Política dá o tom no Festival de Cinema de Veneza
Considerada a edição mais política de sua história, o 83º Festival de Cinema de Veneza destaca temas como o conflito em Gaza, a guerra na Ucrânia, imigração e críticas a figuras como Elon Musk. O evento enfrenta polêmicas diplomáticas com o governo ucraniano pela exibição de uma obra russa, mas mantém sua relevância cinematográfica ao equilibrar debates urgentes da atualidade com a presença de grandes astros de Hollywood, veteranos da indústria e a entrega de prêmios pelo conjunto da obra.
Gaza, ICE de Trump e Elon Musk são alguns dos temas de filmes que estreiam no evento deste ano. Obra russa que está em cartaz foi alvo de críticas do governo ucraniano.Os tradicionais smokings e vestidos de gala do Festival de Cinema de Veneza poderiam muito bem, este ano, ser trocados por fardas - ou pelo menos por estampas camufladas. Seria mais adequado já que, este ano, a política e o cinema político estão dominando o tapete vermelho.
A edição de 2026 foi chamada pelo diretor artístico do festival, Alberto Barbera, de a "mais política" de Veneza de todos os tempos. Durante 11 dias na estância balneária do Lido, o público será apresentado a filmes que abordam a situação em Israel e Gaza, a guerra da Rússia contra a Ucrânia, o golpe de Estado apoiado pela CIA no Chile que levou Augusto Pinochet ao poder, as batidas do ICE em Minneapolis e um documentário revelador sobre o homem mais rico do mundo.
A 83ª edição do Festival Internacional de Cinema de Veneza começa em 2 de setembro com Ink, de Danny Boyle, um drama sobre a aquisição do tabloide britânico The Sun por Rupert Murdoch em 1969, a história de origem do império midiático de direita do magnata.
A política no tapete vermelho
A competição deste ano inclui Naza, documentário dos cineastas israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, que produziram No Other Land, vencedor do Oscar em 2025. Naza tematiza a matança de civis palestinos em Gaza pelas forças armadas israelenses.
Já a diretora russo-americana Julia Loktev narra a repressão de Vladimir Putin ao jornalismo independente em My Undesirable Friends Part II — Exile, uma sequência de seu documentário de 2024.
O documentário Letters From the Silenced Country, de Andrei Kutsila - uma coprodução da DW, ZDF/Arte e TVP sobre a repressão em Belarus, terra natal de Kutsila -, também fará a estreia mundial em Veneza.
Outra obra inédita é o documentário de quatro horas de Alex Gibney sobre Elon Musk, intitulado Musk - um filme, que o homem mais rico do mundo já tachou de "obra difamatória" antes mesmo de tê-lo visto.
Laura Poitras, diretora vencedora do Oscar por Citizenfour, exibirá o que ela descreve como um "curta-metragem de terror": o documentário They're Here, codirigido com Rachel Lauren Mueller e montado a partir de imagens inéditas da operação do ICE, a polícia de imigração americana, em Minneapolis.
Essa é a nova cara do Festival de Veneza.
Sob a direção de Barbera, o evento vinha cultivando, até recentemente, a reputação de ser um palco para estrelas de cinema e campanhas ao Oscar. Eram comuns imagens como a de Timothée Chalamet no tapete vermelho ou de George Clooney e Brad Pitt se divertindo em uma coletiva de imprensa. Veneza deixava que os outros grandes festivais europeus - Berlim e, em menor grau, Cannes - fossem o palco dos filmes políticos e dos debates polêmicos que os acompanham.
A reação na Berlinale
Mas a reputação de Berlim como festival voltado para um cinema ativista sofreu um grande abalo. Nos últimos três anos, o debate político, principalmente sobre o conflito israelo-palestino, ofuscou as discussões sobre cinema na Berlinale, a ponto de colocar em questão o futuro do festival.
Na edição deste ano, o presidente do júri, Wim Wenders, foi duramente criticado por afirmar que os cineastas "devem ficar de fora da política". Na cerimônia de premiação, quando o diretor sírio-palestino Abdallah Al-Khatib acusou o governo alemão de ser "cúmplice do genocídio cometido por Israel em Gaza", a reação negativa quase custou o cargo à diretora da Berlinale, Tricia Tuttle.
