Kneecap: 'o que acontece com os palestinos é punição coletiva — nunca é aceitável'
Em conversa com a Rolling Stone Brasil, Mo Chara discute o novo álbum 'Fenian', conquistas — e controvérsias — dos últimos anos e temas políticos
Os últimos dois anos da carreira do Kneecap foram cheios. O grupo de hip-hop de Belfast, Irlanda do Norte, ganhou o mundo graças ao filme que dramatiza sua origem (Kneecap: Música e Liberdade) e seu álbum de estreia, Fine Art (2024). Mo Chara, Móglaí Bap e DJ Próvaí chamaram a atenção do público pelo fato de suas letras serem primariamente em gaélico irlandês, um idioma perseguido durante os séculos de ocupação inglesa da Irlanda.
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Além disso, os integrantes demonstraram, de cara, que são altamente politizados. Não só com relação ao país dividido, mas também pautas do resto do planeta. Principalmente a Palestina.
Em conversa com a Rolling Stone Brasil, Mo Chara - nome artístico de Liam Óg Ó hAnnaidh - discutiu parte da jornada do Kneecap neste período, que culminou na produção do segundo e mais novo álbum de estúdio, o já lançado Fenian (2026). Inclusive, revelou como foi descartado um disco quase inteiro de material:
"Podemos fazer uma música e, ao retornar a ela alguns meses depois, o momento passou — mesmo que ainda gostemos. Foi isso com todo o álbum descartado. Havia boas canções, mas estávamos sob pressão e dava pra sentir no material. Não batia. Não estávamos apaixonados pelo que estávamos fazendo. O segundo álbum é tão importante; precisava ser melhor que Fine Art ou ao menos tão bom quanto."
https://open.spotify.com/intl-pt/album/0z5uyAUrflFAnjBR2EhW9J
Percepções erradas da cultura
Após tomar a decisão de recomeçar praticamente do zero, o Kneecap recrutou o produtor britânico Dan Carey, famoso por trabalhar com Wet Leg e Fontaines D.C. A indicação veio justamente de Grian Chatten, vocalista da segunda banda citada e convidado especial de Fine Art. O trio até havia considerado chamar o profissional anteriormente, mas as agendas não batiam.
No primeiro dia de teste da parceria, três ou quatro ideias de qualidade surgiram. Carey compreendeu de cara a proposta musical do Kneecap: aliar o político com o cotidiano e o humorístico ao som de uma mistura anárquica de hip-hop, punk, pós-punk e rave.
"Por causa da nossa origem, um lugar tão politizado, mas também com senso de humor, é o melhor jeito de transmitir qualquer mensagem, seja política ou não. É típico da Irlanda: sempre que a coisa tá feia, nós nos apoiamos no humor como ferramenta para lidar com a vida. Aparece naturalmente quando fazemos algo criativo."
https://www.youtube.com/watch?v=PLDHQVJZuGQ
Fenian lida com temas sérios, principalmente relacionados à percepção internacional da cultura irlandesa e como essa percepção foi moldada pela visão opressiva do Reino Unido. O próprio nome do disco representa essa questão, de acordo com Mo Chara:
"O título surgiu quando já tínhamos muitas músicas prontas. É sobre meio que tomar de volta o significado da nossa língua e reaver aquela palavra. Inicialmente, 'fenian' se referia a um grupo de guerreiros chamados Na Fianna, mas acabou se tornando um insulto. Quando soubemos que estávamos seguindo por esse caminho de reivindicar nossa língua e cultura, naturalmente começou a ir nessa direção, talvez desmistificando alguns mitos, tipo essa ideia americana de que estamos todos apenas dançando ao redor de trevos o tempo todo."
Tal visão de reaver símbolos culturais passa sempre pela lente iconoclasta do grupo:
- "Smugglers & Scholars" rebate percepções condescendentes da população irlandesa, além de chamar atenção para as polêmicas vividas pelo grupo;
- Em "Big Bad Mo", Mo Chara e Móglaí Bap trocam rimas sobre como tentam diminuir o impacto cultural do grupo;
- Já em "Liar's Tale", o trio escancara exatamente o motivo: a letra foca especificamente no governo britânico liderado por Keir Starmer e sua posição relativa aos eventos na Faixa de Gaza.
https://www.youtube.com/watch?v=e061Py8MTHg
Polêmicas
Durante uma aparição no festival Coachella em 2025, o Kneecap levou ao palco o streamer americano Hasan Piker, conhecido por seu ativismo nas redes para conscientizar o público das ações de Israel contra a população palestina. Em dado momento da performance, o telão do palco mostrou as seguintes mensagens (via BBC):
"Israel está cometendo genocídio contra o povo palestino. Isso ocorre sob permissão dos Estados Unidos. F*da-se Israel / Palestina Livre."
A reação foi forte. Sharon Osbourne, esposa de Ozzy Osbourne, publicou um texto nas redes no qual caracterizou o ato do Kneecap como "discurso de ódio" e exigiu a revogação de seus vistos de trabalho nos Estados Unidos. Em entrevista à Rolling Stone EUA, Mo Chara respondeu com um conselho para a empresária e apresentadora escutar "War Pigs", canção da banda original do marido dela, Black Sabbath.
