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'Que país é esse que desperdiça tanto talento?': Eliana Alves Cruz fala sobre literatura e memória

Jornalista e escritora fala sobre as mudanças do mercado literário, a desigualdade social retratada em seus livros e a busca por sonhar novas vidas, que, por muito tempo, não foram protagonistas das histórias do Brasil; leia a entrevista

27 jul 2026 - 08h26
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Brincando com os limites do sonhar enquanto busca dar nome e rosto para personagens negras e negros esquecidos na construção do País, Eliana Alves Cruz tem obras que misturam a historiografia do Brasil com o imaginário. A carreira consolidada no jornalismo não foi abandonada quando a autora carioca partiu para as prateleiras de literatura de ficção, muito pelo contrário, ela utiliza das ferramentas que tem para contar sobre o passado, presente e futuro.

Assim surgiram algumas de suas obras mais marcantes como Água de Barrela (2015), O Crime do Cais do Valongo (2018), Solitária (2022) e Meridiana (2025), que acaba de ganhar a primeira edição do Prêmio Guimarães Rosa da Academia Brasileira de Letras (ABL) na categoria Melhor Livro de Ficção.

Eliana Alves Cruz acumula uma produção frutífera de romances, contos e poesia que oferecem uma visão diferente da história do povo negro ao apresentar personagens complexos e cultos, não limitados a contextos de violência.
Eliana Alves Cruz acumula uma produção frutífera de romances, contos e poesia que oferecem uma visão diferente da história do povo negro ao apresentar personagens complexos e cultos, não limitados a contextos de violência.
Foto: Wilton Junior/ Estadão / Estadão

O livro retrata a ascensão social de uma família negra da periferia carioca e os dilemas que vão além do dinheiro, mas permeiam as microviolências raciais do cotidiano após a chegada à classe média e tudo o que vem depois do que se é visto como conquista.

Em uma conversa com o Estadão, Eliana fala sobre as mudanças do mercado literário, a desigualdade social retratada em seus livros e a busca por sonhar novas vidas, que, por muito tempo, não foram protagonistas das histórias do Brasil.

Além disso, a autora conta em detalhes bastidores do seu novo lançamento com Conceição Evaristo, o livro e documentário Escreviventes. Uma conversa íntima entre autoras de diferentes gerações que se torna a primeira edição da coleção Memórias Brasileiras, uma série publicada pela Pallas Editora.

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Leia a entrevista completa:

Entrevistadora - Você costuma escrever sobre personagens que ficaram à margem da história oficial. Agora é a sua obra que está sendo reconhecida por uma instituição que durante muito tempo representou esse cânone. O que passou pela sua cabeça quando soube do prêmio?

Eliana - Foi uma surpresa muito bacana. Eu já estive na ABL várias vezes, para posse de colega e também para dar palestras. A Universidade das Quebradas, que funciona lá, são muitas mulheres negras, a maioria periféricas, que estão ali para oficinas de literatura. Então o que eu vejo:

A ABL não está fora do Brasil, ela está no Brasil, então sobre ela incidem as maravilhas e também as coisas terríveis e o racismo está entre elas. E é uma instituição centenária, vai fazer 129 anos agora. É muito tempo e eu acho que existe um esforço muito grande de realmente acompanhar a história, de fazer essa virada. Mas como tudo no Brasil, há toda uma força de ação e reação. Eu fiquei muito feliz e vi que isso é um sinal bem grande de que ali há uma intenção de olhar para a literatura de uma forma mais plural. Eu acho que novos tempos se anunciam.

Você acredita que esse reconhecimento representa uma mudança real no mercado literário brasileiro ou se é uma exceção dentro de uma estrutura que continua muito desigual?

Ah, acho que é uma mudança real, sim. A gente já tem uma caminhada. Eu sou fruto de uma geração que foi a da Conceição [Evaristo], que eu acho que foi a primeira geração de autores negros, ou seja, massivamente muitas pessoas escrevendo. Não um talento aqui, outro ali.

Eu sou fruto dessa vontade de se apossar da palavra, mas de uma outra forma também. Também institucionalmente, também nas instituições cânones do Brasil. A gente faz parte do Brasil e fazemos literatura e eu acho que boa literatura. Não é uma modinha. Eu detesto essa palavra, identitarismo, não é isso. É uma vontade de escrita, de elaboração da vida, de criação de mundos, de fabular, pensar futuros e melhorar nosso presente.

