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O retorno à Grécia

Em livro otimista e humano, Theodor Kallifatides descreve outra face da imigração

22 ago 2019
02h11
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Um garoto grego, há meio século, cansado da falta de trabalho e do caos que o cercavam em seu país natal, conseguiu fugir para a Suécia. Lá, superou as dificuldades da vida do imigrante. Ganhando a vida como pôde, aprendeu a língua e tão bem que descobriu uma vocação como escritor e começou a escrever em sueco. Foi bem-sucedido. Tanto que poderia ganhar a vida escrevendo romances e ensaios. Ele se casou com uma sueca, eles tiveram filhos, netos, compraram um apartamento, depois uma casa de verão e um pequeno apartamento onde ele se trancava pela manhã e à tarde para ler e escrever.

Theodor já completara 70 e tantos, quando um dia, de repente, experimentou algo que até então não conhecera: um bloqueio intelectual. Olhava para o cilindro de sua pequena máquina portátil e estava com a mente vazia, sem uma única ideia sobre a qual escrever. Ele foi dar uma volta pelo oceano, algo que sempre o apaziguava. Mas desta vez não funcionou; ficou assim dias, semanas, meses, sem nada a dizer, agoniado pela paralisia e constipação intelectuais. Gunilla, sua esposa, inquieta, propôs uma viagem. Por que não a Grécia, sua distante pátria? Do fundo de sua desmoralização, ele aceitou.

Chegaram a Atenas de avião. Lá, alugaram um carro e se atiraram na estrada, rumo ao Peloponeso, onde fica aquela pequena cidadezinha, Molaoi, onde Theodor nascera. Ali estava, empoeirada, eterna e efusiva. Alguns parentes centenários continuavam lá, intangíveis, como as oliveiras, as amendoeiras, as cabras, os gatos e as vinhas. Eles o reconheceram na rua. A escola foi alertada. Os professores organizaram uma homenagem a ele. Aconteceu ao entardecer, quando uma leve brisa substituiu o calor sufocante do dia, sob uma lua redonda como queijo. Quando as crianças cantaram em sua homenagem, Theodor sentiu duas grossas lágrimas escorrerem por suas velhas bochechas.

Na manhã seguinte, na antiga pensão onde o casal estava hospedado, Theodor acordou de madrugada, como sempre fizera na Suécia. Ele preparou sua pequena máquina portátil e, sentindo todo o seu corpo tremer, começou a escrever. Com a mesma insegurança e terror de cometer erros em cada palavra, como fizera todas as manhãs naquele meio século de vida sueca. Mas desta vez ele não escreveu em sua língua adotada, mas em grego. Enquanto tremia, cada vez mais morrendo de medo, as palavras fluíam, enchiam as páginas e ele sentia uma excitação extraordinária, a mesma que experimentara ali, em tempos longínquos, quando escreveu sua primeira história sueca.

O livro que Theodor Kallifatides escreveu em grego - o primeiro da história de escritor - acaba de ser traduzido para o espanhol por Selma Ancira (Gutenberg Galaxy) e é chamado de Another Life to Live (Outra vida para viver, em tradução livre). Eu fiquei profundamente comovido. Pela história que ele conta e que acabei de resumir sucintamente, mas também pela naturalidade e destreza como a relata, como se fosse algo perfeitamente natural, e não o cataclismo psicológico que deveria ter sido, por esse quase octogenário, redescobrir a língua de sua infância, a língua esquecida, substituída pela do imigrante que, depois desse bloqueio traumático, redescobre o grego e, ao mesmo tempo, recupera uma vocação que acreditava estar perdendo. É um livro muito bonito, o de uma verdadeira morte e ressurreição espiritual, um milagre contado com a tranquila naturalidade com que se descreve um fato trivial e cotidiano.

