Noah Kahan se tornou um superastro sendo ele mesmo
Ele fez seu nome escrevendo canções belamente abertas sobre tudo, desde seu estado natal até sua saúde mental. Agora, ele tem milhões de fãs e ainda está processando tudo isso
Estou pescando com Noah Kahan, e as coisas parecem bem desanimadoras. Estamos em uma fazenda a uma hora a oeste de Nashville, parados em frente a um lago, lançando nossas respectivas varas e esperando pacientemente. É um dia perfeito para pescar — uma tarde de início de abril, sem muito vento, o céu tão limpo e azul que seu reflexo rebate na água. Mas, até agora, nada morde a isca. Ainda assim, Kahan permanece esperançoso, enquanto uma equipe de filmagem observa. "Se pegarmos uma tilápia", diz o compositor de 29 anos, "vamos viralizar pra caralho".
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Conforme os minutos passam, isso parece cada vez menos provável. Kahan maneja a linha com firmeza, vestindo uma calça Levi's desbotada, uma camisa de flanela de botões e botas de camurça. "Sinto que minha equipe tem me vestido cada vez mais com coisas que parecem de caubói, e eles eventualmente terão que aceitar que não sou nem de longe um caubói", diz ele. Seu cabelo castanho na altura dos ombros combina com sua barba rústica. Se você estava pensando em zombar do visual de Kahan nas redes sociais, pode ter certeza de que ele chegou primeiro. "Jesus Cristo", "Keanu Reeves Deprimido" e "Capaldi Judeu" são apenas alguns dos apelidos que ele se deu ao longo dos anos. (Kahan deu um tempo do Twitter, mas voltou recentemente, o que ele compara ao "retorno de LeBron para Cleveland").
Esse charme autodepreciativo é parte do apelo de Kahan, e uma razão entre muitas para que milhões de ouvintes tenham se apaixonado perdidamente pelo compositor criado em Vermont lá em 2022. Foi quando ele estourou, aparentemente do nada, com "Stick Season", escrita após ele ter voltado para a propriedade de seus pais em Strafford durante a pandemia (hoje ele divide seu tempo entre Vermont e Nashville). A canção folk-pop altamente viciante — que lida com a desilusão amorosa em meio àquele período sombrio, sem vida e intermediário no Nordeste [dos EUA], após a folhagem de outono e antes da primeira nevasca — explodiu no TikTok.
"Stick Season", e o álbum de mesmo nome, renderam a Kahan uma indicação ao Grammy de Artista Revelação e uma participação musical no Saturday Night Live. Logo, ele começou a esgotar arenas, onde os fãs gritavam e soluçavam ao som de suas músicas — melodias enganosamente simples com letras intrincadas que são simultaneamente ultraespecíficas e altamente identificáveis, muitas vezes sobre amor, lutas com a saúde mental e as alegrias e frustrações de crescer em uma cidade pequena.
"É revigorante para mim que alguém como o Noah tenha se tornado um superastro, porque ele é o anti-ídolo", diz o produtor (e cofundador do The National) Aaron Dessner, que trabalhou com Kahan. "Ele não está buscando isso. Ele é muito mais talentoso do que qualquer um possa realmente saber, a menos que você o tenha ouvido cantar de perto. Ele é um dos compositores mais brilhantes que temos hoje, e ele deveria gravar muitos discos."
"Stick Season" ajudou a transformar Kahan em um grande nome e um herói em toda a Nova Inglaterra (além de seu estado natal, Vermont, ele também morou em New Hampshire e, mais tarde, em Massachusetts, e tem até uma colaboração com a L.L. Bean). Mas ele é um tipo diferente de superastro — um ser humano pé no chão e adorável que exala uma energia de "cara comum", e cuja ideia de diversão é passar o tempo com seus dois pastores alemães e fumar maconha. É quase como se seu vizinho gente fina e maconheiro tivesse ficado famoso por acidente, mas ainda te convidasse para comer Taco Bell nas noites de terça-feira (especificamente para consumir o Crunch Wrap Supreme, o favorito de Kahan). Portanto, não é totalmente surpreendente que Kahan tenha descoberto que a fama exigia certo costume, e que o sucesso não resolve tudo. "Cada clichê sobre a música se provou verdadeiro para mim", diz ele. "Tipo: 'Você pode conseguir tudo o que quer, e ainda assim não vai ser o bastante!'"
