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O que é lenda e o que é verdade no mito das amazonas

1 jun 2026 - 14h41
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Diz-se que elas removiam o seio direito porque ele atrapalharia no uso do arco e que matavam seus filhos homens. Mas o que se sabe sobre essas míticas mulheres guerreiras da Grécia Antiga?Sua reputação entre os antigos gregos não era das melhores: as amazonas eram consideradas combatentes duras e destemidas, que iam para a batalha a cavalo com arco e flecha. Usavam calças, tatuavam-se e, segundo se dizia, inebriavam-se com drogas em orgias.

Amazonas guerreiras e combatentes gregos na ilustração de um vaso de 380 a. C.
Amazonas guerreiras e combatentes gregos na ilustração de um vaso de 380 a. C.
Foto: DW / Deutsche Welle

"Isso realmente chocava os gregos, pois na Grécia Antiga eram os homens que mandavam", explica Adrienne Mayor, historiadora e pesquisadora da Universidade de Stanford. "As mulheres eram mantidas em casa, teciam e cuidavam das crianças."

Uma sociedade em que as mulheres tinham igualdade de direitos era difícil de imaginar para a sociedade patriarcal da época, diz. Assim, algumas crueldades eram atribuídas às amazonas: elas escravizariam homens, mutilariam ou até assassinariam crianças do sexo masculino.

Ao mesmo tempo, os gregos eram tão fascinados por elas que as eternizavam em estátuas, pinturas murais e vasos. Havia até bonecas de amazonas para as crianças.

A melhor maneira de um herói grego provar sua bravura era derrotando uma poderosa rainha amazona. Como Teseu, rei de Atenas, que teria sequestrado Hipólita e a tomado como esposa - uma história que, cerca de 2 mil anos depois, foi retomada pelo dramaturgo inglês William Shakespeare no Sonho de uma noite de verão.

Ou Aquiles, que teria matado Pentesileia em combate. No entanto, apaixonou-se por ela ao retirar o capacete dela enquanto ela agonizava, lamentando seu ato.

Existem muitas variantes dessas histórias, mas o desfecho, do ponto de vista dos narradores masculinos, é sempre claro: os homens acabam prevalecendo.

As amazonas realmente existiram?

A mais antiga menção escrita às amazonas é a do poeta grego Homero, na epopeia Ilíada (por volta do 8º século a.C.), sobre a Guerra de Troia. Outros se seguiriam. Durante muito tempo, não se sabia se essas mulheres guerreiras eram apenas fruto da imaginação dos contadores de histórias da Antiguidade ou se realmente existiram.

Mas, graças a descobertas arqueológicas espetaculares recentes na Ucrânia, no sul da Rússia, no Cazaquistão e na Ásia Central, há indícios de que, nos períodos e locais onde os gregos situavam as amazonas míticas, realmente existiram mulheres guerreiras, afirma Mayor.

"Até agora foram escavadas mais de 300 sepulturas de mulheres enterradas com flechas, machados de guerra e espadas - algumas com ferimentos de combate", observa.

Segundo Mayor, a inspiração para as amazonas teriam sido as arqueiras montadas de diferentes tribos citas, que viviam ao redor do Mar Negro e nas estepes da Eurásia. "Os gregos conheceram essas mulheres quando fundaram colônias lá. Esses povos nômades levavam um estilo de vida relativamente igualitário, no qual as mulheres também assumiam papéis de liderança."

A origem da palavra "amazona", porém, é incerta. Talvez venha do antigo persa ha-mazon, que significa "guerreira", sugere Mayor. Outra possibilidade é que derive da palavra circassiana amezane, que significa "mãe da floresta" ou "mãe da lua".

Um historiador chamado Helânico (século 5º a.C.) tentou atribuir ao termo um significado grego, traduzindo-o como "sem seio". Essa ideia alimentou o equívoco de que as amazonas removiam o seio direito, pois ele atrapalharia no uso do arco ou no arremesso de lanças. Pura bobagem, diz Mayor. "Essa ideia bizarra já era criticada na Antiguidade, e nenhum artista antigo jamais retratou amazonas com apenas um seio."

