Major RD fala sobre transformação em novo álbum, 'Alfa', após término de relacionamento: 'Precisava me ocupar'
Em dois anos de produção, rapper transforma crise pessoal em liderança, fé e criatividade
Engana-se quem acredita que as melhores músicas nascem da alegria; às vezes, elas vêm do fundo do poço. Major RD estava lá embaixo quando decidiu fazer Alfa. Seu relacionamento havia terminado, a cabeça estava bagunçada, e o mundo parecia desabar enquanto ele viajava — longe de casa, da família, especialmente da filha e de si mesmo. Naquele momento, tinha duas opções: remoer a dor ou transformá-la em algo.
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Ele escolheu o segundo caminho. Decidiu que não ficaria preso àquela situação, remexendo o mesmo barro. "Eu olhei tudo desmoronando à minha volta e falei: 'mano, tá tudo errado'. Eu não sou essa pessoa aqui", conta Major RD, em entrevista à Rolling Stone Brasil. "Eu sempre fui o cara que cuidou da minha família e de todo mundo. E eu tô aqui? Não, tá errado. Preciso me ocupar".
Foi nesse processo de se ocupar que Alfa nasceu, mas com outro nome. Major RD trabalhava no Movimento Rock. Tinha até lançado um single com Leall. Mas, quando decidiu voltar às raízes — à fé, à família, à mãe, à filha —, percebeu que esse não era mais o caminho. Descartou o projeto e decidiu recomeçar.
"Tinha terminado meu relacionamento, tava com a cabeça meio bagunçada. E foi quando eu precisei me apegar no meu lado mais de fé mesmo", explica. "Foi um momento muito difícil para mim, em que eu tive que sentar e falar: 'Mano, preciso cuidar de tudo. Preciso cuidar de mim, cuidar da minha família; preciso me apegar em algo em que eu acredito, na minha religião'."
Essa volta às raízes também influenciou o que ele passou a ouvir. Major RD retornou aos sons que o moldaram e voltou a escutar rap mais antigo: Charlie Brown, O Rappa, Marcelo D2, os primeiros discos de Froid e o Djonga de 2015 — "aquela época que o pessoal chamava de 'ano lírico'". Segundo ele, era preciso recuperar versos mais sérios e a profundidade lírica que havia se perdido no caminho.
Nesse vai-e-vem entre a destruição interna e a reconstrução, Alfa tomou forma. "Líderes dominantes através de grande carisma e vocação", como ele resume, ou "O Alfa não admite e nem aceita nenhum dos seus familiares machucado, esse é o propósito / Nós nascemos prontos para provar que existimos / Não basta viver, tem que justificar a presença", como canta na faixa-título do projeto.
Quando o disco finalmente ficou pronto, Major RD decidiu que o lançamento merecia uma festa de audição, diferente de tudo o que já havia feito.
"Eu sempre fiz festas de audição, que acabam virando uma festa mesmo. A gente começa a beber, coloca música alta e acaba falando de qualquer outra coisa além do disco. Aí, dessa vez, resolvemos fazer no cinema, porque seria totalmente focado no audiovisual — no disco ali, nos clipes, nos visualizers. Cinema, telão, pipoca, refrigerante, criança, adulto… foi bem maneiro; bem natural. Bem leve".
Em Alfa, boom bap, rock pesado e trap convivem naturalmente. "Eu sou viciado em música", explica. "Eu mexo com cavalo, canto trap, gosto de ouvir rock, luto muay thai, jogo futebol" — por que a música não seria assim também?
Faixas como "Eloy Casagrande" trazem o rock distorcido, gritado, pra soltar os sentimentos. "É o tipo de música que você acorda, mano, e tô nem aí pro mundo hoje". Ao mesmo tempo, o disco equilibra essa agitação com faixas reflexivas: "Aí, quando você quer ficar mais pensativo, você vai lá e escuta uma 'Carta para Majur'", diz. A música de abertura do disco é dedicada à filha, uma conversa de pai separado que não consegue estar presente fisicamente, mas que move todas as peças para que ela fique bem.
Mas o verdadeiro impacto de Alfa vem das colaborações. MV Bill e KL Jay na faixa-título. BK' em "Karatê". Djonga e MC Cabelinho em "Campo de Golfe". Ryu The Runner em "Rimo Igual Pac 2". Slipmami em "Foden". Chefin em "Rétrica". Nomes de todas as gerações.
"Para mim, é uma responsabilidade muito grande", explica, ao falar especificamente da velha guarda.
"Quando você circula entre esses caras, está lidando com pessoas de carreiras brilhantes, intocáveis. Se eu errar, isso automaticamente vai respingar neles".
A responsabilidade, no entanto, também existe com a nova geração. "Com o pessoal da nova geração, da minha geração, também tem responsabilidade, mas é diferente, porque os caras da geração antiga trilharam outro caminho. Mas eu tenho certeza de que o rap está em boas mãos".
https://www.youtube.com/watch?v=kxDS5PaSVzY
E, entre todos os feats, tem um que chama atenção justamente por vir de um universo completamente diferente: Cartola. Enquanto a maioria das participações é voltada ao rap, o sample do carioca em "Rir para Não Chorar" é um salto para o samba raiz, para o Brasil que não canta trap nem rock.
