Trilha sonora de 'Kick-Ass' dá mais energia ao filme
Criar trilha sonora é uma arte. Afinal de contas, quando você monta uma, é preciso saber que ela pode e deve funcionar perfeitamente dentro e fora do filme. Com e sem contexto, as músicas precisam funcionar como uma unidade e, quem sabe, com muito talento, elas vão ecoar aquelas imagens do filme toda vez que o play for ligado. A paisagem sonora de Kick-Ass consegue reunir todos esses atributos e, por isso mesmo, resolvemos fazer um faixa-a-faixa das músicas que estão na trilha dessa nova adaptação dos quadrinhos. Confira abaixo.
» 'Kick-Ass' traz de volta a pancadaria com senso de humor
Stand Up, do Prodigy - A música vai subindo, subindo e finalmente dá o seu "Alô Mundo" com o bom e velho "refrão" de um conjunto de sopros que, acreditem, não é todo mundo que sabe usar. Mas o Prodigy está aí há tempos e eles não iam errar justamente na hora de criar a melodia de abertura do filme. Aliás, não é nem preciso assistir a Kick-Ass para saber que essa faixa funciona perfeitamente com créditos iniciais. Feche os olhos e dá pra visualizar o nome dos atores e diretor com esse instrumental que você vai querer assobiar pela rua.
We Are Young, Mika VS. RedOne - A última vez que ouvimos uma banda gritar com todo o pulmão "Nós somos jovens, somos livres" aconteceu quando o Supergrass estourou nas rádios do mundo inteiro com Alright. Eram meados dos anos 1990 e o mundo precisava escutar garotos esquisitinhos passando na nossa cara que ser jovem é a coisa mais legal do mundo. Mais de uma década se passou e agora Mika solta seu agudo à Freddie Mercury para provar que o mundo ainda precisa de garotos fora do padrão passando na nossa cara que ser jovem continua sendo a coisa mais legal do mundo. Problema de quem envelhece.
Can't Go Back, do Primal Scream - O nome da banda já diz mais da metade do que é preciso contar. Rock com refrão fácil de grudar na cabeça e uma mensagem mais positiva impossível: "não posso voltar atrás para o lugar onde estava". Ou seja, além de ser uma ótima trilha para um certo slogan de uma certa marca de uísque, essa é uma musiquinha com o ritmo perfeito para você degustar no Rock Band/Guitar Hero.
There's a Pot Brewin', do The Little Ones - Essa é a melhor surpresa do disco. The Little Ones podia ser mais uma banda indie a procura de um lugar ao sol, posando de rapazes fofos e sensíveis. Mas há algo bem além de uma imagem pré-programada aqui. Sim, eles usam tamborins, palmas e todo tipo de instrumento lúdico que poderia soar experimental acima do tom. Mas não, eles sabem fazer boa música e o sambinha que introduz There's a Pot Brewin' como prelúdio à guitarrinha dedilhada é uma brisa perfumada de primavera beijando o rosto.
Omen, do Prodigy - Dobre o joelho e se prepare para pular alto. Omen é o Prodigy nos bons tempos de Smack My Bitch Up e, para quem achava que o som ia ficar datado em alguma boate dos anos 90, esqueça. A nova faixa da banda que sabe fazer bem feito desde 1995 tem não apenas a ira necessária para servir de trilha ao personagem "possuído" de Kick-Ass, como a energia extra para fazer vibrar o chão de pistas de dança lotadas de pessoas que, mesmo sem se conhecer, se amam profundamente naqueles poucos minutos de catarse.
Make Me Wanna Die, do The Pretty Reckless - Taylor Momsen é mais conhecida como a mimada Jenny da série Gossip Girl. Mas eis que em seu tempo livre a moça canta na banda The Pretty Reckless, onde ela levanta e abaixa a voz de um jeito que você jura estar ouvindo Pink. Na verdade, chega a ser uma surpresa saber que não é Pink quem canta essa faixa. Semelhanças à parte, Make Me Wanna Die não exatamente contribui para o bom nível do disco. Lembra até que, um dia, com um refrão e título de música quase idêntico, o brilhante músico inglês Tricky lançou uma de suas melhores músicas. E essa lembrança só faz Momsen ficar ainda menos interessante.
