Roteirista de 'Fúria', Gustavo Bragança explica construção dos mistérios da série
Em papo com Rolling Stone Brasil, escritor falou sobre o desenvolvimento da história e os desafios de escrever um protagonista sem memória
Fúria, nova produção brasileira da Netflix, aposta na mistura de ação, suspense e drama para contar a história de Marcelo (Vinícius Neri, Promessa de um Amor Selvagem), um homem encontrado à beira da morte que desperta sem qualquer lembrança de quem é. Ao longo da trajetória, ele enfrenta uma intensa rivalidade com Júnior Malamute, personagem vivido por MC Cabelinho (Vai na Fé).
Embora a ação e as lutas sejam um dos grandes atrativos da série, boa parte da narrativa se sustenta nos mistérios que envolvem o passado de Marcelo. Em conversa exclusiva com a Rolling Stone Brasil, o roteirista Gustavo Bragança falou sobre o trabalho na sala de roteiro, explicou como as revelações foram distribuídas ao longo dos episódios e comentou a construção dos personagens. Confira a seguir:
Um projeto construído em parceria
Gustavo Bragança conta que acompanhou Fúria desde as primeiras etapas de desenvolvimento, mas assumiu um papel mais ativo algum tempo depois, quando voltou ao projeto para conduzir a sala de roteiro ao lado de Igor Verde. Segundo ele, a parceria funcionou porque o criador da série sempre esteve aberto a novas ideias.
"Foi um processo curioso. Participei das primeiras leituras quando o projeto ainda estava em desenvolvimento e depois retomei a relação um ano depois para seguir a condução da sala."
O roteirista destaca que Igor Verde fez questão de transformar a criação em um processo colaborativo. "O Igor é uma pessoa muito generosa. Ele escuta muito e dá espaço para que quem chega ao projeto possa trazer elementos novos."
Para Bragança, esse espírito coletivo continuou durante toda a produção, envolvendo direção, Netflix e os demais roteiristas. "É um caminho sempre coletivo. A gente foi construindo a história e tentando ser fiel à ideia inicial do Igor."
Conhecendo o universo do MMA
Diferentemente de Igor Verde, que já tinha uma relação próxima com o universo das lutas, Gustavo Bragança precisou mergulhar nesse ambiente durante a pesquisa para a série. "Eu assistia às lutas pela televisão, mas nunca tinha visto uma luta de perto."
Por isso, uma das primeiras decisões da equipe foi sair da sala de roteiro e conhecer de perto a rotina dos atletas. "A gente fez questão de frequentar esses espaços, conhecer como era a rotina, entrevistar lutadores e visitar centros de treinamento. Foi a forma que encontramos de entrar nesse universo."
Como Vinicius Neri e MC Cabelinho transformaram os personagens
Depois que o roteiro ficou pronto, começou outra etapa importante: ver os personagens ganhando vida diante das câmeras. Para Gustavo, a escolha do elenco foi determinante para ampliar tudo aquilo que já estava escrito. Sobre MC Cabelinho, ele acredita que o processo de escalação já apontava para uma combinação natural entre ator e personagem. "Tudo que ele trouxe só melhorou a visão que a gente já tinha."
Já Vinícius Neri recebeu uma missão especialmente desafiadora ao interpretar Marcelo, um homem que desperta sem memória e precisa descobrir quem é ao longo da trama. "O Vinicius fez a interpretação de um personagem muito difícil, que não sabe nada sobre si e mal tem clareza da própria personalidade."
Segundo o roteirista, acompanhar essa transformação é uma das maiores recompensas para quem trabalha escrevendo histórias. "É uma alegria ver esses personagens ganharem vida na tela."
Escrever primeiro a verdade para depois escondê-la
Um dos principais desafios de Fúria está na construção do suspense. Ao longo da temporada, o público recebe informações aos poucos, na mesma medida em que Marcelo recupera fragmentos da memória. Para Gustavo Bragança, esse tipo de narrativa só funciona de uma forma: "O mais importante era entender qual era a história inteira."
Segundo ele, a equipe definiu previamente quais informações seriam reveladas em cada episódio. "Precisávamos saber tudo que foi apagado da memória para depois decidir o que o personagem saberia, o que o público saberia e em que momento."
Esse equilíbrio entre esconder e revelar informações foi planejado cuidadosamente para manter a curiosidade do espectador. "Às vezes o público está um pouco à frente do personagem. Em outros momentos, é o personagem que sabe mais do que o público."
Bragança também explica que o formato de uma série influencia diretamente o processo criativo. Segundo ele, a equipe sempre inicia o desenvolvimento com uma previsão do número de episódios, mesmo que isso possa mudar durante a produção. "Você precisa ter um norte."
Para o roteirista, a estrutura muda completamente dependendo da duração da temporada. "É muito diferente escrever uma série de seis episódios ou uma de quinze. Isso muda a quantidade de história, de personagens e a evolução de cada arco." Ainda assim, ele ressalta que esse planejamento costuma sofrer ajustes conforme a narrativa ganha forma.
Personagens preparados para crescer
Mesmo concentrando a história em Marcelo, a equipe procurou construir personagens que fossem além de suas funções na trama principal. Segundo Gustavo, desde o início houve uma preocupação em dar profundidade a praticamente todo o elenco. "A gente trabalhou para que todos os personagens que tinham alguma importância na história tivessem substância."
Essa decisão também deixa espaço para novas histórias caso o universo de Fúria seja expandido no futuro. "A narrativa proporciona que o público queira conhecer mais esses personagens."
Entre todos eles, um chamou particularmente sua atenção durante o desenvolvimento: Catolé, vivido por Jonas Ponciano. Inicialmente pensado para ocupar um espaço pequeno na trama, o personagem acabou crescendo conforme a equipe explorava sua personalidade. "Ele era muito pequeno e foi ganhando corpo. Hoje é um personagem que desperta vontade de conhecer mais sobre a história dele."
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