Musical de 'Feliz Ano Velho' conta jornada de Marcelo Rubens Paiva por meio de hits dos anos 1980
Espetáculo que estreia em São Paulo, mostra como o jovem contornou o trauma do acidente que o deixou tetraplégico e se firmou como escritor de sucesso
Inspirado na obra autobiográfica de Marcelo Rubens Paiva, o espetáculo "Feliz Ano Velho - O Musical" estreia no Teatro Sabesp Frei Caneca, em São Paulo. Com direção de Gustavo Barchilon e texto de Marilia Toledo, a peça aborda a superação do autor após o acidente que o deixou tetraplégico, embalada por clássicos do rock brasileiro dos anos 1980. O elenco conta com Bruno Garcia, Hugo Bonèmer e Heloísa Périssé, retratando memórias que conectam a trajetória pessoal de Paiva à história do país.
Na primeira cena de Feliz Ano Velho - O Musical, que estreia neste sábado, 19, no Teatro Sabesp Frei Caneca, o escritor Marcelo Rubens Paiva (interpretado por Bruno Garcia), por volta dos 60 anos, aparece em um programa de televisão. O apresentador (papel de Luciano Mallmann) pergunta: "Qual dia teria mudado a sua vida?" O convidado não titubeia: "Foi quando entrei em contato com o editor Caio Graco, da Brasiliense, e me tornei autor do livro Feliz Ano Velho."
O entrevistado poderia ter mencionado dois outros momentos: o dia em que seu pai, o ex-deputado Rubens Paiva (também feito por Garcia), foi levado de casa pelos militares em 1971 ou o mergulho em uma lagoa que o deixou tetraplégico aos 20 anos, em 1979. A publicação do romance autobiográfico Feliz Ano Velho (1982), porém, marcou uma geração e revelou um escritor capaz de criar ficções, como a distopia de Blecaute (1986), e recontar questões pessoais conectadas a temas políticos e comportamentais, caso de Ainda Estou Aqui (2015) e o recente O Novo Agora (2025).
Esta é uma das escolhas dramatúrgicas e de encenação que definem Feliz Ano Velho - O Musical, espetáculo dirigido por Gustavo Barchilon e escrito por Marilia Toledo inspirado na peça original de Alcides Nogueira baseada na obra de Paiva. "O musical é sobre a jornada do Marcelo e tudo o que ele se transformou depois do acidente, o escritor, o cara que escreveu Ainda Estou Aqui, que, levado ao cinema, deu o Oscar ao Brasil", diz Marilia, de 48 anos. "Conheci o Marcelo nos anos 1990 e sempre me impressionou a independência dele, o humor ácido, rebelde e o fato de jamais ser vítima ou reclamão."
O mergulho aconteceu em dezembro de 1979. A reconstrução de Paiva se deu ao longo da década de 1980 e, por isso, a trilha sonora, selecionada por Marilia e sob a direção musical de Carlos Bauzys, revive sucessos do rock nacional do período. Tempo Perdido e Será, da Legião Urbana, Tempos Modernos, de Lulu Santos, O Tempo não Para, de Cazuza, Sexo, do Ultraje a Rigor, e Vida, Louca Vida, de Lobão, são exemplos. "Assim como a história que contamos, são canções atemporais que os jovens de hoje ainda ouvem o tempo todo", justifica Barchilon.
Em 2023, antes do estouro do filme Ainda Estou Aqui, Barchilon assistiu em Londres ao espetáculo The Little Big Things, sobre um tetraplégico que se reinventa como artista plástico. Impactado, ele comentou com a sua mãe, Solange Fiszman, o desejo de levantar a produção no Brasil. "Meu filho, esta é a história de Feliz Ano Velho, você precisa ler", avisou ela. "Foi um dos livros da minha juventude."
