Nuno Ramos abraça o risco: na direção de sua primeira ópera, em obra política e livro memorialístico
'Intolleranza 1960' estreia no Theatro Municipal de São Paulo nesta sexta-feira, 29; nesta entrevista, artista plástico fala ainda sobre nova exposição e os livros que estão no prelo
O compositor italiano Luigi Nono (1924-1990) acreditava que a revolução deveria estar em todo lugar. Antifascista e comunista, ele passou décadas desenvolvendo uma teoria e prática revolucionária para a arte. Com 36 anos, compôs sua primeira grande obra, Intolleranza 1960, sobre um trabalhador migrante confrontado pela opressão que é preso e levado a um campo de concentração, tornando-se símbolo das violências e da luta por direitos humanos no século 20.
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"Nono une várias linguagens, desde a operística, que seria o ponto de partida, até a teatral, com projeções", comenta Nuno Ramos que, ao lado de Eduardo Climachauska, artista plástico como ele, assina a direção da montagem que estreia no Theatro Municipal, em São Paulo, no dia 29 de maio.
Criada no pós-guerra, ecoando as marcas do fascismo e da bomba de Hiroshima, a ópera traz técnicas experimentais como imagens projetadas, texto, filme, sons eletrônicos, vozes sampleadas e música amplificadas por alto-falantes colocados ao redor do teatro para assombrar o público. Vozes, gritos e sobreposições sonoras transformam o palco em uma espécie de praça pública, onde arte e política se confundem e se tensionam continuamente.
"A ópera traz uma espécie de antologia das questões contemporâneas como imigração, violência do Estado, tortura, campo de concentração, prisões gigantes, e até desastre ecológico, que deveria ser uma espécie de novidade em 1961", comenta Ramos.
Segundo ele, a referência à bomba atômica que destruiu a cidade japonesa de Hiroshima, em 1945, encontra forte ressonância na obra de Nono e também na montagem paulistana, que vai reproduzir a cúpula metálica do edifício que resistiu à explosão e hoje é o principal marco do Parque Memorial da Paz de Hiroshima. "A ópera adota o ponto de vista do desastre, o que torna o texto pouco condescendente."
Ramos e Climachauska vão representar também as gravuras do pintor espanhol Francisco de Goya da série Os Desastres da Guerra (1810-1815), que mostram o horror da guerra de forma crua e penetrante. "Vamos deslocar para temas como a violência do Estado contra a população civil a partir de 'tableaux vivants' (quadros vivos)", explica Ramos.
A cenografia vai contar ainda com uma representação do gelo, símbolo do desastre ecológico que serve como um alerta, assim como o signo da catástrofe simbolizado pela cúpula que resistiu à bomba atômica. "São deslocamentos motivados pelo inconsciente que se aproximam do horizonte de uma catástrofe, pré ou pós, que está no horizonte hoje, quando os países estão se rearmando", diz Ramos.
Segundo os encenadores, trata-se uma peça do coletivo, mesmo contando com cinco solistas, dos quais três cantam diversas árias. "Há ainda presença de um coral extraordinário com 80 pessoas, que substitui de uma certa forma a sociedade civil, com fortes momentos de participação, além de 16 bailarinos em cena."
O libreto reúne textos e referências de grandes nomes do pensamento e da poesia, compondo uma dramaturgia fragmentada e intensa. "O final é marcado por um belo poema de Bertolt Brecht, mas é preciso lembrar que Nono adotou um ponto de vista catastrófico e, como um alerta, a ópera termina com um rio que transborda e todos morrem."
Depois da ópera, exposição e livro
Além do trabalho operístico no Municipal, Nuno Ramos prepara uma série de atividades artísticas. Em Belo Horizonte, ele vai montar uma exposição inspirada na frase "a culpa não é do povo" que é dita em dois longas de Glauber Rocha: "no filme da esperança, que é Deus e o Diabo na Terra do Sol, e no filme da crise, Terra em Transe".
