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Quais são os LPs mais valiosos à venda em SP? Visitamos seis lojas tradicionais para descobrir

Gilberto Gil, Cream, Tim Maia, Syncro Jazz, Massive Atack e mais: seleção de raridades tem preços e gêneros diversos; veja lista de discos garimpados em São Paulo

28 mar 2026 - 13h47
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O que faz um disco de vinil raro e caro? A precificação envolve uma série de fatores, incluindo estado de conservação, demanda entre colecionadores e valor cultural.

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As cifras podem aumentar consideravelmente se o álbum teve poucas cópias prensadas, se foi uma edição promocional, se está autografado ou se atrela uma história muito especial em torno dele.

Walter Thiago com o disco de vinil da banda The Stooges em sua loja de LPs London Calling na Galeria do Rock
Walter Thiago com o disco de vinil da banda The Stooges em sua loja de LPs London Calling na Galeria do Rock
Foto: Daniel Teixeira/Estadão / Estadão

Por exemplo: a primeira edição do chamado Álbum Branco (1968), dos Beatles, que pertenceu ao baterista Ringo Starr, foi vendida por US$ 790 mil. Já o projeto Once Upon a Time in Shaolin (2015), do grupo de hip-hop Wu-Tang Clan, tornou-se o disco mais valioso do mundo, sendo comercializado a US$ 4 milhões, por possuir apenas uma cópia física.

No Brasil, um exemplar historicamente almejado é Paêbirú (1975), de Zé Ramalho e Lula Côrtes, que teve quase toda sua tiragem original de 1,3 mil cópias destruída por uma enchente do Rio Capibaribe, no Recife. Louco Por Você (1961), estreia de Roberto Carlos - flertando com a bossa nova - é outro que costuma atingir cifras altas.

Movido por esse interesse, o Estadão procurou em seis lojas tradicionais de São Paulo alguns dos LPs mais valiosos à venda no mercado. Aqui estão eles:

'Rio Oir' (R$ 6,5 mil) e 'Trajeto' (R$ 3 mil)

  • Onde comprar: Patuá Discos (R. Fidalga, 516 - Vila Madalena)
Paulo Sakae Tahira, proprietário da loja de discos Patuá Discos, com os álbuns 'Trajeto' de Vitor Assis Brasil e 'Rio Oir' de Cildo Meireles
Paulo Sakae Tahira, proprietário da loja de discos Patuá Discos, com os álbuns 'Trajeto' de Vitor Assis Brasil e 'Rio Oir' de Cildo Meireles
Foto: Daniel Teixeira/Estadão / Estadão

Em uma agradável casinha de tijolos na Vila Madalena está a Patuá Discos, sob comando de Paulo Sakae Tahira, DJ há 34 anos e também colecionador. A loja, fundada em 2014, tem em sua refinada curadoria a sustentação para exibir um acervo versátil.

Rio Oir (2011), do escultor Cildo Meireles, à venda por R$ 6,5 mil, é a maior raridade disponível. O LP capta sons das principais bacias hidrográficas brasileiras e chama a atenção para questões ecológicas. Com visual hipnótico e geométrico, os sulcos e as linhas coloridas do 'bolachão' formam um padrão gráfico que remete às ondas.

"Esta é uma verdadeira obra de arte, realmente difícil de encontrar, feita com amparo do Instituto Itaú Cultural. É um produto que também atinge o mercado de arte. O Cildo tem um apelo mundial, pessoas do mundo inteiro gostariam de ter", conta Tahira.

Ali também é possível achar Trajeto (1968), disco referencial do samba-jazz, do aclamado saxofonista Victor Assis Brasil, avaliado em R$ 3 mil. A peça traz composições de Thelonious Monk, Cole Porter e Gershwin, interpretadas por um conjunto talentoso que incluía Paulo Moura, Oberdan Magalhães e Claudio Roditi, entre outros.

O proprietário mostrou, ainda, outra relíquia: Quarto de Despejo: Carolina Maria de Jesus Cantando Suas Composições, único álbum gravado pela célebre escritora, à venda por R$ 2 mil.