O governo americano acatou a sugestão de Sharon Osbourne. O fato da agência responsável por gerenciar as turnês do grupo ter cortado laços no meio da polêmica toda facilitou a decisão.
Não parou por aí. A polícia britânica abriu uma série de investigações contra o grupo por apologia ao terrorismo. Em uma delas, Mo Chara chegou a ser indiciado por aparecer num vídeo segurando o que parece ser uma bandeira do Hezbollah — organização política libanesa com milícia anti-Israel considerada uma organização terrorista por vários países ocidentais — jogada no palco durante um show.
Em meio a isso, uma série de reportagens sobre vítimas de kneecapping tentou pintar o uso do termo pelos integrantes como ofensivo. Durante os Troubles — período de guerra civil na Irlanda do Norte —, forças paramilitares atiravam nos joelhos de pessoas acusadas como punição por comportamento antissocial. Mo Chara apontou algo curioso sobre essa campanha:
"Comédia passa por cima da cabeça muita gente. A ironia sobre 'kneecap' e o título disso é: se tivéssemos nascido e durante os problemas, durante aqueles tempos em que 'kneecappings' estavam acontecendo e estivéssemos falando sobre o que falamos, teríamos sido 'kneecapped'. Essa é a piada toda."
O ponto do artista é reforçado até pelo clímax do filme Kneecap: Música e Liberdade. Nele, Móglaí Bap é sequestrado por forças paramilitares republicanas para ser baleado nos joelhos, justamente por causa do conteúdo das canções do grupo.
Causa palestina
O caso de apologia ao terrorismo contra Mo Chara foi oficialmente arquivado em março de 2026, quando a Suprema Corte do Reino Unido rejeitou uma apelação final dos procuradores. Apesar disso, o rapper, orientado por seus advogados, não respondeu a qualquer pergunta da Rolling Stone Brasil sobre as acusações ou sobre a perda do visto — uma vez que ambas as situações ainda estão em curso e todo cuidado é pouco.
https://www.youtube.com/watch?v=BPlJ_6M74l0
Por outro lado, Mo arrumou certo espaço para falar sobre um aspecto que o Kneecap sempre deixou claro: qualquer revés pelo qual o trio passa é nada perto daquilo sofrido pelo povo palestino.
"Tivemos nosso próprio tipo de provações e tribulações este ano e isso pode ser avassalador. Estar sob os olhos do público traz consigo muita crítica e as pessoas adorariam que você cometesse um erro. Acho incrível que estamos todos juntos como amigos e podemos compartilhar o fardo de tudo. Mas sempre que as coisas ficam estressantes... lembro que todos nós temos celulares, redes sociais e coisas assim. Teríamos de viver debaixo de uma pedra para não ver os tipos de dificuldades que os palestinos estão enfrentando e, nos últimos anos, o que está acontecendo é punição coletiva e a punição coletiva nunca, nunca é aceitável."
A Irlanda sempre apoiou a causa palestina por identificar no sofrimento do povo de lá algo muito semelhante ao que passou sob domínio inglês. Por isso, Mo Chara vê como sua responsabilidade dar plataforma a esse povo:
"Vamos continuar a fazer o certo pelos nossos irmãos e irmãs palestinos e usar nossa plataforma para o bem e usar nossa plataforma para garantir continuamente que eles se sintam vistos e ouvidos neste momento. Há partes que estão ativamente tentando silenciá-los e tentando silenciar pessoas que falam sobre eles."
Esse assunto passa por Fenian como um todo e culmina em "Palestine", música com participação especial de Fawzi. Protagonista da faixa, o rapper palestino tinha os membros do Kneecap como fãs. Fazia mais sentido trazê-lo, com seu lugar de fala, para discutir o tema.
https://www.youtube.com/watch?v=F6hYLzvyly8
Curiosamente, o convite veio através de uma conexão familiar. Mo Chara contou que a noiva do irmão de Móglaí Bap nasceu em Ramallah, também a cidade natal do artista, então ela acabou sendo a emissária para estabelecer a conexão.
"Quem é melhor para falar sobre as lutas palestinas do que os próprios palestinos? Então ela conseguiu entrar em contato e perguntamos se ele gostaria de participar. Dito isso, ele não está no álbum só porque é palestino, ele está no álbum porque somos grandes fãs dele e ele é a pessoa perfeita para representar os palestinos nele."
Vinda ao Brasil
Em meio a tudo isso, Mo Chara deixou claro ao fim da entrevista o desejo do Kneecap de visitar a América Latina. O grupo chegou a visitar o México e fez um show em Cuba no mês de março, como parte de uma caravana de ajuda internacional à ilha em meio ao bloqueio feito pelos Estados Unidos. Entretanto, o trio não quer parar por aí:
"A próxima coisa é que queremos ir mais para baixo. Obviamente ouvi dizer que o Brasil é considerado um dos lugares mais legais do mundo. Acho que vocês são um pouco como os irlandeses: têm famílias grandes, adoram festejar muito, adoram fazer piada. A gente vai se enturmar super bem."
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