Assista à entrevista em vídeo abaixo
https://www.youtube.com/watch?v=lA4bUsrad4w
Foi aqui, nos 183 acres que compõem a Fire Tower Farm, que Kahan gravou uma parte de seu novo álbum, The Great Divide, que acaba de estrear em primeiro lugar na parada Billboard 200. O disco — produzido por Dessner, Kahan e o colaborador de Stick Season, Gabe Simon — exibe seu talento para narrativas viscerais, enquanto oferece um lugar na primeira fila para os monólogos internos de Kahan sobre, entre outros tópicos, seus relacionamentos, da infância e de agora, e seus laços eternos com seu estado natal. O tempo que ele passou fazendo o álbum não foi inteiramente tranquilo; foi, de fato, um pouco aterrorizante.
Mas antes de chegarmos a qualquer parte disso, Kahan quer fisgar um peixe. Não ajuda o fato de as duas primeiras varas que usei estarem com defeito, ou que uma ilha de musgo esteja nos bloqueando dos vertebrados (cada vez que recolho a linha com vegetais encharcados, Kahan diz algo reconfortante como: "Você cuida da salada, eu cuido da proteína!" ou "O nome é pescaria, não 'pegaria'!"). Kahan pesca durante a maior parte de sua vida, mas se envolveu mais nisso durante a pandemia, quando seu irmão Richard comprou "um barquinho velho de merda". Bebendo cerveja e pegando peixes com a família e amigos, Kahan conseguia fazer algo que acha cada vez mais difícil hoje em dia: relaxar.
Depois de quase uma hora, admitimos que isso simplesmente não vai acontecer. A equipe para de filmar, preparando-se para mudar para outra área da fazenda. Mas Kahan permanece no lago, determinado a vencer. "Esqueça a entrevista", diz ele. "Eu quero ver você pegar um peixe."
PARA SER UM ESPECIALISTA em "Kahanologia", você deve saber que se pronuncia Kahn, e não Ka-han. "Eu apenas digo que um dos 'A's é mudo", diz Kahan. "Você pode escolher qual." Em segundo lugar, você deve se familiarizar com algumas das imagens em suas canções. Kahan adora escrever sobre varandas ("Porch Light", "American Cars", "We Go Way Back", "All Them Horses"), fantasmas ("Halloween", "Your Needs, My Needs", "The Great Divide") e bebidas (muitas para listar).
Em The Great Divide, insetos rastejam por tudo. Kahan deu pistas sobre o disco em dezembro de 2025, com a conta do TikTok The Last of the Bugs ("O Último dos Insetos"), que é um verso de sua música de 2022, "The View Between Villages". The Last of the Bugs quase se tornou o título do novo álbum, mas Kahan sentiu que era um pouco esotérico demais (ele acabou usando para intitular a edição expandida). Os insetos aparecem como um motivo nas novas canções, particularmente na abertura de ritmo lento, "End of August", e no terno encerramento, "Dan", um desfecho para a jornada de 17 faixas.
Insetos sempre foram um bom presságio para Kahan. Sua mãe, Lauri, costumava chamá-lo de seu "pequeno inseto", e ele continuou encontrando joaninhas pela Fire Tower Farm enquanto gravava The Great Divide, o que reafirmou sua crença de que estava no lugar certo após alguns momentos difíceis no início do processo do álbum. "Insetos representam essas coisas que vão embora, mas retornam", diz ele. "No inverno, eu estava naquela sensação de frio, onde não há nada por perto e nada está vivo. E quando comecei a me sentir mais feliz e criativo novamente, senti que podia ouvir os besouros e os grilos. Eles começaram a voltar para a primavera, então os vejo como uma metáfora para o que estou passando na minha vida." (Enquanto temos esta conversa, uma joaninha aparece no meu ombro.)
Insetos também aparecem em "Downfall", um apelo devastador e cheio de alma para que um ente querido fracasse para que possa retornar para casa. "Diga-me quando sentir falta da escalada de um buraco que não tem fundo" é uma frase que ressoa com Dessner. "Existem essas frases que ele diz que capturam o sofrimento humano de uma forma que é tão identificável e também inteligente, [mas] parece natural", diz ele. "Dá para notar que simplesmente sai dele."
"Eu estava de saco cheio. Essa coisa que deveria ser tão divertida está te deixando ansioso o tempo todo."
Um dos heróis musicais de Kahan, Justin Vernon, do Bon Iver, contribui com backing vocals e banjo na faixa, e toca guitarra elétrica e outros instrumentos em várias outras. Eles se conheceram em um festival de música em Iowa em 2023, mas Vernon enviou suas contribuições remotamente. "Ele é uma figura tão mítica na minha cabeça que é legal tê-lo simplesmente flutuando em minhas canções", diz Kahan. "É como se uma pessoa misteriosa da floresta gravasse a guitarra e eu não visse, mas chegaria por e-mail e eu ficaria tipo: 'Meu Deus, é ele'."