'The Stooges' (R$ 1,1 mil) e 'Disraeli Gears' (R$ 800)

  • Onde comprar: London Calling, na Galeria do Rock (Av. São João, 439 - República)
London Calling, loja na Galeria do Rock, celebra 40 anos em 2026
London Calling, loja na Galeria do Rock, celebra 40 anos em 2026
Foto: Daniel Teixeira/Estadão / Estadão

Situada no segundo piso da Galeria do Rock, com uma janela que dá vista para a Avenida São João e a Igreja Nossa Senhora do Rosário, a London Calling celebra 40 anos levando a "música para as massas", uma intenção que o dono Walter Thiago sempre procurou ter como norte.

"Muita gente acha que aqui só vendemos punk, por causa do nosso nome ser inspirado num disco do The Clash. Mas a verdade é que temos todo tipo de música: reggae, hip-hop, soul, ska. Não tenho preconceito", diz Walter. "Além disso, temos a tradição de promover pocket shows e sessões de autógrafos, sempre de forma gratuita".

O vinil domina o espaço, mas há também presença de CDs, DVDs e livros. Nas paredes, fotos de celebridades do mundo da música despertam a curiosidade do público. O recinto já foi visitado por muitos artistas internacionais, dentre os quais músicos de bandas como Ramones, Kiss, Sex Pistols e, mais recentemente, o rapper Machine Gun Kelly.

Dois LPs essenciais do rock n' roll encabeçam a lista dos mais caros. O primeiro deles é a edição original americana de The Stooges (1966), marco-zero do punk concebido pela banda que apresentou Iggy Pop ao mundo e eternizou temas como No Fun e I Wanna Be Your Dog. O disco custa R$ 1,1 mil.

"Em sites internacionais, podem vendê-lo por até R$ 3 mil. Mas para os nossos padrões, o pessoal não consegue pagar isso. Então, está com um bom preço", reconhece Walter.

O igualmente revolucionário Disraeli Gears (1967), do Cream, supergrupo abrilhantado por Eric Clapton, Ginger Baker e Jack Bruce, é comercializado a R$ 800.

"Não é qualquer Disraeli Gears, porque, no caso deste, foram fabricadas 100 cópias no Brasil, feitas só para execução nas rádios; não era para vender. Era um disco promocional para testar o álbum. É um item genuíno de colecionadores", explica o vendedor.

'Yoyi' (R$ 2,8 mil) e 'Trindade' (R$ 2,6 mil)

  • Onde comprar: Vinil Records (R. Cesário Alvim, 623 - Belenzinho)
Gabriela e Lucas, da equipe da Vinil Records, com discos 'Trindade' e 'Let Me Sing' de Raul Seixas
Gabriela e Lucas, da equipe da Vinil Records, com discos 'Trindade' e 'Let Me Sing' de Raul Seixas
Foto: Gabriel Zorzetto/Estadão / Estadão

Nos fundos de um edifício industrial na região da Mocca, a Vinil Records abriga seu acervo de mais de 100 mil discos de maneira meticulosa. O espaço é conjugado com a empresa de tecidos Kite, cujo sócio é o mesmo: Tarciso Konstantyner, um homem que, após ganhar uma vitrola de presente de sua mulher, virou ávido colecionador e empreendedor do mercado de LPs.

O foco da Vinil Records, cujo rol de clientes inclui a Globo e o hotel Rosewood, está no website, responsável por apresentar o enorme catálogo. A visita à loja física é possível apenas mediante agendamento prévio. O atendimento primoroso, desde as redes sociais até o momento da venda, também é um dos pilares do negócio. Outro triunfo do local é a restauração de capas deterioradas.

"O disco de vinil virou um investimento, é um ativo que se valoriza ao longo do tempo", afirma Konstantyner. "Muitos colecionadores, inclusive, não possuem vitrola".

Raridade inigualável do acervo de Tarciso, Let Me Sing My Rock 'n' Roll (1985), de Raul Seixas, lançado pelo fã-clube oficial (Raul Rock Club) do Maluco Beleza, avaliado em R$ 5 mil, não está à venda. A peça teve apenas mil cópias produzidas e reúne gravações antigas do roqueiro baiano.

