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Premiada na França por 'Menos que Um', Patrícia Melo foi destaque no Salão do Livro de Paris

A escritora brasileira Patrícia Melo foi uma das convidadas do Salão do Livro de Paris. Ela esteve no evento para falar de "Menos que Um", seu mais recente romance traduzido para o francês. A obra denuncia a vulnerabilidade das pessoas em situação de rua em São Paulo. O romance recebeu, na França, o Prêmio Transfuge de Literatura Sul-Americana, em janeiro, logo após seu lançamento no país.

20 abr 2026 - 16h08
(atualizado em 21/4/2026 às 08h20)
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"Menos que Um" foi traduzido por Élodie Dupau e publicado pela editora Buchet Chastel com o título "Ceux qui ne sont rien". Segundo a própria Patrícia Melo, o livro é uma rapsódia da vida e dos sonhos que se cruzam, formando um caleidoscópio da miséria brasileira. Este é o 12° romance de Patrícia Melo e o 12° a ser traduzido para o francês.

Ao analisar a publicação, as críticas brasileira e francesa evocam "Os Miseráveis", de Victor Hugo, revisitados e retirados da invisibilidade à brasileira. O prêmio conquistado por "Menos que Um" foi a segunda recompensa literária de Patrícia Melo na França. Em 2024, a tradução do livro "Mulheres Empilhadas", que em francês recebeu o título "Celles qu'on tue", venceu o prêmio da revista Madame Figaro.

Patrícia Melo, que atualmente mora em Lisboa, veio a Paris participar do Salão do Livro para falar de sua literatura, que ficou muito mais engajada nos útimos anos. "Eu sempre tive certa resistência em dar uma função à literatura, mas chegou um momento em que senti que o autor precisava se politizar, se posicionar. O Brasil viveu isso. Corremos riscos muito sérios de perder uma democracia ainda muito jovem", afirma nessa entrevista à RFI.

RFI: Patrícia Melo, com esse prêmio você participou do Salão do Livro de Paris já coroada de sucesso.

Patrícia Melo: Pois é, foi uma surpresa para mim esse prêmio, fiquei muito feliz. Isso dá mais visibilidade ao livro, e eu acho muito importante esse reconhecimento que a gente ganhou para colocar a obra mais em evidência.

RFI: O que você achou da comparação entre "Menos que Um" e "Os Miseráveis", o grande romance do século XIX, de Victor Hugo?

P.M.: Victor Hugo é uma grande paixão. Ele foi uma inspiração no sentido de registrar a miséria e, ao mesmo tempo, mostrar o movimento político, a organização e a revolta. Foi inspirador. É claro que foi muito lisonjeiro para mim que as pessoas percebam essa referência. Mas não é só Victor Hugo. Tem também Jorge Amado. Outro livro que me inspirou muito foi "Capitães da Areia".

RFI: Você participou da tradução. O que achou do título em francês? "Menos que Um" virou "Ceux qui ne sont rien".

P.M.: Eu gostei muito. Achei que ele tem uma sonoridade mais poética. Faz também uma espécie de eco com o título do romance anterior. Achei muito interessante. Aqui na França, minha editora fez uma observação da qual eu não tinha me dado conta. Talvez tenha a ver com meu afastamento do Brasil, mas ela acha que esses dois últimos livros funcionam como um registro dos anos terríveis que a gente viveu recentemente, quando a direita tomou o poder no país.

RFI: Você acerta contas com o governo Bolsonaro?

P.M.: Acho que ali fica registrado o quanto foi um período pesado.

RFI: Desde o seu primeiro romance, "O Matador", você denuncia a violência brasileira. Você diria que, com o tempo, sua obra ficou mais explícita e engajada?

P.M.: Acho que sim, houve uma guinada política. Não foi uma decisão voluntária. Foi uma emoção, uma indignação, um espanto diante do que estava acontecendo, que entrou na minha literatura. Eu sempre tive certa resistência em dar uma função à literatura, mas chegou um momento em que senti que o autor precisava se politizar, se posicionar. O Brasil viveu isso. Corremos riscos muito sérios de perder uma democracia ainda muito jovem.

RFI: O fato de morar fora do Brasil facilita essa análise? Esse distanciamento ajuda?

