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'Quando a sociedade acha que tudo é um reality, ela perde a capacidade cognitiva', diz Eugênio Bucci

Jornalista e professor da USP lança nesta segunda-feira, 9, o livro de poesias 'Os Dois Hemisférios do Meu Colarinho', sua terceira publicação em menos de um ano

10 mar 2026 - 20h06
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Três livros lançados em menos de um ano. Esse é o resultado dos esforços, das paixões e das preocupações de Eugênio Bucci, jornalista e professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), além de colunista na seção Espaço Aberto do Estadão, conhecido por suas reflexões críticas a respeito de política, democracia e o cenário da comunicação.

Seu novo trabalho, no entanto, foge da tradicional linguagem analítica, argumentativa e ensaística à qual ele está acostumado. Os Dois Hemisférios do Meu Colarinho, com lançamento em São Paulo nesta segunda-feira, 9, é um livreto de poemas recheado de figuras de linguagem e neologismos, descrito como uma coleção de "achados e perdidos no tempo errado da gramática".

Ele já havia experimentado o gênero em Um Balde, de 1982, sob o pseudônimo de Eugênio Barata, e agora, décadas depois, assume o nome oficial para mergulhar em territórios inesperados. O leitor habitual de Bucci poderá se surpreender, por exemplo, com as provocações sensíveis e ousadas do autor sobre amor, erotismo e adultério.

O volume começou a ser escrito a partir de 2005, quando o professor presidiu a Radiobrás, em Brasília, no primeiro mandato de Lula - experiência contada no livro Em Brasília, 19 horas: a Guerra entre a Chapa-branca e o Direito à Informação no Primeiro Governo Lula.

No ano passado, o acadêmico de 67 anos foi o terceiro escritor mais vendido da Feira do Livro, no Pacaembu, graças aos seus dois títulos anteriores: Que Não Se Repita: A Quase Morte da Democracia Brasileira, feito para que "o passado recente não seja esquecido", no qual reuniu uma série de artigos publicados no Estadão durante os anos de governo de Jair Bolsonaro, e A Razão Desumana: Cultura e Informação na Era da Desinformação Inculta (e Sedutora), reflexão sobre alguns dos assuntos mais efervescentes da atualidade.

Leia abaixo a entrevista completa.

Eugênio Bucci lança livro de poesias em São Paulo nesta segunda-feira, 9
Eugênio Bucci lança livro de poesias em São Paulo nesta segunda-feira, 9
Foto: Tiago Queiroz/Estadão / Estadão

O senhor é muito lido em universidades. É uma referência para discutir comunicação. Qual é a sua responsabilidade sabendo que seus alunos e leitores podem ser os próximos a tomarem grandes decisões?

Me aconteceu várias vezes de encontrar alunos que dizem que, em momentos de tensão, quando tinham que resolver certas coisas, se lembravam do que a gente falava em sala de aula. Essa responsabilidade é muito presente para mim e eu procuro estar à altura dela, e é algo que me gratifica e me desafia, porque precisamos formar o aluno para o futuro.

Sabemos que as universidades muitas vezes são atacadas por espectros conservadores, dizendo que há predominância de ideologia de esquerda. Como o senhor avalia o papel das universidades hoje, na construção de uma sociedade mais democrática, mais sábia?

A instituição da universidade, em qualquer país que pretenda ser justo e democrático, é um papel indispensável. A universidade consegue pensar além do previsível. Ela entende que o papel dela é imaginar filosoficamente, cientificamente e artisticamente um mundo diferente e melhor. O mercado não pode fazer isso, nem o Estado. É lógico que nós temos cultura de esquerda na USP, como temos também cultura de direita. O que nós não temos é uma cultura golpista.

Ao longo da sua carreira, o conhecemos pela linguagem do ensaio, da análise. Em que medida a linguagem da poesia alterou a sua relação com a palavra?

Mais uma ótima e difícil pergunta. Este livro brotou de uma necessidade quase que funcional e, ao mesmo tempo, muito elaborada de sentir numa dimensão da linguagem a experiência de vida pela qual eu estava passando. Veja bem, a linguagem do jornalismo é instrumental, ou seja, ela deve encontrar as palavras que estabeleçam laços de correspondência entre o que se relata e o que se passou. É uma pretensão quase aristotélica da verdade. No ensaio, o texto é um lugar que pensa. E na poesia a sensação é de que você vai escrever o que a língua quer dizer e ainda não te avisou. Muitas vezes, o texto da poesia já está quase pronto. O que ele quer de você é um pouco de coragem, decência e abertura para não ter medo do que ele te diz. Eu consegui fazer isso e depois guardei esses poemas dentro de uma gaveta por anos. Eu não queria publicar, porque tinha muita dor implicada ali. Foi um longo processo de amadurecimento até eu decidir publicar.

Muitas dessas poesias tratam de assuntos como amor, erotismo, temas não comuns na sua obra. As poesias também te ajudaram a explorar um lado mais sensível?

Sim. O processo muitas vezes é um presente, um nirvana, e muitas vezes é um inferno, um desespero. Eu entendo que exista uma figura pública ligada ao pensamento sobre comunicação e ao jornalismo que é mais conhecida, mas existe essa outra dimensão que é constitutiva do que eu sou. Por um tempo eu pude deixar isso sem publicar, depois não pude mais. Eu precisava compartilhar isso. Era um risco que eu achava que era preciso correr.