Veneza, por outro lado, tomou a direção oposta e passou os últimos dois anos apostando no cinema político.
Veneza encara a polêmica
No ano passado, ocorreu a estreia mundial do filme The Voice of Hind Rajab, de Kaouther Ben Hania. O comovente docudrama, que recria o assassinato, pelas forças israelenses, de uma menina palestina de 5 anos e de sua família na cidade de Gaza, recebeu uma ovação de pé de 22 minutos, um recorde no Lido. As forças armadas israelenses anunciaram recentemente uma investigação oficial sobre a morte de Hind Rajab.
Apenas alguns dias antes, milhares de pessoas marcharam no Lido em protesto contra a guerra em Gaza. Cineastas pediram a Barbera que classificasse a campanha de Israel como "genocídio". O diretor do festival, no entanto, não chegou a esse ponto, falando, em vez disso, de sua "enorme tristeza" diante do sofrimento dos palestinos.
Mas o diretor do Festival de Veneza não hesitou, nem naquela época nem agora, em incluir na programação filmes que abordam, frontalmente, os temas mais polêmicos da atualidade.
Ucrânia rechaça filme dirigido por russo
Os filmes russos selecionados pelo festival também estão gerando protestos.
O Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia, o Ministério da Cultura e a embaixada do país na Itália apresentaram uma reclamação formal contra a decisão de Barbera de incluir na competição oficial a película DAU, de Ilya Khrzhanovsky, um drama sobre a vida sob o regime soviético na Ucrânia. O país se opõe às conexões do filme com a Rússia.
Khrzhanovsky nasceu na Rússia, embora tenha renunciado à cidadania russa e agora viva no exílio em Berlim. O protagonista do filme, o maestro greco-russo Teodor Currentzis, ainda vive e trabalha na Rússia e nunca condenou publicamente a guerra travada por Moscou contra a Ucrânia.
Em um comunicado, os ministérios ucranianos afirmaram que a exibição do filme "envia um sinal profundamente preocupante" em relação à guerra.
Mas Barbera não recuou. O diretor do festival em Veneza classificou as críticas como uma "campanha de difamação" por quem não assistiu ao filme.
Nas redes sociais, Khrzhanovsky rebateu: "DAU não é um instrumento da política cultural do Estado russo", escreveu ele. "É uma declaração artística sobre a natureza do mal totalitário."
Estrelas continuam chegando
Mas Veneza não abandonou as estrelas de Hollywood.
Robert Pattinson, famoso por Batman e Crepúsculo, estará no Lido este ano com Primetime, interpretando um polêmico produtor de reality shows dos EUA.
John Malkovich e Sam Rockwell interpretam agentes da CIA no Chile, na véspera do golpe militar que levou Pinochet ao poder, em Wild Horse Nine, do diretor Martin McDonagh (Três Cartazes à Beira da Estrada).
Javier Bardem e Penélope Cruz, que formam um casal na vida real, interpretam marido e mulher em Bunker, de Florian Zeller, que conta a história de um arquiteto contratado para construir um abrigo nuclear para um bilionário.
Já George Clooney e a lenda do cinema Ellen Burstyn, de 93 anos, farão uma visita a Veneza para receber os prêmios Leão de Ouro pelo conjunto da obra.
Veneza tampouco abandonou o papel de ponto de encontro para os veteranos do cinema - vários deles alemães. Wim Wenders, recém-saído do furor na Berlinale, traz ao Lido uma obra bem mais suave: um documentário em 3D sobre o trabalho do arquiteto suíço Peter Zumthor.
Werner Herzog, o último "selvagem" do cinema alemão dos anos 1970, retorna à produção de filmes narrativos pela primeira vez em sete anos em Veneza com Bucking Fastard, estrelado pelas irmãs na vida real Kate e Rooney Mara.
E para quem quer apenas esquecer o mundo por um momento, relaxar e cantar, os rockstars Liam e Noel Gallagher são esperados no Lido para a estreia do documentário Don't Look Back in Anger, que mostra os bastidores da volta do Oasis aos palcos.
---------
Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.