P.M.: Acho que sim. Em termos de forma, comecei a querer compor grandes painéis, fazer grandes panorâmicas do Brasil. Isso não era um desejo consciente desde o início. A gente percebe quase no final da escrita, quando o livro já está com uma forma definida. Eu tinha a ideia de criar um livro coral, com muitos personagens, e ele acabou se tornando um grande retrato da miséria.

RFI: Para quem ainda não leu o livro, "Menos que Um" é um romance polifônico, com muitos personagens, ambientado no centro de São Paulo, especialmente em uma praça. Também há poesia e solidariedade.

P.M.: Sim. A gente costuma pensar que a vida nas ruas é só feita de dificuldades, mas fiquei muito surpresa ao perceber a solidariedade que existe entre essas pessoas. Elas precisam se unir para se defender, para conseguir dormir, porque são vulneráveis 24 horas por dia e invisíveis quase sempre. Só se tornam visíveis quando sofrem violência. Há muita organização, companheirismo, amizade, amor, poesia e sonho. Uma das coisas que mais me marcou na pesquisa foi perceber o quanto o sonho estrutura a vida dessas pessoas. É uma espécie de colchão amortecedor para aguentar as quedas constantes.

RFI: No Salão do Livro, você participa de uma mesa com o escritor haitiano James Noël, intitulada Haiti-São Paulo: da raiva à revolta. Os dois países têm em comum a violência como herança?

P.M.: Acho que sim. A violência está profundamente enraizada na cultura dos dois países. Ela faz parte do tecido da vida. É muito perceptível tanto na realidade brasileira quanto na haitiana. São países com uma história de violência contínua, que nunca foi devidamente revisitada ou reparada. O Brasil, por exemplo, nunca lidou bem com sua história da escravidão.

RFI: No final de "Menos que Um", o personagem escritor começa a escrever o livro que acabamos de ler. Como ele afirma, escrever é mais fácil do que viver?

P.M.: Acho que sim. Esse escritor tem um pouco de mim ali. Sempre fui uma pessoa medrosa. A vida imaginada, da fábula e do sonho, é mais fácil. Não sei como essas pessoas, como meus personagens, aguentam o tranco. A realidade de quem vai para a rua é uma sequência de perdas que nunca acabam.

RFI: Você é uma das escritoras brasileiras de maior visibilidade, com todos os livros traduzidos para o francês e vários idiomas. Você teme esse recuo de leitores no mundo?

P.M.: Acho que isso faz parte da revolução tecnológica que a gente vive. Houve uma história da leitura que acompanhou a humanidade e que agora está se perdendo. As pessoas estão menos aptas à introspecção, ao silêncio e à concentração. A leitura exige um tempo que muita gente já não tem mais. Essa queda de leitores é real e global. Acontece no Brasil, na França, na Alemanha. É um fenômeno mundial, consequência direta dessa revolução tecnológica.

RFI: A inteligência artificial é preocupante?

P.M.: Acho que sim. Não sabemos exatamente o que estamos criando nem como isso vai ser utilizado. O mais grave é que as bases éticas que sustentam nossa civilização talvez não deem conta dessa revolução. Ainda nem começamos a pensar seriamente em legislação para a inteligência artificial. Vamos ter que produzir muita filosofia e muitos códigos éticos para lidar com essa realidade. Vivemos uma revolução sem perceber, e ela é muito mais veloz do que qualquer outra.

RFI: Isso tudo já modificou ou vai modificar sua prática como escritora?

P.M.: Em parte, sim. Uso a inteligência artificial para pesquisa, para levantar dados e estatísticas. Ela agiliza bastante. Mas não substitui o olhar do pesquisador. Meu modo de escrever, de pensar a literatura, isso não mudou.

RFI: Seu último livro é tão sombrio quanto os dois anteriores?

P.M.: Acho que ele fecha esse ciclo sombrio dos últimos anos. É um livro ambientado na floresta, levemente inspirado na história de Bruno Pereira e Dom Phillips. Minha editora francesa diz que estou encerrando uma espécie de trilogia dos anos Bolsonaro. Acho uma leitura muito sensível do que venho tentando fazer nesses romances.

Clique na foto principal para ouvir a entrevista na íntegra.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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