Vernon famosamente fez o clássico indie de 2007 do Bon Iver, For Emma, Forever Ago, enquanto estava isolado em uma cabana nos arredores de sua cidade natal, Eau Claire, Wisconsin. Depois que "Stick Season" mudou sua vida, Kahan ansiava por esse tipo de isolamento e foco para si mesmo. "Parecia a maneira como eu sempre quis fazer música", diz ele. "Tê-lo como parte deste processo me fez sentir mais conectado. [Porque] havia mais olhos em cima de tudo e mais pressão."
Essa pressão quase impediu que um novo álbum de Noah Kahan acontecesse. Desde que sua turnê terminou em setembro de 2024, a ideia de dar sequência a Stick Season o consumia. "Logo após a turnê, eu estava de saco cheio", diz ele. "Essa coisa que deveria ser tão divertida e recompensadora está se tornando cansativa e te deixando ansioso o tempo todo."
Kahan começou a repensar sua carreira, procurando outras maneiras de passar os próximos anos enquanto resolvia as coisas. Ele pensou em se matricular em aulas de psicologia em uma faculdade comunitária e até tirou impressões digitais para ser professor substituto. Em certo momento, considerou tornar-se zelador em um campo de golfe, reparando buracos na grama. "Achei que seria algo tão terapêutico", diz ele.
No final de 2024, Kahan fez a primeira de quatro visitas ao Long Pond Studio de Dessner. Localizado no interior de Nova York, é um lugar arborizado e aconchegante que Dessner descreve como "uma combinação estranha de igreja e garagem". O currículo de Dessner — que inclui a cofundação de uma das bandas indie mais proeminentes deste século e créditos de produção para várias estrelas do primeiro escalão — deixou Kahan nervoso. "Eu estava pesquisando ele no Wikipedia antes de chegar lá", diz ele. "Eu pensava: 'Meu Deus, esse cara é uma lenda. Ele trabalhou com Bon Iver, Taylor, Gracie e todos esses artistas que eu realmente admiro'. Mas o Aaron é o cara mais legal do mundo. Ele entendeu em que ponto eu estava, como eu estava lutando e me sentindo esgotado. Ele foi realmente receptivo a isso."
As sessões foram produtivas, mesmo que Kahan não estivesse necessariamente esperando que fossem. "Há algo sobre a energia [em Long Pond]", diz Dessner. "E talvez seja porque estou na banda desde sempre e fiz muitos outros discos com outras pessoas [que] estavam lutando, mas quando ele veio, senti que ele estava onde precisava estar... A primeira coisa que ele disse ao entrar foi algo como: 'Ei, estou animado para passar um tempo aqui, mas realmente não acho que vamos fazer nenhuma música porque não sei o que eu poderia dizer. Estou tão esgotado e meio perdido'. Mas em menos de uma hora, escrevemos 'Porch Light'. Foi instantâneo dessa forma — esse rio de ideias."
Mas tudo parou em março de 2025, quando Kahan foi para o oeste, para Joshua Tree, Califórnia, para escrever. Ele passou a chamar a viagem de "meu infame colapso de TOC em Joshua Tree". Kahan se viu em um Airbnb feito inteiramente de vidro, solitário pra caramba. "Joshua Tree foi horrível", diz ele, agora sentado ao lado de uma fogueira no quintal da fazenda. "Não consigo nem te dizer o quanto não me senti melhor depois de ir para lá. Eu estava tentando viver em uma comédia romântica, onde eu me sentiria acolhido em uma cidade pequena e poderia simplesmente desaparecer, no estilo Dave Chappelle. Não foi nada disso que aconteceu."
Kahan lutava para passar cada dia, quanto mais para escrever qualquer material novo. Ele teve o que descreve como um "episódio bastante grave" de pensamentos intrusivos aterrorizantes. "Eu estava convencido de que algo estava acontecendo que não estava acontecendo, ou que eu tinha dito algo que eu simplesmente não disse", diz ele. "Eu conseguia me convencer de que tinha atropelado alguém, sabendo com certeza que não tinha visto outra pessoa na estrada."
Kahan achou os pensamentos horríveis demais até para pesquisar no Google, por medo de que suas buscas acendessem sinais de alerta. E ele não os verbalizou para ninguém. "O estigma de sequer dizer: 'Ah, acho que posso ter atropelado alguém ontem à noite'", diz ele. "A primeira resposta seria: 'Meu Deus, talvez você tenha atropelado!'. Era uma sensação realmente complicada e muito isoladora, porque eu não queria parecer louco... Eu não conseguia me lembrar de conversas e dias da minha vida, porque estive tão preso nesse emaranhado de pensamentos."