"Gosto muito de samba, minha mãe também gosta muito. Vim de uma família em que meu pai ouve rock e rap e minha mãe só samba, pagode, MPB. Por isso virei o nerd da música. Essa ideia do Cartola — não posso tirar o mérito — foi do meu mano meLLO. Ele já trouxe esse instrumental para mim pronto e, quando colocou para eu ouvir, eu falei: 'Mano, genial. Como é que você conseguiu misturar isso?' É num beat tão maneiro, que passa uma vibe tão séria; o instrumental em si passa uma vibe séria — o tipo de instrumental que eu ouviria até se não tivesse ninguém cantando, só de colocar ali. Depois vem o refrãozinho do Cartola, depois vem a batida vazia, sem nada. Eu já ouviria aquele instrumental."
O resultado é uma música que dialoga entre samba e rap, entre o Brasil de Cartola e o Brasil contemporâneo de Major RD. Mas a surpresa veio quando buscou a liberação para usar o sample.
"Quando eu fui pedir a liberação do sample, eles liberaram para que o artista Cartola entrasse como feat no álbum. Então, casou tudo. Eu falei: ó, viu? Pô, tá doido. Com certeza!"
Assim, as 13 faixas do disco contam histórias diferentes, mas compartilham um ponto em comum: foram pensadas para funcionar ao vivo. "Para mim, o mais importante é que a galera saia dos shows feliz. Então, quando eu faço qualquer música, eu já penso no ao vivo. Eu falo: 'Mano, como isso vai soar ao vivo? Eu vou conseguir respirar? Se não, preciso tirar essa palavra. 'Ah, mas aqui no estúdio dá para cantar?' Dá. Só que, no ao vivo, talvez eu não consiga. Então, vamos colocar uma parada mais lenta ou acelerar'".
"Por exemplo, 'Eloy Casagrande' é totalmente preparada para o ao vivo. É uma das que eu tô mais ansioso para cantar e ver a reação do público". Cada escolha no disco, segundo ele, foi pensada para o palco.
E todo esse cuidado — na produção, nas colaborações e nas faixas pensadas para o palco — encontra uma síntese visual em um detalhe crucial: a capa de Alfa, que mostra Major RD vestido como Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil.
A imagem gerou debate nas redes — e ele sabia que geraria. "Eu já sabia que iria gerar um debate, né? É normal. Eu tô maduro o suficiente para conseguir ler e não debater. Acho que o hip hop tem essa função de fazer as pessoas debaterem entre si".
Mas, segundo ele, a escolha é profundamente pessoal. "A minha conexão é íntima e familiar", explica. "Fui criado em um ambiente católico, cercado por mulheres e sempre muito próximo da Santa, já que minha mãe é ministra da Eucaristia. Eu fui coroinha aos 14 anos. Fiz a catequese completa. Fiz a primeira comunhão. Comecei o crisma, mas parei no meio".
O que importava, para ele, era a intenção. "Não foi falta de respeito. Eu tinha consciência de que não estava debochando da minha religião. Não era como se eu retratasse Nossa Senhora com uma tatuagem no rosto ou segurando uma pistola — aí, sim, eu estaria blasfemando. Mas ali eu sou um cara coberto com o manto de Nossa Senhora. A única opinião que importava era a da minha mãe. Quando eu perguntei: 'Mãe, isso tá parecendo um desrespeito?', a explicação foi essa: eu estou coberto com o manto de Nossa Senhora nessa capa. Ela disse que não, então fiquei tranquilo".
Alfa é um álbum fechado — narrativamente, sonoramente, esteticamente. Mas, para Major RD, o trabalho não para. A próxima jornada já começou. O artista quer fazer rock, sem beats de trap, sem sintetizadores. "Rock rock", conta. "Tá sendo tudo muito novo, é como se eu estivesse começando uma carreira nova", diz. "Estou tendo que estudar muito; ensaio todos os dias. Coisa que eu não fazia há anos. Estou saindo totalmente da minha zona de conforto. Estou aprendendo tudo do zero".
Ele se sente como em 2014, quando começou nas batalhas de rima e tudo era novidade. Só que, agora, não é mais o menino incerto: está consolidado, já passou pela queda, pela criação, pelo amadurecimento — e escolhe a próxima montanha para subir.
"Há outro álbum em desenvolvimento", mas Major RD aprendeu que não deve prometer datas. "Eu não fico falando, porque senão a galera fica pensando: 'E aí, lança o disco, lança o disco'. Mas eu já tô trabalhando em outro álbum".
Até lá, os fãs terão bastante tempo para aproveitar Alfa. Um álbum que nasceu do fundo do poço, que foi reconstruído quando ele decidiu voltar às raízes, que incorpora samples de Cartola e feats de lendas, que é pensado para o palco, que veste a padroeira do Brasil como capa. É um disco que prova uma coisa simples, mas poderosa: que a criatividade pode ser cura, que a responsabilidade pode ser motivo de alegria, que a liderança pode nascer justamente quando tudo desaba. Major RD não é mais aquele cara remexendo barro no fundo do poço. É um homem que transformou dois anos de crise em 13 faixas que documentam o retorno a si mesmo.
Alfa já está disponível em todas as plataformas digitais.
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