Em 'A Razão Desumana', o senhor expõe preocupação com a onda anti-imprensa. Como acha que o jornalismo vai se fortalecer e continuar sendo um instrumento importante em tempos de descrença de parte do público e pressões econômicas?

O jornalismo não é uma necessidade dos jornalistas, é uma necessidade da democracia. É preciso que exista uma instância na sociedade democrática que seja independente do Estado e do mercado para garantir acesso ao cidadão às informações que ele precisa para tomar as melhores decisões. Como essa instância independente se reelabora e se fortalece? A forma não vai importar tanto. Cada vez mais, o que sentimos é que a excelência jornalística procura se desvincular da dependência da receita publicitária e busca uma receita lastreada no cidadão e no público. Não haverá democracia se os jornais forem controlados pelos governantes ou pelas forças monopolistas, o que, aliás, é um risco gravíssimo colocado nos EUA, onde há uma aliança entre um capitalismo monopolista e o governo Trump para produzir uma blindagem de proteção para o governo dele.

Eugênio Bucci comandou a Radiobrás no primeiro mandato de Lula - 07/12/2007
Eugênio Bucci comandou a Radiobrás no primeiro mandato de Lula - 07/12/2007
Foto: Alex Silva/Estadão / Estadão

Outra preocupação interessante em 'A Razão Desumana' é como o entretenimento está dominando a comunicação social e a cultura. Em certo momento, o senhor diz que hoje são 'os filmes que ditam as preces e não mais as igrejas'. Como avalia essa ameaça?

As religiões perderam espaço para o entretenimento e viraram, muitas vezes, mercadorias no mercado de consumo de sensações. Agora, qual é o risco que identifico quando vejo que o entretenimento ocupou esse lugar? O risco é cognitivo. A sociedade perde a capacidade cognitiva de dominar temas complexos dos quais dependem o futuro dessa mesma sociedade. Quando uma sociedade acha que o caso Master só serve para ela experimentar sensações de indignação, essa sociedade está mergulhada num equívoco. O processo racional vai se perdendo quando o público acha que as coisas estão lá como se fosse um reality show.

Aproveitando que o senhor citou o caso do Banco Master, que reacendeu os debates sobre falhas estruturais de Estado e a relação entre as instituições financeiras e o jogo político, o que dá para aprendermos, como sociedade, com tudo isso que estamos vendo?

O caso Master ainda tem muitas perguntas sem resposta. Então é cedo, pelo menos para mim, para termos um balanço do que se passou. Nós não conhecemos, por exemplo, a extensão da contaminação que se processou dentro da República. Quem foi beneficiado por isso? Quem agiu para que a coisa ficasse oculta? Essas perguntas não estão claras. O caso Master tem um potencial de ensinamento muito grande, mas isso só vai acontecer se apurarmos os fatos.

Em 'Que Não Se Repita', o senhor reúne textos e artigos feitos durante o governo Bolsonaro. Quando olha para esse livro hoje, o que mais lhe impressiona: a permanência de riscos à democracia no Brasil ou a naturalização desses riscos dentro do debate público?

As duas coisas. O saldo para mim é, primeiro, perceber como nós passamos perto de perder a ordem democrática. Foi por pouco que o Estado Democrático de Direito no Brasil não ruiu. E, segundo, como somos capazes de naturalizar tudo isso. Agora estamos desenhando um cenário eleitoral que praticamente esquece o que foi a articulação que quase deu um golpe de Estado no nosso país. Por isso eu dei esse título ao livro: Que Não Se Repita. Eu gostaria que esse título pudesse ecoar um pouco, mas tenho muita preocupação. Vejo correntes querendo repetir o mesmo erro, sabendo da gravidade do que aconteceu.

Considerando que o senhor trabalhou no primeiro mandato de Lula, avaliando o governo atual o senhor sente um momento de reconstrução da democracia ou de permanência das tensões?

Primeiro, um governo não constrói uma democracia. O governo nos faz um grande favor quando não ameaça a democracia. A democracia é uma construção social. Nós estamos caminhando em uma direção de preservar valores democráticos, de chamar atenção para a enorme desigualdade do Brasil e de produzir um pouco de justiça social. Então eu espero que, seja qual for o resultado eleitoral agora em 2026, a sociedade brasileira não negligencie sua responsabilidade de seguir com a Constituição, de vigiar o poder e de exigir que as coisas se processem dentro dos trilhos da legalidade. Essa é a minha esperança.

Capa do livro 'Os Dois Hemisférios do Meu Colarinho'
Capa do livro 'Os Dois Hemisférios do Meu Colarinho'
Foto: Ateliê Editorial/Divulgação / Estadão

Os Dois Hemisférios do Meu Colarinho

  • Autor: Eugênio Bucci
  • Editora: Ateliê Editorial (96 págs.; R$ 61)
  • Lançamento em SP: 9/3, às 19h, na Livraria da Vila (R. Fradique Coutinho, 915 - Vila Madalena), com sessão de autógrafos e bate-papo com Cadão Volpato e Pasquale Cipro Neto
Estadão
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