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Major RD mostra o que significa ser um verdadeiro 'Alfa' em seu novo projeto

No quarto álbum, o rapper de Campo Grande cruza boombap, rock e trap para falar de paternidade, fé e reconstrução pessoal

11 ago 2026 - 08h53
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Major RD define "alfa" como a marca de quem lidera pelo carisma e pela vocação, não pela imposição. Depois de Troféu (2021) e Ascensão do Cisne Negro (2023), o rapper de Campo Grande entrega em Alfa, o disco mais pessoal da carreira. Com 13 faixas e cerca de 43 minutos, o projeto chega pela Warner Music Brasil, construído ao longo de dois anos de reformulação, em um período que o próprio artista descreve, em entrevista à Rolling Stone Brasil, como bagunçado, logo após o fim de um relacionamento com a mãe de sua filha. É nesse processo de reconstrução que o projeto ganha forma: abandona um conceito anterior, provisoriamente batizado de Movimento Rock, para se tornar algo mais amplo e, ao mesmo tempo, mais íntimo.

Major RD
Major RD
Foto: Divulgação / Rolling Stone Brasil

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Sonoramente, Alfa transita sem medo entre boombap, rock e trap — uma mistura que Major RD atribui ao próprio repertório de escuta. Durante a composição, ele passou por referências como Charlie Brown Jr., Froid, RZO, D2 e os primeiros discos de Djonga, ao mesmo tempo em que aprofundava uma paixão declarada pelo rock, gênero que hoje estuda e explora ao compor, pela primeira vez, com banda própria.

Essa travessia entre influências aparece diretamente no flow: ora mais gritado e agressivo, pensado para a resposta física da plateia e para o bate-cabeça; ora mais contido e cadenciado, quando o tema pede introspecção, como em "Carta Pra Majur", canção que abre o projeto — um desabafo dedicado à filha que remete diretamente a "Carta Pra Lucas", faixa de Troféu. Na música, Major RD aborda o peso de ser pai à distância. "Sonhei em dar uma lar para minha filha / O estranho é que lá eu sou um visitante", canta. A partir daí, a letra funciona como uma espécie de carta de instruções e afeto à distância: ele promete cuidar dela, mesmo de longe; celebra semelhanças entre os dois; e revela o lado mais protetor de um pai ausente apenas fisicamente.

A faixa-título, "Alfa", que vem em seguida, com MV Bill e KL Jay, retoma a paternidade sob outra luz: agora, como presença ativa. O boombap conduz versos sobre criação, família e responsabilidade, com MV Bill entregando um verso de peso histórico — quase simbólico — como quem passa o bastão para uma nova geração. Quase no final da canção, Major RD sampleia "333", de Matuê, mas, apesar da intenção, o encaixe soa um pouco solto no arranjo, destoando do restante da construção da faixa.

"Karatê", com BK', segue uma linha semelhante com a anterior: rimas sobre trajetória pessoal, racismo estrutural e problemas sociais atuais ("A moda agora é atirar em motoboy para não ter que descer e buscar o lanche / Se a fúria negra ressuscitar, vocês vão sofrer a revanche / Sua farda podre tá suja de sangue, lave antes que manche") e um verso impactante do convidado.

E , ao longo do álbum, essa é a tônica de praticamente todos os feats: Djonga, MC Cabelinho, Slipmami, Ryu, The Runner e Chefin entregam participações marcantes, cada um ocupando um espaço específico dentro da proposta de cada faixa, Major consegue extrair o melhor de cada um, misturando gerações do hip hop nacional sem que nenhuma pareça deslocada.

Voltando às faixas, em "Apetite Por Ratos", o disco muda de temperatura e revela a faceta que dominará boa parte do álbum: voz rasgada, quase gritada, sobre um trap, muito bem construído. "Eloy Casagrande" aprofunda esse lado mais visceral ao misturar rock e trap em uma fórmula que o próprio artista reconhece como prima distante de "Só Rock", faixa mais antiga do catálogo. É um dos pontos altos, com refrão fortíssimo e claramente pensado para o ao vivo.

"Rir Pra Não Chorar" também é outro ponto alto do projeto, construída sobre um sample de Cartola encaixado precisamente, enquanto o rapper reflete sobre a solidão que acompanha o sucesso, os dias desorganizados, o coração confuso e o próprio corpo sofrendo com os excessos. Há, ainda, espaço para uma reflexão mais melancólica sobre fé, perda e o tipo de mundo pelo qual parece cada vez mais difícil sentir gratidão.

No terço final, "Rimo Igual Pac 2", com Ryu The Runner, é o momento mais leve e divertido do disco. Longe do peso temático de boa parte do álbum, a faixa aposta em referências soltas à cultura pop — que vão de Chico Moedas, à bets, Felca, Pokémon, GTA e outros —, trocadilhos debochados e um tom descompromissado que contrasta propositalmente com a introspecção do restante do disco. Os dois têm química evidente na entrega, e a faixa funciona como um respiro dentro de um álbum que, na maior parte do tempo, carrega peso emocional considerável.

Ainda assim, nem tudo em Alfa alcança o mesmo patamar dos destaques citados. "Tempo Para Nada" e "Campo de Golf" cumprem seu papel na sequência do disco, mas soam menos marcantes diante do restante. "Lei Do Ex" também parte de uma ideia interessante, a paciência para chegar ao próprio auge sem pressa e a busca por serenidade espiritual em meio à desconfiança que ronda o sucesso, mas a execução não tem o mesmo impacto lírico de outras faixas. Ainda assim, no conjunto, esses momentos não diminuem o nível do projeto.

Alfa confirma a ideia que abre o disco: liderança como vocação construída aos poucos, faixa após faixa e não como imposição. Major RD cruza boombap, rock e trap sem perder identidade em nenhum momento, e boa parte desse mérito também se deve à produção, que sustenta cada mudança de gênero com beats sólidos, bem escolhidos e claramente pensados tanto para o estúdio quanto para o palco. É um álbum sobre reconstrução pessoal que, paradoxalmente, encontra força justamente na variedade, provando que Major RD consegue ser gritado e contido, visceral e protetor — tudo dentro do mesmo projeto.

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