Durante uma sessão virtual com seu terapeuta, Kahan foi diagnóstico com TOC. Eu digo a ele que sofro com isso durante a maior parte da minha vida, e que ser diagnosticado pode ser impactante no início. Kahan diz que sua "linhagem" consiste principalmente de pensamentos intrusivos, em vez de compulsões físicas. "Foi surpreendente", diz ele. "Eu estava sob a influência da ideia de que o TOC era tipo: 'Preciso lavar minhas mãos cem vezes'. Mas eu não percebia o quanto havia além disso. Comecei a juntar todas essas peças da minha infância e esses diferentes rituais que tive a vida toda. Não era apenas ansiedade ou estar estressado. Era esse transtorno realmente insidioso com o qual eu estava lutando."
Ainda em Joshua Tree, Kahan ligou para seu empresário, Drew Simmons. "Eu estava tipo: 'Cara, eu simplesmente não sei se consigo fazer isso'", ele lembra ter dito. "Ele tinha acabado de contratar Chappell Roan. Então, ele estava muito familiarizado [com artistas enfrentando pressão] e foi muito gentil naquele momento."
Olhando para trás, Kahan reconhece que as árvores de Joshua em si — muitas com mais de um século de idade — são bem legais. Mas ele sabia que precisava voltar para casa. "Aonde quer que você vá, você está lá", diz ele. "Você não pode deixar para trás o que está acontecendo na sua cabeça, não importa o quão longe você viaje ou o quão bonito seja o ambiente ao seu redor. Eu me senti mais preso naqueles cenários porque estava procurando desesperadamente, em vez de apenas permitir que a vida acontecesse."
Gabe Simon tem uma lembrança de 2022, quando ele e Kahan estavam gravando "The View Between Villages", a faixa de encerramento de Stick Season. "Ele estava deprimido, estressado e com um comportamento obsessivo no TikTok sobre fazer 'Stick Season' viralizar." Simon teve que recorrer a medidas drásticas, especialmente quando Kahan quis entrar na sala de controle. "Ele queria apagar tudo", diz o produtor/compositor. "Eu disse ao meu engenheiro: 'Preciso que você tranque aquela sala agora'. Eu não estava tentando ser um babaca — estou fazendo meu trabalho. E meu trabalho é ajudá-lo a ser a melhor versão de si mesmo."
Não é de surpreender que o TOC de Kahan também tenha aparecido durante a criação de The Great Divide. Ele se preocupava que seu novo álbum seria péssimo e que seus fãs estivessem começando a esquecê-lo. (Felizmente, ele estava errado em ambos os casos.) Ele pedia reafirmação à sua esposa, Brenna Nolan, e à sua mãe de que estava no caminho certo. O golfe, que antes era um hobby tranquilo para Kahan, tornou-se o que ele descreve como uma "coisa sádica" que ele começou a praticar compulsivamente.
Mas, após sua viagem desastrosa a Joshua Tree, Kahan voltou a tomar medicação. "Prozac e eu não tivemos um bom relacionamento", diz ele. "Zoloft e eu tivemos um relacionamento razoável. Mas Lexapro e eu nos apaixonamos." Ele se sentiu instantaneamente mais feliz e conseguiu finalmente deixar de lado seu antigo medo de que os remédios pudessem embotar sua criatividade. "Eu pensei: 'Música à parte, eu só preciso de ajuda'", diz ele. "E me senti mais criativo do que nunca, e tive uma energia nova."
"Você não pode deixar para trás o que está acontecendo na sua cabeça, não importa o quão longe você viaje."
"Ele está no lugar mais saudável em que já esteve", diz Simon. "E todos esses desafios de saúde mental são os superpoderes dele. É o que o conecta às pessoas no mundo. Não que ele seja perfeito, mas porque ele é tão absolutamente ferrado de várias maneiras."
Com mais viagens para Long Pond e Fire Tower Farm ao longo de 2025, The Great Divide começou a ganhar forma. Na Fire Tower, ele podia pescar, andar de moto, fazer trilhas e visitar os animais — um cachorro da raça Pastor da Mantiqueira (Great Pyrenees) chamado Buttermilk, duas vacas das Terras Altas chamadas Bessie e Clarabelle, e três burros — e entrar em um bom estado mental para criar. Não era exatamente como a propriedade de seus pais em Vermont, onde ele cresceu com seus três irmãos e escreveu "Stick Season", mas servia perfeitamente. (Kahan notou a coincidência no fato de que a moto que ele pilotava na fazenda tinha a placa número 802, o código de área de Vermont.) "Vir para cá fez parecer que eu estava fazendo música como um hobby novamente, que foi como eu sempre fiz", diz ele. "Eu não conseguia voltar a ser quem eu era da mesma forma exata. Eu sabia que aquilo tinha acabado. Mas isso me permitiu esse meio-termo."
