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O problema do termo 'cultura', segundo J. Cole

Em podcast, rapper afirmou que o termo foi esvaziado pela internet e pelos interesses comerciais — e que isso o magoa

13 abr 2026 - 08h23
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J. Cole usou uma participação recente no podcast Lost In Vegas para falar sobre uma mudança que o incomoda profundamente na linguagem do hip hop: o esvaziamento da palavra "cultura". Para o rapper, o termo que um dia representava algo genuíno sobre identidade e pertencimento foi reduzido a um instrumento de marketing e algoritmo.

J. Cole
J. Cole
Foto: Ethan Miller/Getty Images / Rolling Stone Brasil

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"É uma palavra vazia agora", disse Cole. "Costumava significar algo. Agora é só um termo para criar hype que não quer dizer nada. O que vocês estão chamando de cultura é na verdade comprado e pago por campanhas pagas, ou bots, ou simplesmente o algoritmo".

Na visão dele, a internet transformou a velocidade de circulação cultural num problema: expressões que nascem dentro de comunidades negras são absorvidas e replicadas globalmente em questão de horas, perdendo contexto e origem no caminho. "Por causa da 'cultura', que é na verdade só a economia da internet, uma palavra não sai da boca de mulheres negras por mais de um ou dois dias antes de já ter sido capturada", afirmou.

A entrevista chega semanas após seu sétimo álbum de estúdio, The Fall-Off  (2026), que está prestes a ganhar uma turnê mundial. As apresentações começam em julho com datas na América do Norte e segue pela Europa, Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul, encerrando em dezembro. A pré-venda quebrou recordes: 800 mil ingressos vendidos, a maior pré-venda de uma turnê de hip hop em 18 mercados simultaneamente. O sucesso levou Cole a expandir a agenda de 54 para 73 datas, adicionando 19 shows em arenas.

Antes da grande turnê, Cole tem rodado os Estados Unidos numa iniciativa chamada Trunk Sale Tour, onde ele percorre cidades vendendo CDs do porta-malas de seu antigo Honda Civic.

Sobre The Fall-Off

O conceito é simples, mas devastador: duas viagens que Cole fez para Fayetteville, North Carolina, sua cidade natal. Uma aos 29 anos, recém-saído de Nova York, com a fome ainda afiada. Outra aos 39, casado, pai de dois filhos, carregando a bagagem emocional de uma década inteira no topo. E cada uma delas se transformou em um disco (Disco 29 e Disco 39), que funciona como fotografias de um homem que voltou para casa, mas não é mais a mesma pessoa, e que descobriu da pior forma possível: você não consegue mais viver no lugar que te criou quando a fama te transformou em outra coisa.

O tema central atravessa o álbum inteiro: Cole sempre quis ser famoso, mas hoje quer voltar a sentir o que sentia no começo da carreira. A conexão com Fayetteville — carinhosamente apelidada de "the Ville" — se distanciou no meio do caminho. Não por falta de amor, mas porque o sucesso cria esse espaço. Ele volta, mas as pessoas que ficaram não vivem mais a mesma realidade. Os amigos estão presos, mortos, ou olham pra ele como celebridade em vez de Jermaine. Ele frequenta os mesmos lugares, mas agora precisa calcular cada movimento por medo de violência ou de virar manchete. E nada disso é culpa da cidade. É culpa do que ele se tornou. Essa tensão — querer pertencer, mas não conseguir mais — é o motor que faz The Fall-Off funcionar como narrativa completa. E Cole aceitou, e é isso que torna o álbum maduro.

The Fall-Off é um clássico instantâneo, quase perfeito. Com 2014 Forest Hills Drive (2014) e o conceitual 4 Your Eyez Only (2016), forma a tríade definitiva da carreira de J. Cole. É ambicioso. É denso. Tem muita coisa pra digerir. Mas cada audição revela uma nova camada, um novo detalhe, uma nova conexão entre músicas que pareciam soltas, mas, na verdade, estão amarradas. A saída dele da briga Kendrick-Drake não agradou ninguém — tirando ele mesmo. E isso fez bem. Deixou ele focar no que sempre foi melhor: rap introspectivo, honesto, tecnicamente impecável, que não tenta impressionar a indústria, mas sim fazer as pazes com o homem no espelho. Não acredito que The Fall-Off seja o último álbum de Cole. Mesmo assim, se ele estiver falando a verdade, estamos diante de uma obra que tem tudo para envelhecer bem, que será revisitada, estudada e referenciada. Foram dez anos que valeram a pena.

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
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