Novo livro de Bernardo Carvalho aponta para a impossibilidade de convívio civilizado; leia trecho
Autor de 'Nove Noites' e 'O Sol se Põe em São Paulo' exercita 'literatura fantasmagórica' em 'Xilocosmos', romance que é um emaranhado de desaparecimentos e incompreensões
No romance "Xilocosmos", Bernardo Carvalho explora a impossibilidade de um convívio civilizado por meio de uma trama marcada por desaparecimentos, desencontros e memórias distorcidas. A partir do contato e do súbito sumiço de uma ex-colega de escola, um narrador propenso a mal-entendidos revisita fatos do passado colegial, revelando tensões raciais, crimes reprimidos e relações familiares degradadas, compondo uma narrativa densa que reflete sobre perdas sem recorrer a resoluções fáceis.
É divertido pensar que o "escritor com algum prestígio de crítica e pouco sucesso de público, um homem do passado" que aparece a certa altura do romance Xilocosmos, seja o próprio Bernardo Carvalho, autor da obra. Ele está em uma deprimente festa com brasileiros (quase toda festa com brasileiros é deprimente) no bairro de Kreuzberg, em Berlim, e conta uma bela história acerca de um encontro em Lisboa que se espraia em encontros (e desencontros) ulteriores. Embora, a princípio, pareça alheia ao restante do livro, a passagem sublinha a ideia do "outro lado", de uma vida outra que, embora perfeitamente possível, não se realizou.
Xilocosmos é repleto de "outros lados" e trajetórias interrompidas ou desviadas. Nele, como em outros romances do autor, há pessoas que desaparecem e pessoas que saem no encalço dos desaparecidos. Alguns desses desaparecimentos acabam por se revelar chistes e trotes doentios, ao passo que outros encerram crimes e tragédias variados. Aqui e ali, as pessoas estão sempre sumindo umas das outras. Carvalho exercita uma literatura fantasmagórica.
E há fantasmas para todos os gostos, desde personagens envolvidos diretamente na coisa — como o narrador que tragicomicamente insiste em entender tudo errado — até figuras célebres, como o ilustrador e escritor austríaco Alfred Kubin e o artista brasileiro Oswaldo Goeldi. Estes, aliás, levam uma ex-colega de escola a iniciar uma troca de e-mails com o narrador após cinco décadas sem contato algum. Goeldi teria sido inquilino do avô de Ana Maria e deixado, entre seus pertences, uma carta que recebera de Kubin.
A carta é agressivamente interrogativa, e as perguntas lançadas por Kubin, provocadas por uma escabrosa história familiar compartilhada por Goeldi, e também o único romance escrito pelo austríaco, O Outro Lado, inspiram Ana Maria a compor uma ópera. O narrador entende que a ex-colega quer que ele escreva o libreto. Não há tempo para que isso se confirme, mas o desaparecimento de Ana Maria (a troca de e-mails subitamente interrompida) faz com que ele se detenha em acontecimentos da época do colégio que, descobre aos poucos, não são o que lhe pareciam.
Havia, então, Dulce, a única negra da sala e amiga de Ana Maria. Só que, a certa altura, Dulce também desapareceu. Houve boatos sobre um roubo que teria levado à expulsão. Mas um dos professores começa a chamar Ana Maria de "parda". E, pouco depois, Ana Maria vai embora para a Alemanha. Logo fica claro que a própria relação entre Ana Maria e Dulce (pretérita e, de certo modo, presente) era mal compreendida pelo narrador.
Nesse emaranhado de desaparecimentos e incompreensões, Carvalho também inclui um filho adotivo (negro) de Ana Maria, roubos efetivos e variados (alguns entre aspas), a lembrança reprimida de um crime horroroso e algumas situações canhestras que apontam para a impossibilidade de convívio civilizado. Aqui, os acertos de contas são interrompidos e nada jamais adquire qualquer verniz de tranquilidade. Há, quando muito, bate-bocas repletos de boçalidades e irreconhecimentos (fingidos ou não, forçados ou não). Filhos estranham pais e mães, mães estranham filhos e amigos estranham amigos ao ponto de o Alzheimer de uma personagem soar como uma benção.
E assim despertamos "com o nascer do sol", enregelados "no fundo de uma ravina". Poucas respostas são alcançadas, e a carga interrogativa de Xilocosmos é diretamente proporcional à sua qualidade literária: caso apresentasse um desfecho previsível e "esclarecedor", teríamos um escritor com menos prestígio de crítica e muito sucesso de público, um homem do presente — mas de um presente hediondo e imbecilizante. Por sorte, Carvalho evita facilidades e enganos.