Você pode sentir Kahan encontrando-se novamente em faixas de rock mais rápidas como "American Cars", um destaque que ele escreveu para sua irmã, Sasha, sobre como ela é a pessoa que resolve os problemas na família. É Kahan mergulhando os pés no heartland rock, no estilo de John Mellencamp e Bruce Springsteen. (Não é loucura imaginar um futuro no qual Kahan toque no Farm Aid.) "Faróis, suas placas/4CB3A/Não sabia que você dirigia carros americanos", ele canta. "Ray-Bans no seu rosto/Você tem dirigido o dia todo/Mas você está aqui, e somos tão gratos por estar."
Para Simon, isso destaca os pontos fortes de Kahan como compositor. "Todo mundo sabe o que é uma placa de carro, mas nem todo mundo sente a necessidade de citar todos os números nela", diz ele. "Mas ele sente. Ele sente a necessidade de te dar esses detalhes. É como ouvir um audiolivro. Não sei como ele faz isso."
Mais tarde naquela tarde, estamos caminhando pela Fire Tower, alimentando os burros — "Sr. e Sra. Burro, mas acho que ambos são machos", oferece Kahan, referindo-se a dois deles — e acariciando Buttermilk. Kahan escreveu "We Go Way Back", um dos momentos mais impressionantes do álbum, aqui. É uma ode a Nolan, enquanto ele canta sobre o amor deles sobre um violão acústico delicado, com harmonias inspiradas em Paul Simon: "Vi o mundo de perto, não há muito o que olhar/Comparado a você em suas roupas de trabalho, acenando olá da garagem". Não é frequente que Kahan escreva uma canção de amor, mas ele está aprendendo a se apoiar nas coisas boas, enquanto é intencional sobre o que mantém privado.
"Depois de ter dado tudo de mim para todo mundo", diz ele, "eu fiquei tipo: 'Quem sou eu de verdade por trás de tudo isso, quando eu me desconecto ou quando saio do palco?'. Eu entendo que as pessoas queiram ir mais fundo e queiram saber sobre quem são [minhas músicas]. Eu só preciso criar alguns limites. Minha esposa é muito reservada e realmente deseja essa privacidade; ela não gosta que a vida dela se torne algo que todos possam observar ou comentar. Isso é algo que sempre respeitei nela e é algo que me esforço muito para manter. É um trabalho em constante evolução descobrir o quanto eu quero compartilhar."
Nolan apareceu no recente documentário de Kahan na Netflix, Noah Kahan: Out of Body, dirigido por Nick Sweeney. O filme captura a ascensão de Kahan à fama com "Stick Season" e suas consequências — desde como isso afetou seus entes queridos até a percepção de que ele sofria de dismorfia corporal. Ele ainda está tentando lidar com isso. Recentemente, ele viu um comentário brutal na internet que dizia: "Estamos aqui pelo Noah Gordinho". No passado, ele poderia ter respondido com outra piada sobre si mesmo, mas o humor autodepreciativo tem limite. "Eles simplesmente me ferem profundamente", confessa ele.
O documentário captura Kahan em alguns momentos vulneráveis — tentando malhar ("Depois, eu sempre fico tipo: 'Por que eu ainda não tenho abdômen trincado? Sendo que faz tipo 10 minutos'", ele me conta) e apontando para uma seção de seu armário com roupas que não servem mais. Ver a si mesmo na tela já foi difícil o suficiente, mas então ele teve que discutir isso em entrevistas de divulgação do filme. "Eu me preocupo tanto que as pessoas pensem apenas: 'Agora é hora da seção sobre dismorfia corporal da nossa entrevista!'", diz ele. "Eu mal consigo assistir ao documentário. É complicado para mim pensar nessas coisas, e eu realmente preciso estar no estado de espírito certo para falar sobre elas."
As lutas de Kahan com a saúde mental o fazem questionar se ele quer ter filhos. "Algum dia", diz ele. "Eu só fico tão preocupado em passar todos esses problemas para outra pessoa. Mas todos os meus irmãos lutaram com isso e são pessoas tão engraçadas, gentis e inteligentes. Essas experiências mais difíceis também os moldaram. E saber que eu poderia estar lá por uma criança que estivesse passando por isso é uma ideia empolgante." Quando quer que aconteça, ele quer estar o mais presente possível: "Não quero ser o pai que fica entrando e saindo de casa o tempo todo."
Em 2023, Kahan iniciou o Busyhead Project, uma organização que promove a conscientização sobre saúde mental e fornece recursos em comunidades locais. Nomeado em homenagem ao seu álbum de estreia de 2019, Busyhead, o projeto já arrecadou mais de US$ 6,6 milhões e até forneceu cuidados de saúde mental para sua banda e equipe de turnê. Seu maior sonho é fazer o mesmo pelas pessoas no estado de Vermont.
