0

Morte da cantora Goo Hara mostra o lado escuro do K-pop

Mulheres sofrem com pressões neste gênero musical, principalmente numa sociedade extremamente conservadora como a sul-coreana

27 nov 2019
11h59
atualizado às 14h29
  • separator
  • 0
  • comentários

SEUL (COREIA DO SUL) - A morte da cantora sul-coreana Goo Hara deixou claras as pressões que estrelas, especialmente mulheres, enfrentam no cruel setor do K-pop e numa sociedade sul-coreana extremamente conservadora.

Memorial para a cantora de K-pop Goo Hara
Memorial para a cantora de K-pop Goo Hara
Foto: Chung Sung-Jun / Reuters

Sua morte, aos 28 anos de idade, ocorreu menos de dois meses depois do desaparecimento de Choi Jin-ri, ou Sulli, outra estrela do K-pop e grande amiga de Goo. Especialistas afirmam que Sulli e Choi enfrentaram bullying e assédio sexual do público e da mídia em toda a carreira, o que teve um impacto negativo sobre sua saúde mental. A polícia ainda investiga a morte de Goo e encontrou um "bilhete pessimista" na casa dela.

Antes muito popular em grande parte da Ásia, o K-pop se propagou para além da Coreia do Sul graças a grupos bastante populares como BTS e Blackpink. Goo iniciou sua carreira em 2008, participando do grupo de cinco garotas chamado Kara, que ficou famoso e contribuiu para deslanchar o fenômeno global do K-pop.

Posteriormente ela começou uma carreira solo bem-sucedida na Coreia do Sul e no Japão.

Sulli iniciou sua carreia na mesma época que Goo, participando da banda f(x), em 2009. E se tornou uma estrela de cinema depois que deixou o grupo.

Goo ocupou as primeiras páginas dos jornais quando levou seu ex-namorado, Choi Jong-bum aos tribunais, no ano passado. Choi disse ter sido assediado por ela, ao passo que Goo o acusou de ter ameaçado divulgar um vídeo de sexo com ela.

Durante essa disputa, a agência coreana de Goo não renovou seu contrato. Choi foi condenado a um ano de prisão por coerção, assédio e chantagem. O mandado de prisão foi suspenso e ele ficou em liberdade. Choi recorreu da sentença e o julgamento ainda está em curso.

O K-pop é extremamente competitivo, com dezenas de grupos sendo lançados a cada ano.

Especialistas do setor há muito tempo vêm alertando para esse lado sombrio de uma indústria dominada por escândalos. Artistas aspirantes a uma carreira, também adolescentes, se aprimoram durante anos. Somente alguns se lançam e muito poucos alcançam o sucesso comercial. A probabilidade de serem bem-sucedidos aumenta se firmarem um contrato com agentes conhecidos do setor de entretenimento.

Trata-se ainda de um setor com rigorosas para suas estrelas — incluindo a proibição de namoro, um treinamento espartano e dietas, às vezes impondo contratos injustos e equivalentes a trabalho escravo. E estabelece requisitos adicionais no caso das mulheres, regras não escritas que refletem a sociedade patriarcal da Coreia do Sul.

Park Hee-A, uma jornalista que escreveu Interviews with K-pop Stars, disse que as cantoras de K-pop estão sujeitas às rígidas regras sociais impostas pela sociedade. "Algumas cantoras de K-pop foram relegadas ao ostracismo por não sorrirem num programa de TV ou lerem um livro sobre feminismo que vai contra uma sociedade patriarcal dominada pelos homens" disse Park à Associated Press.

Expectativas de pureza e castidade regem a vida das mulheres no país. Goo sofreu um bombardeio de comentários de ódio depois que surgiram as notícias sobre o vídeo de sexo, apesar de ela ser a vítima de "pornografia de vingança"; "O tema sexo é tabu na Coreia do Sul", disse Tae-Sung Yeum, psiquiatra da clínica Gwanghwamun Forest. "É exigido um padrão moral muito alto, especialmente no caso das celebridades femininas, porque a Coreia do Sul é uma sociedade patriarcal".

Sulli, amiga de longa data de Goo, também apareceu nas primeiras páginas dos jornais ao se expressar sobre assuntos como discriminação por idade e feminismo. Foi criticada por usar camisetas sem sutiã, chamar colegas masculinos mais velhos pelo primeiro nome e apoiar abertamente o feminismo.

Segundo o psiquiatra Yeum, é difícil para as estrelas do K-pop buscarem ajuda profissional para a depressão, especialmente num país onde as pessoas acham que problemas mentais são "tratados com a vontade da pessoa". E afirmou que vários suicídios que ocorreram no setor têm a ver com o fato de os artistas mergulharem num sistema hipercompetitivo que abusa excessivamente de uma pessoa jovem.

Quando Sulli foi encontrada morta em sua casa em Seongnam, Goo gravou um vídeo de despedida para a amiga. "Viverei de modo mais cuidadoso para você", ela declarou, se desculpando por não conseguir ao funeral da amiga. Dois dias antes da sua morte, Goo postou um selfie no seu Instagram com a legenda "Boa Noite". /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Veja também:

 

Estadão
  • separator
  • 0
  • comentários
publicidade