Talvez a tremenda impressão que tive lendo-o seja porque, ao contrário de Theodor Kallifatides, não há nada em minha vida, como na sua, como aquela aldeia, Molaoi, perdida nas entranhas do Peloponeso, onde tudo começou, o lugar de onde arrancou suas memórias. Eu não sei onde começam as minhas. Não em Arequipa, é claro, onde nasci, porque minha mãe e meus avós me tiraram de lá quando eu tinha apenas um ano de idade, antes de minhas memórias começarem. Eles eram de Cochabamba, mas na grande casa da Rua Ladislao Cabrera, lá na Bolívia, todas as lembranças da minha família bíblica eram de Arequipa, e eu as herdei sem tê-las vivido. Em Cochabamba eu aprendi a ler, a melhor coisa que aconteceu comigo, mas, na verdade, acho que só comecei a viver de verdade, em Piura, cidade que já desapareceu sob uma modernidade que enterrou aquela pequena cidade cercada de praias arenosas, onde eu chamava de "piagenos" os burritos e de "churres" as crianças, e foi onde eu aprendi que as cegonhas não traziam os bebês de Paris. Fui morar em Lima aos 11 anos e passou-se muito tempo até que eu deixasse de detestar aquela cidade que me separou dos meus avós e tios.

Sempre achei que ser cidadão do mundo era a melhor coisa que poderia acontecer a uma pessoa e ainda acredito nisso. Que as fronteiras são a fonte dos piores preconceitos e que elas antagonizam as pessoas e provocam guerras estúpidas. E que, portanto, devemos tentar diminuí-las pouco a pouco até que desapareçam completamente. Isso está acontecendo, sem dúvida, e essa é uma das coisas boas sobre a globalização, embora também haja algumas coisas ruins, como o fato de aumentar para extremos vertiginosos a desigualdade econômica entre as pessoas.

Mas é verdade que a primeira língua, aquela em que se aprende a dar nomes à família e às coisas deste mundo, é uma verdadeira pátria, que, mais tarde, com o aglomerado de coisas da vida moderna, às vezes se perde, sendo confundida com outras coisas, e esse é provavelmente o teste mais difícil que os imigrantes têm que enfrentar, essa maré humana que cresce a cada dia, à medida que o abismo se alarga entre os países prósperos e miseráveis, a tarefa de aprender a viver em outro idioma, isto é, uma outra maneira de entender o mundo e expressar a experiência, crenças, as pequenas e grandes circunstâncias da vida cotidiana.

Theodor Kallifatides conta tudo isso como se fosse fácil, como se alcançar tal reconstrução linguística de uma pessoa fosse alcançada de forma natural, e não significasse algo muito difícil de conseguir, algo que está além do alcance de uma imensa maioria de imigrantes, que jamais conseguem integrar-se ao seu novo país, como ele conseguiu. Mas também conta como, mesmo nos casos mais bem-sucedidos, como o seu, sempre sobrevive, possivelmente enterrado no mais profundo e secreto da personalidade, aquela raiz, esse ponto de partida, feito de paisagem, memória, linguagem, família, que, de repente, se torna exigência peremptória, uma nostalgia que reivindica seus privilégios. 

Lembro-me, em minha juventude em Miraflores, de um velho polonês que era um peleteiro e sobrevivera aos campos de extermínio nazistas. Ele disse detestar a Polônia porque, segundo ele, os poloneses haviam cruzado os braços enquanto aquilo acontecia, mas, sempre que conversávamos, ele voltava para a Polônia, para a família, para a cidadezinha onde passara a infância, para a cidade onde seu pai e seu avô também tinham sido peleteiros. Às vezes, seus olhos lacrimejavam, lembrando daquela terra que ele dizia odiar.

Enquanto o nacionalismo não mostrar sua cabeça horrível, não é mau que alguém anseie pela língua que perdeu, pelas cidades ou bairros dos jogos infantis, pela escola onde estudou e pelos rituais familiares entre os quais cresceu. Esse é um sentimento saudável, caloroso, necessário, e assim nos mostra Another Life to Live, um livro sem pretensões que é, no entanto, profundamente otimista e humano, pois descreve outra face da imigração e apresenta o amor-próprio sem uma pitada de patriotismo ou de pieguice. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

Estadão
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