Entre os 100 artistas brasileiros com maior rendimento, apenas 11 são mulheres, diz pesquisa
Edição de 2026 do estudo 'Por Elas Que Fazem a Música' retrata a participação desigual da mulher na indústria musical brasileira
A indústria musical brasileira se expandiu no último ano: segundo o relatório anual da Pro-Música Brasil, houve um crescimento de 14,1% em relação à 2024, o que coloca o Brasil na 8ª posição no ranking da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI). Porém, este espaço ainda não é ocupado igualmente por homens e mulheres.
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A União Brasileira de Compositores (UBC) lançou a edição de 2026 do estudo "Por Elas Que Fazem a Música", que analisa a participação feminina na indústria musical brasileira. Os dados mostram que mulheres recebem 10% do total distribuído de direitos autorais no país, e entre os 100 maiores arrecadadores da União, apenas 11 são mulheres.
No quesito de distribuição de renda por categoria, as autoras se destacaram, concentrando 73% do total recebido. Em contrapartida, as versionistas e produtoras fonográficas registraram a menor participação, com apenas 1% cada da arrecadação. Intérpretes corresponderam a 23% e as músicas executantes, a 2%.
Na análise por região, observou-se que 60% das associadas à UBC estão no Sudeste, 17% no Nordeste, 11% no Sul, 8% no Centro-Oeste e apenas 3% no Norte.
Pelo lado positivo, em 2025, ocorreram avanços nos bastidores: o registro de obras compostas por autoras ou versionistas aumentou em 12%, enquanto o cadastro de fonogramas produzidos por mulheres cresceu em 13%. Em relação à 2024, a melhor colocação feminina na lista de arrecadação avançou do 21º para o 16º lugar.
Entre os segmentos mais lucrativos para as mulheres estão de Rádio e Show, que representam, cada um, 17% da arrecadação total, e streaming de música, com 11%. O Cinema é o segmento de menos arrecadação, representando 0,5% da renda total das mulheres.
Assédio no mercado da música
Além da disparidade financeira, o estudo indica que a persistência da discriminação e do assédio seguem limitando o avanço feminino na música. No primeiro trimestre de 2026, a UBC realizou um levantamento digital com a participação de mais de 280 mulheres profissionais do setor.
As respostas indicam a permanência de práticas misóginas e desigualdades que afetam diretamente a atuação e a segurança das mulheres. 65% relataram já ter vivido assédio no contexto profissional; com destaque para assédio sexual (74%), assédio verbal (63%) e assédio moral (56%); e 35% afirmaram ter enfrentado algum tipo de violência, principalmente psicológica (72%), além de toque físico sem consentimento (58%) e violência verbal (38%).
Para 96% das entrevistadas, homens foram os autores responsáveis por essas situações. 75% declararam que tiveram danos emocionais após o ocorrido e 50% se afastou de pessoas ou ambientes de trabalho. Simultaneamente, 49% não buscou apoio ou compartilhou o o ocorrido, sinalizando barreiras para denúncia e acolhimento.
Em relação à discriminação, 63% das mulheres afirmam ter sido ignoradas ou interrompidas em contextos profissionais, 59% receberam comentários que desqualificaram sua competência e 52% tiveram créditos omitidos ou minimizados. Os ambientes mais associados a preconceitos foram reuniões de negócio (45%), bastidores de shows (31%), passagem de som (27%) e processos de contratação e seleção de equipe (26%).
A pesquisa também destaca o impacto da maternidade: 60% das mulheres com filhos afirmam que sua carreira foi afetada, seja recebendo menos convites e oportunidades de trabalho, realizando menos viagens ou turnês ou escutando comentários preconceituosos sobre dedicação à maternidade.
Uma profissional, que preferiu manter o anonimato, contou: "um produtor de um grande festival do Nordeste, num comprimento passou a mão com vontade na minha cintura e subiu até o seio. Na hora fiquei sem reação. Meu companheiro viu a cena e ficou perplexo. Não me manifestei para não fechar uma porta, para que no momento oportuno, eu use a minha voz no palco."
a letrista Iara Ferreira também fez uma denúncia. "Um músico 30 anos mais velho que eu, que eu admirava e super celebrado no meio, me convidou para compormos juntos. Quando cheguei a sua casa, havia uma cena preparada para um encontro amoroso (vinho, flores…) e ele se 'declarou' dizendo que ele mesmo já tinha feito a letra que tinha me pedido pra fazer, e era dedicada a mim", relatou.
Me senti completamente desrespeitada e humilhada como profissional. Passei um bom tempo duvidando de minha capacidade, pensando que os homens que se aproximavam de mim dizendo que gostavam de meu trabalho, na verdade o faziam com segundas intenções.
O trabalho da UBC
Fundada em 1942, a UBC é uma associação sem fins lucrativos que visa defender os interesses dos titulares de direitos autorais de músicas e distribuir os rendimentos gerados pela sua utilização. Desde a primeira edição do relatório, em 2017, houve um crescimento de 229% no número de mulheres associadas à UBC, o que reflete o interesse e a busca por reconhecimento na indústria.
Paula Lima, Diretora-Presidenta da UBC, reafirma a necessidade de lutar por mudanças estruturais na indústria da música. "O relatório 'Por Elas Que Fazem a Música 2026' revela que o crescimento da presença feminina na UBC é resultado de um processo contínuo de transformação e de um compromisso real com a equidade", afirma. "[Para mim, é uma honra] reafirmar o compromisso de fortalecer políticas de inclusão, valorizar o talento feminino e contribuir para a construção de uma indústria musical cada vez mais diversa, justa e verdadeiramente representativa".
Fernanda Takai, diretora da UBC, também comenta sobre o levantamento. "Embora os números estejam se expandindo, autoras, versionistas, intérpretes, musicistas e produtoras ocupam apenas 17% da base total da associação, e constatamos recortes muito claros sobre concentração geográfica e também etária", aponta.
A pesquisa "Por Elas Que Fazem a Música 2026" está disponível na íntegra no site da UBC.