"Às vezes eu escrevia músicas e pensava: 'Será que estou apenas glorificando isso? Estou apenas balançando essa cenoura da terapia na frente das pessoas sem realmente ajudar a fazer diferença nenhuma nesse espaço?'", diz Kahan. "Espero que as pessoas não achem que eu resolvi isso, só porque arrecado dinheiro e canto sobre saúde mental. Vejo essas pessoas por aí e elas dizem: 'Eu finalmente parei de beber' ou 'Eu finalmente confrontei meus pais'. E sinto uma inveja genuína dessas pessoas. Porque eu não consigo fazer isso por mim mesmo."
Hoje em dia, Kahan prefere maconha a álcool. Ele brinca que "fumou todos os dias por 15 anos e nunca gostou nem uma vez", mas admite que é bom para sua criatividade. Nós dois reconhecemos como beber apenas aumenta os sintomas do TOC e que, conforme você envelhece, as ressacas duram mais tempo. "Eu quase prefiro o primeiro dia, em que estou apenas com dor física", diz ele. "E não o segundo dia, em que eu não consigo contar porra nenhuma até 10. No fim das contas, acho que beber é apenas algo negativo para mim. É apenas roubar a alegria do dia seguinte."
"Eu entendo que as pessoas queiram ir mais fundo. Eu só preciso criar alguns limites."
Embora Kahan diga que está "em um lugar muito bom com substâncias no geral", a bebida sempre encontrou seu caminho em sua música. Isso não é apenas por causa de sua própria história com ela, mas por causa de onde ele cresceu. "Beber era uma grande parte da cultura", diz ele. "A quantidade de bebida ao meu redor, a quantidade de pessoas que conheço que bebiam, a quantidade de vezes que bebi na vida. Essas são coisas que coloco nos personagens, por causa do quão tóxico isso pode ser."
No documentário e durante nossas conversas, Kahan luta com seu relacionamento com Vermont. Às vezes, ele sente que explorou seu estado natal com "Stick Season" e sentiu culpa por ter ido embora. "Às vezes me sinto como um turista", diz ele. "Eu volto para casa e penso: 'Será que eu corrompi este lugar? Será que o representei mal? Será que mudei minha relação com ele porque agora o mostrei para todo mundo?'".
Uma pessoa que acha que Kahan orgulhou seu estado natal: Bernie Sanders. "Os talentos impressionantes de Noah ganharam reconhecimento nacional e global, mas ele nunca esqueceu suas raízes em Vermont", diz o senador, que falou no palco do show beneficente de Kahan em setembro de 2024. "Em meio às grandes crises que nosso país enfrenta, é muito fácil cair no desespero e na impotência. É exatamente por isso que precisamos de músicos como o Noah para unir as pessoas. Ele deixou os vermonteses orgulhosos."
Vermont aparece frequentemente em The Great Divide, como na magnífica e enérgica "All Them Horses", sobre a incapacidade de Kahan de estar em casa quando enchentes devastadoras atingiram o estado no verão de 2023. "Isto não é mais meu", ele canta. "Eu fiz barulho demais, caramba." Ele reforça esse ponto de vista durante a meditativa "Spoiled": "De onde eu venho e o quanto eu valho ficaram entrelaçados demais, caramba."
Kahan não é o tipo de superastro que compra itens luxuosos — é difícil imaginá-lo gastando rios de dinheiro em um iate. Mas, assim que se tornou bem-sucedido, ele se associou a um campo de golfe e comprou uma propriedade em Vermont. "Estou tão decidido a passar o resto da minha vida tranquilamente em Vermont", diz ele. "Consigo me ver no futuro apenas acordando, indo jogar golfe, indo jantar na casa dos meus pais e depois voltando para casa, por 50 anos. Eu ficaria feliz em fazer isso."
"VOCÊ TEM MEDO de altura?", Kahan me pergunta. Ele quer subir na torre de observação de incêndios de 33 metros da fazenda, mas, em vez disso, optamos por sentar na varanda em cadeiras de balanço. Kahan abre uma lata de Celsius e a coloca no braço da cadeira, ao lado de uma lata de sachês de nicotina Zyn. "Você deveria totalmente se viciar nisso", diz ele. "Estamos naquele período de carência em que os médicos ainda não sabem se isso vai te matar."
Kahan tem uma tatuagem de uma torre de incêndio no antebraço direito, em homenagem ao seu falecido amigo Carlo. A última vez que se viram, antes de Carlo morrer de uma doença repentina, foi quando subiram em uma torre de incêndio em Norwich, Vermont. Fumando cigarros e ouvindo música, eles contemplaram a folhagem de outono da região de Upper Valley, sem perceber que era o último encontro deles. Kahan o imortalizou em "Carlo's Song", em 2019, e canta sobre ele novamente no encerramento de The Great Divide, "Dan". É um retrato sincero e intrincado de amigos de longa data que revisitam memórias sombrias. "Todo mundo está dormindo, vamos falar sobre ele", canta Kahan. "Vamos falar sobre o ensino médio, falar sobre a morte."