Quando o mercado editorial não estava tão aberto assim para o que escrevemos, para autores como nós, as pessoas escreviam independente do mercado. Olhe o Cadernos Negros aí, 40 e tantos anos do movimento. Que outro movimento literário no Brasil tem uma publicação que assiduamente escreve há 47 anos? Brancas ou Negras, vai? Nenhuma.

Então, a gente não depende do mercado para existir. E eu acho que isso é toda a história da negritude, das pessoas negras no mundo. A gente não fica esperando que alguém chancele a nossa existência para fazer o que a gente tem que fazer, senão a gente tava morto, literalmente morto.

A gente vai continuar escrevendo, vai continuar publicando, vai continuar dizendo o que a gente acha que tem que dizer. E que bom que o mercado (o mercado que eu falo são editoras, livrarias, festas literárias, agora todo um movimento na internet, os booktubers e etc.) e todo esse ambiente do livro, consegue identificar qualidade e obras para serem exaltadas.

Essa mudança da favela para o condomínio de classe média costuma ser contada como conquista na ficção. Mas em 'Meridiana' você a conta como conflito. Por quê?

Porque eu acho que há um lugar de desconforto que também não é dito. A gente tem muitos riscos nessa mobilidade social, um é a gente acreditar piamente no discurso da meritocracia que diz: "Basta você se esforçar que você…" não é assim. Não é só isso.

Cheguei aqui, fiz o concurso, ou consegui o emprego x y z, ou fiz o sucesso, ganhei dinheiro. Mas o que acontece quando você está lá? Quando a gente olha com a lupa, a gente vê que outras questões surgem, mais, digamos assim, subjetivas e não menos adoecedoras ou provocadoras de sofrimento.

Quem está desavisado para isso, tem um risco enorme de adoecer mentalmente e fisicamente, porque são microviolências. Às vezes isso é muito mais difícil de lidar com isso do que uma situação gráfica de racismo muito explícito, que você vai lá, denuncia, vai na polícia, tem um desgaste e um custo.

Você pensa a sua obra como um grande projeto literário ou acha que cada um dos seus romances são completamente independentes uns dos outros?

Eu vejo como um projeto sim. E isso foi acontecendo, não foi planejado. Eu escrevi o Água de Barrela e quando eu terminei de escrever, eu entendi ali que os meus ancestrais tinham um plano para mim.

De alguma forma, elas sabiam que algumas coisas não seriam possíveis para elas. Mas, para alguém seria. E esse alguém sou eu. Isso me fez assim, sabe? Eu me emocionei muito quando eu percebi isso. E aí eu comecei a pensar em que ancestral eu quero ser. O que eu quero deixar para quem vem depois de mim.

Aí começou a nascer um: "Espera aí, eu preciso ser mais intencional nas coisas que eu faço. Não pode ser tão por acaso. O que que eu quero dizer ao mundo?" e a gente pode traduzir o mundo como para o meu mundo. Que sejam os meus filhos ou a minha cidade.

O que eu quero dizer para as pessoas? Então aí eu comecei a elaborar isso, a pensar: "Acho que eu tenho um material aqui que é pouco trabalhado na literatura" que é uma fricção com a historiografia do Brasil, que durante séculos foi muito mal contada.

Não tenho a pretensão de ensinar nada para ninguém. Eu quero que a gente consiga calçar os sapatos de outras vidas. Tentar sonhar outras vidas, entrar naqueles universos todos. Tem um monte de coisa ainda a ser dita, a ser contada, personagens a serem descobertos. Isso é o que me fascina. Eu acho que esse é o meu projeto, trazer situações que estão aqui na nossa cara, mas a gente não consegue traduzir porque não temos o costume de pensar sobre nós nesse lugar dessa maneira.

Nessas histórias você dá um nome, família, desejo, humanidade para essas pessoas que em registros históricos acabam sendo apenas números. Em algum momento você sente que você está disputando memória com a 'história oficial'?

Eu acho que a gente precisa fazer essa disputa. O que que me deu coragem para fazer isso é que eu tenho uma história oral da minha família e, presencial, ou seja, eu presenciei e vi muitas coisas dentro da minha própria casa e tenho provas documentais de coisas que aconteceram na minha família, que estão lá no meu primeiro livro, no Água de Barrela, que dizem o radical oposto do que eu estudei a minha vida inteira.

Não sei se disputa é a palavra. Eu acho que existe um desejo de complementação de muita coisa que foi fragmentada, propositalmente modificada e outras camadas que foram sendo superpostas em função dessa fragmentação. A gente foi soterrando muitas histórias, muitas pessoas, muitas situações. Isso produziu um imaginário terrível para as pessoas negras.

