção de Daniela Thomas, a atriz protagoniza o solo 'Autobiografia do Vermelho', baseado em Anne Carson, e estabelece conexões entre a personagem e as escolhas profissionais

26 fev 2026 - 05h42
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O monólogo Autobiografia do Vermelho, que estreia nesta sexta, 27, no Sesc Avenida Paulista, nasceu em um estúdio, no bairro da Lapa, inspirado pelo som de palavras que, aos poucos, viravam imagens. Em 2024, a diretora Daniela Thomas chamou a atriz Bianca Comparato para gravar o texto do romance da escritora canadense Anne Carson para a Supersônica, produtora de audiolivros criada por ela, Maria Stockler Carvalhosa, Beatriz Bracher e Mariana Beltrão. No meio da sessão, Daniela disse, deslumbrada: "Isto dá uma peça! Vamos fazer?".

Bianca, que havia lido a obra, publicado pela editora 34, três anos antes, já tinha pensado e até desistido do projeto que lhe estimulou no isolamento pandêmico. "Eu estava feliz de, pelo menos, dar voz àquela história no audiolivro, mas o entusiasmo da Daniela me devolveu o arrebatamento", conta.

Bianca Comparato estrela 'Autobiografia do Vermelho'.
Bianca Comparato estrela 'Autobiografia do Vermelho'.
Foto: João Kopv/Divulgação / Estadão

A diretora, de 66 anos, se sentiu transportada no tempo, voltou para os Estados Unidos, onde começou a mexer com teatro. Daniela viveu em Nova York de 1981 a 1986, época em que a cena experimental valorizava a forma genuína de contar uma história, o poder da palavra. Eram assim as peças do ator Spalding Grey (1941-2004), do diretor Richard Foreman (1937-2025) e dos grupos Mabou Mines e Wooster Group, referências da formação da artista que, logo, despontaria como cenógrafa das montagens de Gerald Thomas.

"Quando ouvi Bianca, entendi que Anne Carson bebeu nesta fonte", justifica Daniela. "Em meio a tantos solos discursivos, era a chance de resgatar uma essência adormecida."

Com dramaturgia de Gabi Costa, Daniela e Bianca, Autobiografia do Vermelho é a história do monstro alado Gerião, um menino que revela a alma atormentada em uma narrativa escrita por ele mesmo desde os cinco anos de idade. Conforme cresce, Gerião escapa da família e sela o destino trágico ao se envolver com o andarilho Hércules, que o abandona no auge da paixão e se torna uma obsessão.

Mesmo consciente de que será assassinado pelo amante, Gerião se entrega ao sentimento porque aposta que algumas escolhas são fundamentais e trazem beleza à vida. "O paradoxo de ele saber que será morto nos leva a refletir sobre questões que parecem uma loucura, mas são importantes ao amadurecimento", afirma a protagonista.

Aos 40 anos, Bianca encontra pontos de conexão com o personagem no comportamento e na administração da carreira. "Eu fui muito Gerião ao longo da vida, sendo considerada a estranha, a esquisita, a diferente da maioria", assume.

Bianca Comparato ao lado de Daniela Thomas no processo de montagem de 'Autobiografia do Vermelho'.
Bianca Comparato ao lado de Daniela Thomas no processo de montagem de 'Autobiografia do Vermelho'.
Foto: João Kopv/Divulgação / Estadão

A atriz carioca ganhou popularidade na novela Belíssima, em 2005, como a introvertida Maria João. Os trabalhos na televisão se sucederam com relativa facilidade até que, com o fim da novela Avenida Brasil, em 2012, ela ficou sem contrato e um telefonema do diretor Felipe Hirsch promoveu uma guinada em sua trajetória.

Como protagonista da série A Menina Sem Qualidades, produzida pela MTV, Bianca revelou um potencial dramático que chamou a atenção, inclusive de Daniela Thomas. "Nós fomos apresentadas pelo Felipe no dia da estreia da série, e Bianca me impressionou por ser tão jovem e densa", elogia a diretora. "Para mim, o mais incrível de um intérprete é quando o personagem fica menor que ele e enxergo a sua inteligência na composição do papel."

A Menina Sem Qualidades abriu as portas para Bianca no mercado embrionário do streaming, e ela não titubeou em se arriscar nele. "Eu me joguei instintivamente no abismo e passei a perseguir a minha verdade", assume.

'Autobiografia do Vermelho' estreia no Sesc Avenida Paulista.
'Autobiografia do Vermelho' estreia no Sesc Avenida Paulista.
Foto: João Kopv/Divulgação / Estadão

As séries Sessão de Terapia (2013), dirigida por Selton Mello, e Romance Policial - Espinosa (2015), comandada por José Henrique Fonseca, mantiveram Bianca longe das escolhas óbvias. Raro exemplar no terreno da ficção científica, a série 3%, dirigida por Cesar Charlone em 2016, ganhou repercussão internacional e colocou Bianca entre os principais nomes do mercado.

"Muitos amigos me alertaram para os riscos da instabilidade", lembra. "Só que o fim dos contratos longos virou uma condição do capitalismo que atinge profissionais de diferentes áreas e não fica restrita aos artistas."

Há 10 anos, a carioca Bianca montou apartamento em São Paulo porque entendeu que, na capital paulista, estaria conectada com as produções audiovisuais. Mesmo casada com a atriz Alice Braga, entre 2017 e 2023, viveu parte do tempo em Los Angeles e não desativou a base paulistana. Ela criou a produtora South, que viabiliza projetos como o solo teatral. "Adoro ser convidada, mas viver nesta posição passiva não me satisfaz porque procuro autonomia", diz. "Sou a heroína da minha história e ser esquisita é bom."

Bianca ainda sente a repercussão da série Tremembé, dirigida por Vera Egito para a Prime Video, que foi lançada em outubro passado e gerou polêmica ao abordar a rotina de detentos no presídio da Zona Norte paulistana. "É muito pesado mesmo, ainda mais para quem tem filhos", reconhece. A atriz interpretou Anna Carolina Jatobá, madrasta e coautora do assassinato da menina Isabella Nardoni (2002-2008), um trabalho exigente do ponto de vista psicológico.

"Gosto de desenvolver parcerias como as que firmei com Hirsch, Selton, Vera e José Henrique Fonseca, com quem gravei no ano passado Fúria, da Netflix, sobre os bastidores do MMA", declara. "Eu fico vulnerável nestes processos porque sou intensa demais e preciso confiar em quem me dirige."

Serviço - 'Autobiografia do Vermelho'

  • Onde: Sesc Avenida Paulista (Espaço Arte II - 13º Andar). Avenida Paulista, 119.
  • Quando: Quinta a sábado, 20h; domingo, 18h. Até 22 de março. A partir de sexta, 27.
  • Quanto: R$ 50. Ingressos esgotados para venda online, com possibilidade de compra presencial para algumas sessões. Mais informações no site do Sesc
Estadão
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