Leia o trecho inicial de 'Xilocosmos', de Bernardo Carvalho
Quando nos mudamos, em outubro de 1970, para o apartamento onde minha mãe ainda vive, embora já não saiba onde está nem desde quando, ela aproveitou para me matricular num colégio mais perto de casa, ao qual eu pudesse ir a pé já no ano seguinte, sem ter de passar a vida sacolejando num ônibus entre Ipanema e o Jardim Botânico.
Fui assaltado três vezes no mesmo mês, no percurso a pé entre o novo apartamento e o novo colégio: a primeira na Henrique Dumont; a segunda, ao tomar um caminho alternativo, na Aníbal de Mendonça; e a terceira na Visconde de Pirajá, quase na porta de casa. Na primeira, me deram uma chave de braço e roubaram o relógio suíço que eu tinha ganhado do tio diplomata no meu aniversário de doze anos. Na segunda, sob chuva torrencial, levaram o impermeável vermelho que eu amava, me deixando paralisado, a chuva lavando as lágrimas. A terceira na verdade não foi um assalto; foi uma ordem ou um pedido que eu, traumatizado, ouvi como ordem. Tirei a sandália de tiras de couro e sola de pneu (um hit na época), entre os pedestres que avançavam pela calçada, a cinquenta metros do porteiro que, sem entender nada, me observou entregá-la a um garoto da minha idade e atravessar a rua descalço, entre os carros parados no sinal, completando com a humilhação o último trecho do caminho de volta para casa. Humilhação que me fez mentir — e chafurdar ainda mais na vergonha — quando passei por ele e perguntei indignado — como se lhe cobrasse uma reação da qual eu não fora capaz, ao mesmo tempo que me justificava — se não tinha visto o canivete na mão do menino.
Como nunca mais fui assaltado, acabei tomando aquele mês de março de 1971 como um batismo de fogo. Nesta história tudo é roubo: o acesso à verdade, as transformações e as emancipações, mas também as circunstâncias que as precedem e que a ideia de roubo recria numa espiral sem origem nem fim. A mudança de casa e de colégio coincidiu com a entrada na adolescência e a confusão de desejos que eu ansiava como uma forma de emancipação, justamente, um primeiro passo na direção da minha autonomia e da minha liberdade, de modo que, aos doze anos, passei a ver nos assaltos, não um problema social ou de segurança, mas uma compensação fatalista, existencial ou cósmica, o preço a pagar pelo arranque rumo à vida adulta.
Sempre que podia, eu visitava uma loja de artigos psicodélicos na Visconde de Pirajá, onde há hoje uma joalheria famosa. Já era uma ideia consumista de psicodelismo. Vendiam desde discos de rock até artigos indianos, passando por pufes, descansos de copo e jogos americanos de plástico transparente injetados de anilina colorida, além das indefectíveis lava lamps. Não havia nem sombra de nada relacionado a drogas além da estética hippie com referências a viagens lisérgicas, que me bastavam àquela altura. Lembro de ter comprado lá a edição importada, com três LPs, da gravação ao vivo do Festival de Woodstock, ao qual meu primo, filho do tio diplomata do relógio roubado, dizia ter assistido com a namorada americana quando passou uns meses com o pai em Nova York, embora sua passagem por lá não coincidisse com as datas do festival. Também foi na loja psicodélica que comprei os cartazes coloridos, com motivos alusivos ao mundo do surfe, com os quais decorei meu quarto no novo apartamento.
Até então nunca tinha pensado em decorar nada, mas agora era um homenzinho e precisava marcar meu território, dizer a que vinha, ou assim eu havia entendido das conversas com meus novos colegas de classe. Me desvencilhei da coleção de carrinhos em miniatura que me prendia à infância e investi na identidade do surfista que eu não era nem nunca seria mas que por um momento de obstinação juvenil acreditei poder compartilhar com o mundo a minha volta. Os cartazes exibiam platitudes em inglês, do tipo "peace and love", coroando com letras bolhudas paisagens alucinógenas onde homens barbados de cabelo comprido e bermuda e mulheres de biquíni conviviam com ondas, pranchas, flores, gaivotas, caramujos, espirais lisérgicas e silhuetas black power inspiradas em Jimi Hendrix e Angela Davis, mas sem nenhuma conotação política. Descobri bem mais tarde que alguns daqueles cartazes eram derivações deslocadas da obra de Milton Glaser, um célebre designer gráfico americano. Nunca tinha visto nada mais bonito. Passei parafina no cabelo e procurei esquecer a infância. (...)
Xilocosmos
- Autor: Bernardo Carvalho
- Editora: Companhia das Letras (136 págs.; R$ 74,90)
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