No entanto, entre as preciosidades disponíveis para compra aparece a joia cubana Yoyi (1977), lapidada no auge da psicodelia pelo grupo Los Yoyi, por R$ 2,8 mil, e o LP duplo Trindade (1978, autografado) - que traz lendas da música instrumental brasileira como Wagner Tiso, Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti -, vendido a R$ 2,6 mil.

"Yoyi ficou anos praticamente escondido fora de Cuba e tê-lo aqui é valorizar a música latina. Trindade, por sua vez, é um verdadeiro pedaço de história da nossa cultura", resume o vendedor.

'Singles 90/98' (R$ 2,5 mil) e 'Tim Maia Racional, Vol. 2' (R$ 1,2 mil)

  • Onde comprar: Disconcert Record Shop (R. Vanderlei, 398 - Perdizes)
Eduardo Tavares e Pedro Magalia, na Disconcert Record Shop, em Perdizes
Eduardo Tavares e Pedro Magalia, na Disconcert Record Shop, em Perdizes
Foto: Daniel Teixeira/Estadão / Estadão

Com 36 anos de história, a Disconcert Record Shop, no coração das Perdizes, carrega um charme de sebo e se destaca por fazer atraentes promoções, bem como promover feiras itinerantes pelo interior do Estado.

Seu fundador, Fábio Massari, foi VJ da MTV Brasil. Hoje, porém, a loja é gerida por dois sócios: o veterano Paulo Assad e o jovem Pedro Magalia, que frequenta o local desde criança, tendo comprado ali o seu primeiro CD.

Dentre as pilhas cuidadosamente organizadas, destacam-se dois itens: o box importado Singles 90/98 (1998), do grupo inglês de trip-hop Massive Attack, no valor de R$ 2,5 mil, e Tim Maia Racional, Vol. 2 (1975), de Tim Maia, disponível pela quantia de R$ 1,2 mil.

"A coleção do Massive Attack é única porque reúne 63 faixas distribuídas em 11 discos. São versões inéditas, alternativas, remixadas. É uma edição numerada, no caso desta é a 4.669 de 5 mil que foram feitas", apontam Magalia e o colega DJ Eduardo Tavares, ambos exibindo um enorme pôster incluso no pacote.

Já o álbum de Tim Maia é fruto da fase em que o cantor carioca se envolveu com a Cultura Racional, uma seita mística baseada no livro Universo em Desencanto, de Manuel Jacinto Coelho. Ele abandonou drogas e álcool e gravou três volumes da série Tim Maia Racional de maneira independente. Contudo, após se desiludir com o movimento, Maia tentou apagar os discos da memória popular, desencorajando relançamentos e recolhendo cópias das lojas para destruí-las.

"É um disco muito raro simplesmente porque quem o tem é quem o comprou antes de ele ser recolhido. Embora tenha toda essa história por trás, precisamos avaliá-lo também como um testemunho do talento de Tim Maia, talvez o maior artista brasileiro de todos os tempos", afirma Magalia.

'Diana' (R$ 3,4 mil) e 'Syncro Jazz Live (R$ 1,5 mil)'

  • Onde comprar: Casarão do Vinil (R. dos Trilhos, 1212 - Alto da Mooca)
Manoel Jorge, idealizador do Casarão do Vinil, segura raro LP de Diana
Manoel Jorge, idealizador do Casarão do Vinil, segura raro LP de Diana
Foto: Gabriel Zorzetto/Estadão / Estadão

Maior loja de discos da América Latina, o Casarão do Vinil, na Mocca, dispensa maiores apresentações. Reduto de garimpeiros do som, o espaço de dois andares, ao mesmo tempo caótico e fascinante, foi idealizado pelo engenheiro Manoel Jorge Dias, o 'Manézinho da Implosão', que trabalhou na implosão de pontes e prédios de notória importância no País, incluindo o Carandiru.

A ideia nasceu no começo do século depois de uma experiência malsucedida no comércio de roupas femininas, onde as vestimentas passaram a ser trocadas por discos em um sistema de escambo, prática que acabou dando origem ao projeto.

Após realizar feirões anuais, o Casarão conquistou um ponto físico em 2014 e, atualmente, reúne um acervo com mais de 1 milhão de discos. Além disso, promove campanhas solidárias que incentivam a doação de sangue, alimentos e agasalhos. Ademais, há planos para inauguração de um novo estabelecimento na região da Bela Vista.

