Por que jovens adultos do sul da Europa moram com os pais
Enquanto na Itália mais de 50% dos jovens de 25 a 34 anos vivem com os pais, na Dinamarca esse índice é de apenas 3,9%. Estatística reflete diferenças estruturais, culturais e econômicas entre o norte e o sul da Europa.Depois de morar em outros países no início da vida adulta, a italiana Rosaria Benedetto, de 29 anos, voltou para a casa dos pais em Turim há cerca de três anos e meio. A mudança foi impulsionada pela vida acadêmica e pelo cenário global: após estudar emPortugale na cidade italiana de Pádova, ela passava uma temporada na Rússiaquando a guerra de agressão contra a Ucrânia a fez retornar à Itália. Hoje, a casa da família funciona não apenas como um porto seguro, mas como base estratégica para um novo plano: poupar dinheiro para se mudar para a Austrália.
"Cada vez que eu voltava para a casa dos meus pais, era só momentaneamente", diz ela. "Como eu queria fazer uma mudança muito grande, precisava de tempo, de organização e de dinheiro. Cada vez que quero sair de casa, não é só ir para outra cidade ou da região, mas é outro país".
O objetivo era viajar em setembro, mas a necessidade de um procedimento de saúde fez com que ela adiasse a nova saída de casa.
A realidade europeia
O caso de Rosaria ilustra a realidade de milhões de jovens na Europa. Segundo dados da Eurostat, serviço de estatística da União Europeia (UE), em 2025, mais da metade (50,7%) dos italianos entre 25 e 34 anos vivia com os pais, frente a uma média de 30,1% no bloco.
No norte do continente, porém, o cenário é o oposto: Dinamarca e Finlândia registraram os menores índices, com 3,9% e 4%, respectivamente. Na ponta oposta, as maiores taxas foram observadas na Croácia (62,3%) e na Grécia (56,3%).
A métrica europeia considera sob o teto familiar também os jovens que estão fora por estudos ou trabalho, mas que mantêm vínculo domiciliar com a casa dos pais, contribuindo para o rendimento familiar ou dele dependendo.
Para Francesco Billari, professor de demografia e reitor da Universidade Bocconi, na Itália, fatores históricos e culturais ajudam a explicar esse abismo. Enquanto no norte a independência precoce é estimulada, no sul o vínculo familiar molda até as políticas públicas.
No passado, enquanto jovens ingleses deixavam a família independentemente da situação econômica, no sul da Itália e no leste europeu o costume era permanecer com os pais mesmo após o casamento. "Em partes da Espanha, existe a tradição do casar 'dentro de casa', o que chamam de 'casado en casa', conta Billari.
A cultura é tão enraizada que sobrevive até a processos migratórios. O professor nota que o forte vínculo entre pais e filhos se mantém até entre famílias de origem sul-europeia estabelecidas em outros continentes, "mesmo depois de gerações", diz. E, na Europa, influencia até a saúde.
"Ao comparar mães francesas e italianas após a saída do último filho de casa, as italianas apresentaram piora na saúde. As francesas não tiveram impacto significativo. Existe sempre essa cultura de que sair de casa é um pouco como "morrer", diz ele sobre um estudo feito por um de seus ex-alunos.
A longevidade adiciona outra camada. "O sul da Europa está entre os lugares do mundo onde as pessoas vivem mais tempo. Os jovens sabem que os pais estarão presentes por muito tempo, e isso é bom para a saúde mental de ambos os lados", acrescenta o professor.
A percepção sobre o desemprego também mudou. Se no passado a falta de trabalho forçava a emigração em busca de sustento — origem histórica do sentimento de "saudade" —, hoje a rede familiar amortece a crise.
"Antigamente, o desemprego ocorria em famílias pobres. Hoje, ocorre com [filhos de] pais que estão em uma situação estável. Na situação atual, o desemprego é um problema, claro, mas, de certa forma, tende a ser atenuado pelo fato de os pais estarem bem financeiramente", explica o professor.
A matemática por trás da decisão
A economia é o fator decisivo. Nos países escandinavos, como Dinamarca e Suécia, estudantes frequentemente recebem bolsas governamentais e encontram mercados de aluguel flexíveis. No sul da Europa, onde a cultura habitacional é voltada para a casa própria, o jovem precisa esperar e poupar mais tempo para comprar um imóvel, além de, frequentemente, precisar pagar para frequentar a universidade pública, segundo o professor.
"O jovem adia até poder comprar algo, e para comprar, você precisa esperar mais tempo. Enquanto que no modelo do norte da Europa, com aluguéis — às vezes baratos, dependendo do país —, é muito fácil ser flexível no mercado imobiliário", diz o professor.
Essa estrutura se reflete no ambiente acadêmico, apontado por Billari como um dos principais motivos para a saída de casa, como no caso de Rosaria.