Barchilon, de 34 anos, correu atrás de um exemplar, descobriu a peça de Nogueira e decidiu que a obra precisava virar um musical. "É o teatro musical em que acredito, que não é almanaque nem show", define. Chamou Marilia Toledo para o projeto, e os dois foram encontrando pontos fundamentais entre o texto de Nogueira e a trajetória de Paiva a partir da década de 1980. "Não tem como ignorar a continuação da biografia do Marcelo", afirma Marilia. O diretor concorda e acrescenta: "A peça é o Marcelo maduro se enxergando através do passado em cenas fragmentadas em que o tempo é sobreposto."
Além de Garcia, o time protagonista conta com a atriz Heloísa Périssé, intérprete de Eunice Paiva, a mãe do personagem principal, e Hugo Bonèmer, responsável por entregar ao público o jovem Marcelo, antes e depois do acidente. Abrahão Costa, Ingrid Gaigher, João Côrtes, Mateus Ribeiro, Matilla, Renan Mattos, Sabrina Korgut e Tuna Dwek são outros destaques da peça, que chega em janeiro ao Teatro Riachuelo, no Rio.
Com a divulgação do elenco, começou uma polêmica nas redes sociais sobre as escalações de Bonèmer e Garcia para um personagem com deficiência. Quanto a Bonèmer, a justificativa é mais natural já que o ator protagoniza cenas que lhe exigem a mobilidade física.
Em relação a Garcia, a explicação, segundo Marilia e Barchilon, está contida no livro e, por isso, é importante o mesmo ator que faz o ex-deputado Rubens Paiva aparecer como o filho na maturidade. "No livro, Marcelo fala 'Rubens Paiva vive em muitas pessoas, Rubens Paiva vive em mim' e sugeri para a direção que seria poética essa projeção no palco", argumenta Marilia.
Bonèmer, de 39 anos, lembra que viveu o piloto Ayrton Senna (1960-1994) no teatro e, desta vez, se preocupou menos com a expectativa, principalmente depois de receber o aval de Paiva, que assistiu a um ensaio na semana passada. Ele conheceu o escritor há 15 anos, quando, a convite de um amigo comum, o ator Marcelo Serrado, participou de uma leitura de um roteiro baseado na peça No Retrovisor, de Paiva, na casa do próprio autor. "O contato me deixou mais à vontade para criar um personagem, tanto que não procuro qualquer aproximação física ou vocal", diz. "É muito sobre como um jovem reage a uma situação humana e concreta que pode atingir qualquer um de nós."
Em relação às críticas, Bonèmer revela que aparece andando na maioria das cenas e diz que Feliz Ano Velho - O Musical é um espetáculo que pode reunir qualquer tipo de elenco. "Tenho a consciência de que para o trabalho que fui contratado eu não ocupo o lugar de um artista deficiente", observa. Como exemplo, ele cita o colega Luciano Mallmann, que interpreta três personagens, um médico, um apresentador de TV e um militar, nenhum definido na sinopse como PCD.
Mallmann, de 54 anos, é cadeirante desde 2004. Ele sofreu uma lesão medular, que lhe tirou o movimento das pernas e parte da força dos braços, depois de cair de uma altura de 4 metros em um exercício de acrobacia em tecido. Em 2017, o ator estreou o monólogo Ícaro, sobre sua vivência, e retomou a carreira. Participou dos filmes Bio e Divino Amor (2019), além de Sem Fôlego (2021), da novela Elas por Elas (2023) e da série Justiça 2 (2025), na Rede Globo. "Meu sonho é ser escalado para personagens que o texto não especifique a deficiência", declara. "Em Feliz Ano Velho, faço três papéis, inclusive o do médico do Marcelo, que poderia ser de qualquer ator."
Feliz Ano Velho - O Musical
- Onde: Teatro Sabesp Frei Caneca. Shopping Frei Caneca - 7º andar
- Quando: De 19/9 a 22/11. Sexta, 20h; sábado, 17h e 20h; domingo, 15h e 18h
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