Manoel informa que usa o Discogs, website e banco de dados sobre discos, como aliado para fechar negócios. Muitos clientes são gringos, conhecedores da música brasileira, que compram diretamente pela plataforma.

Os estrangeiros se interessam por peças raras como Diana (1976), LP autointitulado da cantora associada à Jovem Guarda, custando R$ 3,4 mil, ou por registros de jazz, como o ao vivo Syncro Jazz Live (1982), na faixa de R$ 1,5 mil, do grupo instrumental brasileiro Syncro Jazz, formado pelos músicos Lilu Aguiar, Peter Wooley e Ronny Machado, entre outros.

"O jazz tem essa mística de ser praticamente a origem de tudo. Muitos roqueiros, inclusive, se interessam por obras desse gênero", explica. "Já a Diana tinha muito swing, um apelo sonoro mundial".

'Tem que Acontecer' (R$ 3 mil) e 'Expresso 2222' (R$ 2.222)

  • Onde comprar: Baratos Afins, na Galeria do Rock (Av. São João, 439 - República)
Luiz Calanca tem na loja Baratos Afins a edição original de 'Expresso 2222' de Gilberto Gil
Luiz Calanca tem na loja Baratos Afins a edição original de 'Expresso 2222' de Gilberto Gil
Foto: Daniel Teixeira/Estadão / Estadão

"Sou um traficante de drogas musicais". É assim que o bem humorado Luiz Calanca se define. À frente da loja mais longeva da Galeria do Rock há 48 anos, a Baratos Afins, o veterano já passou por tudo nesse ramo, desde a ampliação do armazém que inicialmente parecia uma "cabine telefônica" e hoje tem nove salas para abrigar o acervo, passando pela recuperação após incêndios, e no meio disso tudo recebendo a visita de famosos como Marcelo D2, Erasmo Carlos e Chrissie Hynde.

A Baratos expandiu seu ramo de atividades em 1982, quando foi responsável pelo lançamento do álbum Singin' Alone, de Arnaldo Baptista (ex-integrante dos Mutantes), e logo se tornou uma das gravadoras mais importantes da cena indie brasileira, tendo produzido obras de nomes como Rita Lee e Tom Zé.

Para Calanca, o disco valioso é aquele que sempre tem grande procura e rotatividade, como Alucinação (1976), de Belchior, e Clube da Esquina (1972), de Milton Nascimento e Lô Borges. São exemplares que não atingem valores exorbitantes, mas nem por isso são baratos, e "vendem como água".

"Veja só: eu tenho um disco solo do Brian Jones [guitarrista fundador dos Rolling Stones, morto em 1969], Presents the Pipes of Pan at Joujouka (1971), que é considerado raro. É um trabalho meio tribal, gravado na África. Comprei o LP há muitos anos por uns R$ 600, mas está parado até hoje. Não vende, ninguém sabe que existe (risos)", reclama o comerciante.

É por isso que dentre os itens mais caros ali estão dois trabalhos conhecidos da MPB. O vibrante Expresso 2222 (1972), de Gilberto Gil, pode ser adquirido por R$ 2.222 - um valor à altura do título.

"Além de ser musicalmente lindo, tem uma capa maravilhosa que só artistas do nível do Gil poderiam exigir naquela época", conta, destacando o inovador formato pop-up e circular da embalagem, que traz uma foto do pequeno Pedro Gil, filho do cantor baiano.

Com preço superior, de R$ 3 mil, Calanca tira do baú Tem que Acontecer (1976), imersão sambista de Sergio Sampaio, famoso pela canção Eu Quero É Botar meu Bloco na Rua e tido como um dos "malditos da MPB" ao lado de expoentes como Jards Macalé e Walter Franco.

O lojista explica que o trabalho teve uma tiragem reduzida e que muitos exemplares da reedição do LP "desapareceram". Além disso, a versão original apresenta um erro de fabricação: foram colados dois rótulos idênticos, um em cada face do acetato.

"Não dá pra dizer que o Sergio é um 'maldito' e sim um 'bendito', de tão cultuado que ele e seus colegas ainda são. É um tipo de artista cobiçado no mercado", finaliza.

Estadão
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