Como se a gente não tivesse passado, como se fôssemos uma população sem elaboração do presente. Quem disse que uma pessoa escravizada estava totalmente alheia do seu entorno, do seu entorno político, do seu entorno social. Quem disse isso?

Esse exercício faz forçosamente que a história seja obrigada também a olhar para si, também a rever, como dizia Walter Benjamin "A escovar a história a contrapelo" e ver o que que tem ali embaixo, o que foi ainda detectado ou mapeado.

Em que momento que você olha para esses documentos, para essa história supostamente oficial, e você vê que aquilo deixa de ser uma informação e passa a ser uma, passa a ser literatura?

Eu acho que tudo que a gente escreve, tudo, é um pouco literatura, porque tem um ser humano que escreve aquilo. E mesmo nas IAs hoje, tem um ser humano que escreveu e ensinou aquela máquina. Essa pessoa tem passado, tem presente, tem futuro, tem visão de mundo e deixa escorrer isso nas palavras, mesmo que não seja de uma forma consciente. A gente não consegue esconder o que pensa nas escolhas semânticas.

Quando eu vou estudar os jornais antigos, por exemplo, para a coleção [Crimes Coloniais] do Crime do Cais do Valongo, é literatura purinha. Estava tudo ali, se o cara era monarquista, se o cara era republicano, se ele era abolicionista. Tudo dá para ver. Aí eu falei: "Vamos radicalizar com esse documento e vamos para o reino da imaginação e entender isso de uma outra maneira".

Então é um pouco como o que é notícia e o que não é notícia? É treinar o olhar para o inusitado, para além do factual, para além da letra dura que tá te contando ali e fazer os cruzamentos dos momentos. Essa curiosidade e esse exercício de imaginação que faz com que um documento deixe de ser um documento e vire a fagulha de uma ficção.

O que você espera que os leitores encontrem quando fecham um livro seu: conhecimento sobre o passado ou uma forma diferente de olhar para o presente?

Eu acho que as duas coisas, mas principalmente uma vontade de sonhar futuro. Uma vontade de sonhar, ponto.

O que eu vejo hoje: Todos e todas nós, por conta das facilidades tecnológicas que nos cercam, estamos terceirizando o sonho. Ou a gente terceiriza nas mãos de políticos, ou na mão de máquinas. Estamos terceirizando o desejo por uma vida, o sonhar com uma vida para o nosso país e para nós mesmos.

Acho que é instigar as pessoas a voltarem a sonhar, a desejar, a pensar o mundo. Não é possível, Stephanie, que a humanidade não seja capaz de pensar um sistema de vida que seja menos predatório para nós e para o planeta.

Modestamente, não é a literatura que vai fazer isso, não são os livros da Eliana, mas eu acho que a gente pode colocar ali uma gotinha de "E se". Essa fagulha. É importante a gente tentar plantar. Eu espero que as pessoas leiam, pensem e se repensem também.

Eu trouxe algumas dúvidas dos leitores e uma delas falou assim: "Meridiana é uma personagem marcante, ela dá nome ao livro e guia história, mas o leitor sabe relativamente pouco sobre ela. Como é que nasceu essa personagem e por que foi importante preservar esse mistério em torno dela?"

Eu acho que ela vai se revelando por intermédio dos outros. Meridiana é um nome que guarda muitas interpretações. É a definição de um fenômeno de meridianos e ele em si guarda essa coisa de mediação, mas o que que acontece com uma linha que divide um território? Ela divide o lado x e o lado y, mas ela não olha para si mesma. Isso é o que acontece com muitas mulheres e muitas mulheres negras, porque a gente está nesse lugar do cuidado do outro há muitos séculos. E esse inconsciente coletivo de cuidar, tenhamos filhos ou não, ele está na gente.

Porque há um inconsciente ali dizendo que eu tenho essa obrigação, tenho esta função de mediar e às vezes você não tem nada o que fazer, mas as pessoas se sentem nesse lugar de manter uma unidade. Elas se colocam nesse lugar de mediadoras e olham para todo mundo e não olham para si e aí adoecem. É bem complexo esse tema.

A Meridiana é uma personagem assim. Eu acho que ela até fala bastante sobre ela, e de uma forma muito corajosa, ela vai revelando que é uma pessoa bissexual. Ao falar as coisas para a sobrinha, ela fala sobre ela, sobre a descoberta que ela fez do mundo, de como ela enfrentou os problemas que a sobrinha está enfrentando. Eu tentei manter o que é essencial para saber da Meridiana.