Enquanto universidades com tradição de campus na Alemanha, na França e no Reino Unido — como Cambridge e Oxford — foram construídas com grandes complexos de moradia estudantil, o modelo do sul e do leste europeu foi desenhado para que os alunos cursem o ensino superior enquanto vivem com os pais.
"Na Itália, o alojamento estudantil é raro porque se espera que o aluno frequente a universidade mais próxima de casa. Na Espanha, antigamente, o estudante não podia frequentar uma universidade pública fora da sua província", explica o professor.
O suporte dos pais também acaba amortecendo problemas estruturais, que se retroalimentam, como os baixos salários em início de carreira. O professor diz que as empresas tendem a pagar remunerações relativamente baixas a esses jovens que ainda dividem o teto com a família porque "sabem que eles têm o apoio dos pais".
"Elas [as companhias] estão explorando o fato de que os pais estão dispostos a sustentar seus filhos", analisa o demógrafo.
O contraste de quem saiu cedo
A alemã Clara Seidenstricker, de 27 anos, moradora de Hamburgo, é um exemplo da independência precoce do norte europeu. Na Alemanha, a taxa de jovens de 25 a 34 anos que vivem com os pais é de apenas 13,5%.
Sua primeira saída de casa foi aos 15 anos para um intercâmbio nos Estados Unidos. "Lá começou meu interesse para morar em lugares internacionais e a minha família sempre me apoiou com isso. Você é muito mais independente se sair nova de casa. Você se dá conta de que tudo o que os pais faziam — como fazer compras e limpar a casa — não é o 'normal', mas algo que agora você precisa fazer", reflete.
Hoje, avaliando a própria realidade e dos colegas de universidade, Clara aponta que o modelo alemão se sustenta em dois pilares: apoio familiar e estatal. Morar em grandes cidades como Hamburgo é "muito caro", tornando "quase impossível" para um estudante arcar sozinho com aluguel, seguro médico e contas.
Embora tenha renda própria, Clara pondera: "Eu tenho a sorte e o privilégio de os meus pais poderem me apoiar com isso, mas essa não é a realidade de todos os jovens".
Para suprir essa lacuna, ela cita a importância do Bafög, um auxílio estatal da Alemanha voltado a estudantes de menor renda familiar. Embora não receba o benefício por não se enquadrar nas regras de renda familiar, ela explica que muitos de seus amigos dependem dessa bolsa, o que permite que eles estudem em qualquer região do país.
"Aqui quando você completa os 18 anos, quer sair o mais rápido possível e ser independente. E se você saiu uma vez de casa, é mais difícil voltar quando você se acostuma a ter suas próprias regras", diz Clara. "Para alguns pode ser um pouco complicado no início, mas é algo que temos que aprender. Então, por que não mais novo?", indaga.
Consequências
Esse arranjo familiar, no entanto, cobra um preço demográfico. Ao adiar a formação de novos lares, países como Itália e Espanha mantêm algumas das menores taxas de fertilidade do mundo, diz o professor.
"Eu comecei a pesquisar sobre esse assunto usando dados da década de 1990 e, naquele período, a Itália e a Espanha tinham a menor taxa de fertilidade do mundo, que era de 1,2 filho por casal. O nível continua o mesmo. Não é o mais baixo do mundo porque a Coreia e a China estão em posições inferiores agora", diz ele.
Além disso, Billari indica um impacto direto na propensão a assumir riscos e empreender. Atualmente como reitor da universidade, ele cita viver essa correlação na prática ao incentivar os alunos em projetos. "É muito mais fácil ser fundador de uma startup na Suécia ou na Estônia, onde os jovens se tornam independentes muito cedo".
Esse é um dos pontos negativos apontados por Rosaria: ela cita não se sentir "independente completamente". Para ela, porém, a permanência é um sacrifício financeiro consciente em prol de projetos de longo prazo. "Eu poderia encontrar uma casa aqui próximo para morar, mas neste caso seria só usar dinheiro sem sentido e eu sei que poderia guardar este dinheiro para morar fora. Então é um equilíbrio", avalia.
"Considerando a minha idade, não quero morar mais com meus pais. Para eles também acho que [a saída de casa] significa que a filha deles já tem uma vida própria e uma estabilidade", relata.
Seus pais, que na mesma idade já tinham imóvel próprio e família formada, apoiam a decisão. "Neste momento da minha vida, quero viajar e descobrir os trabalhos que posso fazer com todas as línguas que eu falo. Aprender novas coisas que podem me ajudar a encontrar o meu trabalho dos sonhos. O mais importante é estar satisfeita do meu percurso e da minha evolução", conclui.
A nova saída de casa, contudo, pode não ser definitiva. Rosaria cogita retornar no futuro para cuidar dos pais na velhice — mas, por ora, o foco está no planejamento da viagem e "momento perfeito", segundo ela, para viver do outro lado do mundo sem tantas preocupações.
---------
Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.