"Foi o primeiro amigo realmente próximo que perdi", diz Kahan sobre Carlo. "Não lidei muito bem com isso. Eu estava em uma espiral e um pouco autodestrutivo. Lembro de mandar mensagens para ele no Facebook por dias e dias depois do ocorrido. Uma das últimas mensagens que ele me mandou foi para sairmos, e acabamos não conseguindo. Isso mudou algo em mim e me fez lembrar que cada momento é passageiro."
Desde o início, Kahan sabia que queria ser músico. Ele nasceu em 1º de janeiro de 1997, filho de Lauri Berkenkamp e Josh Kahan, o terceiro de quatro filhos. Seu pai era músico e triatleta, e fazia camisetas com o lema da família ("Divirta-se, esforce-se, seja gentil"); uma lesão cerebral que ele sofreu quando Noah estava na oitava série foi uma grande provação para a família. Sua mãe escrevia guias de parentalidade, desde Talking to Your Kids About Sex (Falando com seus filhos sobre sexo) até Teaching Your Children Good Manners (Ensinando boas maneiras aos seus filhos). A família valorizava a franqueza — sobre seus sentimentos e tudo mais. "Sempre fomos muito abertos sobre o que estava acontecendo com nossos corpos", diz Kahan sobre sua criação. "Nada era proibido. Adorávamos falar sobre nosso cocô, sobre crostas de feridas estranhas que tínhamos."
Kahan tem um ótimo relacionamento com ambos os pais, que se ditaram durante a pandemia. "Foi muito difícil com a separação dos meus pais", diz ele. "Sinto que foi a primeira vez na minha vida em que o conto de fadas desmoronou um pouco. [Mas] eles são como super-heróis. Sinto que os admiro mais do que antes à medida que envelheço."
Por volta dos nove anos, Kahan ganhou uma Stratocaster vermelha e começou a escrever canções. Ele se descreve como uma criança "estranhamente ansiosa", obcecada por punk rock e Green Day. Na terceira série, ele montou uma banda chamada Twisted Metal. "Meu primeiro álbum se chamava Death to the Lord (Morte ao Senhor)", diz ele. "Minha família ficava tipo: 'O que diabos há de errado com esse garoto?'"
Quando Kahan tinha 15 anos, começou a postar suas músicas no SoundCloud, onde Simmons o contatou pela primeira vez. Kahan estava no último ano do ensino médio e havia sido aceito na Tulane [University], mas Simmons convenceu seus pais de que aquela era uma oportunidade real. "Ele convenceu meus pais a não me mandarem para a faculdade", diz ele. "Eles foram muito apoiadores o tempo todo."
Em 2015, Kahan assinou com a Republic Records (ele migrou para a Mercury Records quando ela foi relançada em 2022). "Eu realmente achei que seria como nos filmes", diz ele. "'Vá para L.A. e você será um músico famoso'. A verdade é que levei um ano para assinar [o contrato]. Eu estava morando em casa, falando para as pessoas sobre essa carreira ambígua que eu teria. Todo mundo ficava tipo: 'Claro, amigão, tomara que você esteja bem'."
Em 2019, Kahan lançou Busyhead. O álbum traz o single "Hurt Somebody", com Julia Michaels, que foi um sucesso na Austrália. O dueto pop açucarado soa como algo que você ouviu uma vez em um Uber. Se você acha que isso é uma crítica, Kahan concordaria comigo. "Eu realmente não era o maior fã dessa música", diz ele. "Ter que tocar aquilo repetidamente era bem torturante... Era uma música que estava na cultura daquela época. Todo mundo sempre diz: 'Ah, eu lembro dessa música'. Eles nunca dizem: 'Essa é uma música do Noah Kahan'."
Kahan descreve Busyhead e seu sucessor, I Was/I Am, como "o experimento pop de Noah Kahan". "Eu estava sendo guiado pelo que achava que deveria fazer e pelo que achava que ser um artista significava", diz ele. "Em vez do que eu queria, que era apenas voltar para casa e escrever sobre o meu pai."
I Was/I Am chegou em 2021, mas não antes de Kahan dar uma guinada que ditaria o resto de sua carreira. Em maio de 2020, após voltar para a casa dos pais no auge da pandemia, ele lançou o EP caseiro Cape Elizabeth. Gravado em uma semana, com pouco mais do que a voz de Kahan e um violão acústico, ele continua sendo um favorito dos fãs por seu minimalismo DIY, inspirando tatuagens de faróis como o da capa. Seis anos depois, seus fãs — os Busyheads — ainda esperam por uma sequência. Kahan diz que está apenas esperando o momento certo: "É apenas uma questão de encontrar maneiras de garantir que ele dialogue com o meu sentimento atual, para não fazer um disco conceitual só por fazer."