O artista vai espalhar 18 bonecos de macaquinhos pelo espaço. "Ao serem acionados, vão dizer a frase sob minha regência. Vai ser uma peça de alto risco estético, pois nunca mexi com algo semelhante. É uma obra explicitamente política."
Em 2021, Ramos criou um projeto chamado Chão-Pão, um balé em que as pessoas colocavam pedaços de pão em cima de lajotas e depois dançavam ao som da mesma frase, "a culpa não é do povo". "Agora vou fazer uma réplica do macaco do filme 2001 - Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick. A cena do longa é chocante, porque a inteligência e a morte, na versão do cineasta, são a mesma coisa. O homem conquista a inteligência quando descobre que pode matar o outro", diz.
O artista busca ainda reinventar sua pintura. "Agora ponho a tinta em um vidro, que é quebrado. Os cacos coloridos vão se sobrepondo. Estou no quinto trabalho dessa fase, que me consome muitas horas."
A literatura é também um caminho trilhado por Nuno Ramos que, em novembro, lança pela editora Todavia o livro Minha Voz de Volta, no qual trabalha há 11 anos e que será marcado por uma carga biográfica.
"São duas partes, Minha Voz de Volta e Línguas. Na primeira, converso com três vozes. Uma é a itálica e o texto aparece escrito neste estilo tipográfico. É a voz da minha infância mais remota. A segunda é a voz negrito, com a qual converso com a minha primeira sexualidade, o começo da adolescência. E depois vem uma voz vermelha, que conta com essa tonalidade além da voz de um jabuti, animal que vivia na casa do meu avô e me lembro de vê-lo comendo um tomate, daí o vermelho. É bem memorialístico."
Para a segunda parte, ele vai selecionar episódios narrados na primeira e que serão recontados de modo ficcionalizado. "São pequenas novelas, cinco no total, elaboradas de forma fantasiosa. A técnica revela um pouco do meu funcionamento - mesmo que tenha tentado narrar algo real, que realmente vivi, a narrativa sofre uma mutação", diz ele, ciente da atenção do leitor exigida pela obra. "Vou dar uma gravura para quem ler até o fim", brinca.
Ramos também vai reeditar o livro O Ensaio Geral, mas seu foco está em um projeto mais ambicioso sobre seu trabalho em geral, previsto para sair em março do ano que vem. "Serão sete volumes, cada um dedicado a uma sequência de obras", afirma. "Um será chamado de Às Vezes, sobre réplicas, enquanto A Extinção é para Sempre vai tratar do luto e 111 será sobre a morte. E terá ainda o Animais no Palco, sobre as três vezes em que trabalhei com bichos: Asa Branca, com urubus, Vai-Vai, com burricos, e Perdido, o mais recente e que contava com sete peixinhos de aquário."
SERVIÇO - Intolleranza 1960
Ópera com música e libreto de Luigi Nono, a partir de uma ideia de Angelo Maria Ripellino, com Orquestra Sinfônica Municipal e Coro Lírico Municipal
Local: Theatro Municipal de São Paulo
Datas e horários:
- 29 de maio, sexta-feira, às 20h
- 30 de maio, sábado, às 17h
- 31 de maio, domingo, às 17h
- 02 de junho, terça-feira, às 20h
- 03 de junho, quarta-feira, às 20h
- 05 de junho, sexta-feira, às 20h
- 06 de junho, sábado, às 17h
Elenco:
Dias 29, 31, 3 e 6
- Peter Tantsits - Um Imigrante
- Maria Carla Pino Cury - Sua Companheira
- Caroline De Comi - Soprano Solo
Dias 30, 2 e 5
- Giovanni Tristacci - Um Imigrante
- Gabriela Geluda - Sua Companheira
- Laryssa Alvarazi - Soprano Solo
Todas as datas
- Marly Montoni - Uma Mulher
- Isaque Oliveira - Um Argelino
- Anderson Barbosa - Um Torturado
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