Matavam meninos?

Apesar disso, estudiosos antigos continuaram a inventar histórias sobre as amazonas. Surgiu o boato de que, vivendo apenas entre mulheres, elas só permitiam o nascimento de meninas e abandonavam, mutilavam ou matavam os meninos.

Isso levanta a questão: mas como elas se reproduziam se os homens eram rejeitados? Segundo Mayor, historiadores gregos como Heródoto e Estrabão relatavam que grupos de guerreiras encontravam-se com outras tribos que incluíam homens. "Tinham relações sexuais e depois se separavam novamente."

Esses relatos não mencionam assassinatos ou mutilações. "Quando tinham filhos, ficavam com as meninas e enviavam os meninos de volta ao povo do pai", explica Mayor. Isso fez com que pesquisadores modernos vissem essas mulheres como mães negligentes. No entanto, esse era um costume bastante comum entre povos nômades: criar alianças ao deixar o filho crescer em outro grupo.

Só no início do século 20 surgiu a ideia de que as amazonas eram lésbicas. A escritora russa Marina Tsvetaeva afirmou que elas simbolizavam o amor entre mulheres, e essa visão foi adotada por outros autores.

Mayor discorda: "Os gregos não tinham problema com a homossexualidade, mas não há relatos antigos de que as amazonas fossem lésbicas. Se achassem isso, certamente teriam mencionado."

As amazonas inventaram as calças?

Se hoje usar calças é algo comum, na Grécia Antiga as roupas eram feitas de grandes pedaços retangulares de tecido, habilmente drapeados e presos com alfinetes ou cintos.

Segundo Mayor, os gregos atribuíram a invenção das calças a três rainhas guerreiras. Não se sabe se isso é verdade, mas, segundo ela, "as calças realmente faziam parte da identidade central de guerreiras míticas e reais". Era uma vestimenta extremamente prática para a vida a cavalo em ambientes hostis. "As calças eram absolutamente necessárias para evitar assaduras ao cavalgar."

Nas representações artísticas antigas, as amazonas aparecem usando túnicas e calças ou leggings de lã ou cânhamo. Elas não só estavam à frente de seu tempo em termos de moda, como também se adornavam com tatuagens. "Corpos mumificados naturalmente de homens e mulheres, enterrados no permafrost e datados da época de Heródoto (século 5º a.C.), foram recuperados de túmulos citas. Sua pele é decorada com animais reais e fantásticos, incluindo cervos, cavalos, tigres e aves de rapina", afirma Mayor.

Para os gregos, isso era outro sinal de que as amazonas eram "incivilizadas", já que as tatuagens eram vistas como uma marca de criminosos ou escravos.

Drogas ao redor da fogueira

Heródoto descreveu o uso de uma droga pelos citas. "Eles se sentam em círculo ao redor de uma fogueira e jogam uma planta inebriante sobre as brasas. Enquanto ela queima, as pessoas inalam a fumaça e ficam inebriadas, assim como os gregos ficam embriagados com o vinho. Continuam jogando material no fogo, ficando cada vez mais inebriados, e dançam e cantam, gritando em volta da fogueira."

Segundo Mayor, essa planta era provavelmente cannabis. "Arqueólogos encontraram recipientes para queima de cânhamo - pequenos braseiros, alguns de ouro, contendo sementes queimadas - tanto em túmulos de mulheres quanto de homens."

Amazonas da atualidade

Mulheres fortes e independentes sempre existiram. Para Mayor, elas personificam o "espírito das amazonas". "Às vezes permanecem ocultas, outras vezes emergem das sombras da opressão para a consciência pública", afirma a historiadora.

Na cultura popular, guerreiras foram retratadas em filmes como Jogos Vorazes e séries como Game of Thrones. Na vida real, elas lutam como militares, diz Mayor - inclusive na Ucrânia, "a terra de origem das míticas amazonas".

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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