Após Cape Elizabeth, Kahan escreveu "Stick Season" em 2020. Quando a música viralizou, seu som foi comparado ao folk pop dos anos 2010, tornado famoso por bandas como Mumford & Sons e The Lumineers. O estilo, frequentemente descrito como "stomp clap hey" ou "folk stomp", foi um sucesso estrondoso. Mais tarde, muitos viram o gênero como datado, mas não Kahan. "Eu sempre achei aquela coisa millennial dos anos 2010 brilhante, e nunca deixei de amar", diz ele. "Sempre me senti muito defensivo em relação ao som deles. Muitas vezes as pessoas [ouvem minha música] e ficam tipo: 'Isso é só mais uma coisa estilo Mumford & Sons'. Eu respondo: 'Eu amo Mumford & Sons! Obrigado pelo elogio!'"
Como Wesley Schultz, dos Lumineers, diz à Rolling Stone: "Você tenta ignorar as coisas, manter o rumo e acreditar que o que você está fazendo importa para você, e o resto está fora de suas mãos. Mas, sim, é muito bom quando isso faz um efeito bumerangue e volta. Você fica tipo: 'Viu? Eu não estava louco'."
Marcus Mumford entrou em contato com Kahan enquanto ele trabalhava em The Great Divide. "Eu estava tentando tornar esse processo perfeito e ser exatamente como a última coisa", diz Kahan, que conheceu Mumford em 2023. "E ele disse: 'Não vai ser. Você está em um lugar novo, e está tudo bem ser diferente'." Como Mumford conta: "Lembro de vê-lo em uma fotografia no Grammy ou algo assim, e ele não parecia tão feliz quanto sei que pode parecer. Eu pensei: 'Que porra você está fazendo no Grammy, cara? Vá escrever algumas canções'. Liguei para ele, da mesma forma que pessoas que estão há alguns anos na minha frente na carreira já ligaram para mim. Eu disse: 'Você está bem, mano?'. Conversamos sobre isso de maneiras íntimas e realmente úteis."
Ao contrário de "Hurt Somebody", Kahan diz que nunca deixará de amar "Stick Season", e que está perfeitamente contente em tocá-la em todos os shows pelo resto de sua vida. "Estou aqui pelos fãs", diz ele. "Se eles quiserem ouvir 'Maine' 50 vezes, ou 'Stick Season' 100 vezes, ou eu fazendo um monte de covers do Jason Mraz, é isso que vai ser... Estou em paz com o que quer que essa música signifique para mim pelo resto da minha carreira."
De volta à Fire Tower Farm, Kahan finalmente fisga um peixe — depois que as câmeras pararam de gravar. "Vamos fazê-los adicionar uma emenda", diz ele alegremente. "'Na verdade, eles pegaram um peixe mais tarde!'"
NO DIA SEGUINTE, encontro Kahan novamente na fazenda. Desta vez, ele abandonou o visual de caubói por seu traje habitual: shorts de ginástica verde-caçador, um moletom branco com capuz, Birkenstocks pretas com meias brancas e um boné de caminhoneiro Tecovas azul-marinho. Os sachês de Zyn estão de volta, junto com um café gelado.
Neste verão, Kahan dará início a uma turnê massiva de estádios esgotados, incluindo uma parada no Rolling Stone's Stateside Festival em 4 de julho. Ele diz que continuará usando suas tranças francesas no estilo Willie Nelson da última turnê, que seu assistente faz para ele. "Por estranho que pareça, quando olho para fotos minhas de tranças, sinto que esse é o visual que eu deveria ter", diz ele. "Ou talvez eu faça um corte mullet para fazer o [perfil] Country Central postar mais sobre mim."
Kahan está satisfeito com onde está e orgulhoso do álbum que fez — apesar de quão difícil foi chegar lá. "Você descobre quem você é nos momentos em que está sozinho", diz ele. "Nos momentos em que as coisas estão quietas e você não tem 30.000 pessoas gritando que te amam. Eu precisava ser trazido de volta à terra, e acho que o processo, por mais difícil que tenha sido, realmente me trouxe de volta."
Mas ele não consegue simplesmente encerrar assim. Quando nos levantamos para nos despedir, Kahan faz um pedido. "Você pode se certificar de dizer na entrevista que eu tenho 1,88m e sou fortão?", diz ele. "Porque essa é a imagem que eu gostaria de projetar."
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