E essa coisa, por exemplo, da orientação sexual, foi outra surpresa muito bonita nesse livro, porque eu coloquei isso lá com relação a ela. E não é uma questão. Pouca gente me fala sobre isso, isso mostra também um outro momento dos leitores e leitoras. As pessoas já naturalizaram outras orientações sexuais de uma forma muito impensada há pouco tempo atrás.

Essa penúltima é sobre Solitária e a leitora pergunta: "Eu queria saber se ela escreveu Solitária para dar um final diferente para o Caso Miguel"

Se eu fosse escrever Solitária hoje, talvez ele fosse radicalmente diferente. Esse livro eu escrevi um pouco na força da raiva e da revolta com o que aconteceu com o Miguel. Mas por outro lado, eu acho importante que o autor, a autora, também seja um pouco testemunha do tempo. Também seja testemunha daquele momento histórico que a gente está vivendo.

Em algum momento, lá na frente, não sei, talvez quando eu não esteja mais aqui, alguém vai ler e vai dizer: "Esse livro foi baseado, foi inspirado, no caso assim", e talvez alguém lá na frente diga assim: "Meu Deus, o Brasil foi capaz de produzir uma personagem que bota uma criança num elevador, aperta o décimo andar e vai fazer as unhas". Fomos capazes disso, de produzir uma personagem com esse grau de desatenção, crueldade, enfim.

Sim e não. Não, por isso que eu acabei de dizer, e no livro o desfecho da criança é o mesmo. Se eu fosse escrever hoje, talvez eu tivesse dado um outro desfecho para criança, porque muita coisa já aconteceu de lá para cá. E sim, porque eu coloquei ali um uma personagem que chega no final sonhando e realizando toda a sua vontade, ela termina realizando o seu sonho.

E veja que interessante, a mãe do Miguel se tornou de lá para cá uma ativista, ela se formou em direito, ela se tornou outra pessoa. Que país é esse em que você precisa descobrir o seu talento por conta de tanta dor. Se não tivesse acontecido essa tragédia na vida dela, será que ela hoje teria o destaque que ela tem e teria concluído essa faculdade como ela concluiu? Será que se não tivesse acontecido essa tragédia ela não estaria ainda lá levando o cachorro daquela mulher para passear?

Então, que país é esse, matador de talentos, de sonhos, de potencialidades. Eu fico muito chocada que a gente seja um país que desperdiça tanto talento e tanta força. Olha a força dessa mãe, olha o que ela fez com ela mesmo e pela memória do filho, me emociona ver que existem pessoas assim com essa capacidade e a gente joga fora esse talento porque não dá oportunidade para ele florescer em outro lugar que não seja no lugar da dor e da tragédia.

Eu quis sim dar um outro um outro fecho e também não, porque eu quis que fosse um pouco um testemunha daquele momento. Para que a gente nunca se esqueça do que a gente é capaz, quando a gente desumaniza as pessoas.

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A última pergunta é para saber desse novo lançamento com Conceição Evaristo. Como que funcionou esse processo de escrita, como é que se firmou essa parceria?

Em 2016 eu lancei o Água de Barrela, pela Fundação Palmares e teve um evento, que foi o primeiro que eu fui com a Conceição. De lá para cá, a gente foi construindo uma relação tendo a literatura como a grande argamassa dessa amizade e admiração. E entre uma coisa e outra, a gente se faz confidências, a gente conversa, a gente entende o cansaço uma da outra, tira dúvidas, brinca demais.

Meu companheiro, Estevão Ribeiro, é roteirista e cineasta e ele pensou assim: "Por que vocês não têm essa conversa, a gente grava, isso vira um livro?". A fagulha da ideia nasceu aí, com essa fala dele. E a partir daí, começamos a amadurecer e isso foi crescendo.

Tem Flávia Oliveira, Renato Nogueira, Teresa Cárdenas, Itamar Vieira Júnior e meu pai. A gente fez um dia para gravar eles falando sobre nós, sobre como se relacionavam com as nossas obras e com a gente e outro dia só eu e ela. Isso rendeu sete horas de gravação.

Falamos sobre infância, sobre adolescência, sobre amores, sobre família, envelhecimento, sobre uma série de coisas. De uma maneira que a gente não consegue falar nos eventos por causa do tempo mesmo. Tem muitas fotos das nossas famílias, fotos dela, fotos do marido. Ela me mostrou uma foto da Beatriz Nascimento que a Beatriz deu a ela.

Acho que vai emocionar as pessoas, tem umas surpresas também. Não vou dizer tudo para vocês poderem curtir, mas ficou lindo.

Estadão
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