Banana Splits, do The Dickies - De volta às boas vibrações de adolescentes que amadurecem com senso de humor (ou seria de um senso de humor que se amadurece adolescente?). No filme, essa música dá o tom para um dos momentos mais divertidos da história e isso só acontece porque The Dickies, banda que nasceu no interlúdio entre a psicodelia hippie dos anos 70 e as pistas de dança dos anos 80, sabe captar com essa música aquele espírito apocalíptico de quarto de adolescente. Não é todo mundo que tem repertório de vida para transmitir isso. E, claro, uma música que tem como refrão "La, La, La, La, La, La, La" merece todo respeito.
Starry Eyes, de Ellie Goulding - Se por um acaso, ou por infortúnio, você ainda não ouviu falar de Ellie Goulding, melhor dar um Ctrl C Ctrl V agora no nome da moça. A inglesa de vozinha baixinha e violãozinho em mãos (fica meio que impossível evitar diminutivos) é uva nobre nos vinhedos sempre bem abastecidos da música pop britânica. Assim como o título dessa música, a moça tem brilho nos olhos, na voz e sabe trabalhar com bons produtores que conseguem remixar músicas românticas sem extrair delas o romantismo (ou seja, eles não fazem café descafeinado). Starry Eyes é trilha perfeita para primeiros encontros recheados de, como diria o título daquele outro filme, "grandes esperanças".
This Town Ain't Big Enough for Both of Us, de Sparks - Se comparações pudessem ser retroativas, os Sparks seriam os velhos MGMT. Ou melhor, os originais MGMT. Criada pelos irmãos Ron e Russell Mael, essa foi uma banda que deu força ao poder das letras e das referências hipertextuais da música. No universo indie de ser, This Town Ain't Big Enough for Both of Us é um clássico e cabe como uma luva no contexto do filme. Afinal de contas, no embate entre qualquer super-herói e seu arqui-inimigo, não é tão difícil escutar a frase: "Essa cidade não é grande o suficiente para nós dois".
We're All in Love, do New York Dolls - Outra banda da fornada dos anos 70. O glam rock do New York Dolls foi ressuscitado oficialmente em 2006, quando o grupo voltou à ativa trazendo como primeira faixa de seu novo disco justamente esta música, uma música apaixonada que traz aquele espírito adolescente, ainda que deslocado do contexto desses já bem maduros músicos. Não é todo dia que você escuta cinqüentões cantarem "eles vão para o trabalho e nós vamos curtir". Eles merecem seu crédito, ainda que We're All in Love não seja exatamente o ponto alto da carreira da banda.
Bongo Song, do Zongamin - Mais uma faixa instrumental do disco, desta vez apostando em diferentes instrumentos de percussão e um baixo bem tocado, tudo muito bem sincronizado. Lembra bastante uma outra faixa do começo dos anos 90, Bam Bam, do Luscious Jackson.
Per Qualche Dollaro In Piu, de Enio Morricone - No cinema, Morricone virou meio que sinônimo de Quentin Tarantino e todo aquele cineasta que brinca com as referências ao Velho Oeste em seus filmes. Portanto, quando Morricone entra em cena em Kick-Ass, o mínimo que você pode esperar é uma sequência dramática de câmera lenta em que a Justiça irá predominar entre cabeças decepadas e balas disparadas. Tudo que se pode dizer é que não é a música que faz jus ao filme, é o filme que faz jus à música.
Bad Reputation, do The Hit Girls - Quando Joan Jett lançou essa música em 1981, as garotas não precisavam mais queimar sutiãs nas ruas. O que elas precisavam era mesmo aquela atitude "rrriot" de que se "as meninas boas vão pro céu, as meninas más vão para qualquer lugar". Portanto, com o refrão "não tou nem aí para minha má reputação", as meninas do The Hit Girls não fazem mais do que a obrigação em cantar com raiva e aquela atitude rock'n'roll.
An American Trilogy, de Elvis Presley - O que falar de Elvis? O cara desmanchou corações no mundo inteiro com sua voz suavemente grave e aveludada fecha essa trilha sonora com um pout-pourri de três canções naquilo que, numa ilha de edição de imagens, se chama de grande "sobe som", momento em que toda e qualquer imagem ganha um significado épico diante daquela música orquestrada. Com Dixieland, Summertime e fechando com Glory, Glory, Hallelujah, Elvis dá uma dimensão de gran finale para este disco e, claro, para o filme.