Domo de Orgia, sem dinheiro ou comércio, mortes e mais: por dentro do festival Burning Man
Realizado anualmente no deserto de Nevada, o evento reúne até 70 mil pessoas em uma cidade temporária sem dinheiro, com nudez comum e música eletrônica sem parar
O Burning Man é um experimento social e artístico anual no deserto de Nevada que reúne 70 mil pessoas em uma metrópole temporária e autossuficiente, sem dinheiro, comércio ou lineup oficial. Famoso por instalações icônicas como o Templo e o Domo da Orgia, o evento enfrenta críticas sobre elitização, drogas e clima extremo. Em 2026, a edição foi marcada por tempestades de areia, prisões e um recorde trágico de três mortes, mantendo o festival no centro de intensos debates e fascínio cultural.
O Burning Man não é exatamente um festival de música. É uma cidade! Na última semana de agosto e na primeira de setembro, uma metrópole temporária chamada Black Rock City surge do nada no Deserto de Black Rock, em Nevada, nos Estados Unidos, e desaparece por completo uma semana depois. Em 2026, o evento ocorreu de 30 de agosto a 7 de setembro, reuniu cerca de 70 mil pessoas e terminou com o maior número de mortes em um único ano em seus 40 anos de história.
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Mas as mortes são apenas um dos capítulos de um evento que, desde 1986, desafia qualquer rótulo. O Burning Man já foi descrito como experimento social, religião secular, o maior encontro de arte efêmera do mundo e uma das experiências mais radicais que alguém pode viver em território americano. Nenhuma dessas definições está errada. Nenhuma delas, porém, dá conta do todo.
Para entender o que acontece lá dentro, é preciso entender o que não existe: dinheiro, palco principal, lineup oficial, espectadores. Todo mundo participa. Tudo é construído pelos próprios Burners — nome dado às pessoas que frequentam o evento. E, ao final, tudo é desmontado. O deserto deve ser deixado exatamente como foi encontrado.
Como tudo começou
O Burning Man nasceu em 22 de junho de 1986, em uma praia de San Francisco, quando Larry Harvey e Jerry James decidiram queimar uma escultura de madeira em forma humana para celebrar o solstício de verão. O ato atraiu curiosos, virou ritual e cresceu rapidamente. Em 1988, a escultura ganhou o nome de The Man, e o evento passou a ser chamado de Burning Man.
No início dos anos 1990, o crescimento do público tornou a praia pequena demais, e o encontro se mudou para o Deserto de Black Rock, em Nevada, onde permanece até hoje. A mudança foi definitiva: o deserto ofereceu a escala e o isolamento que a proposta exigia. Sem vizinhos, sem infraestrutura preexistente, sem nada, apenas o que as pessoas participantes construíssem.
Além do The Man, queimado na penúltima noite em meio a fogos de artifício e celebrações, cada edição também ergue e queima um Templo — estrutura construída ao longo da semana que funciona como espaço de luto, memória e meditação. Entretanto, enquanto a queima do Man é barulhenta e festiva, a do Templo é silenciosa e comovente.
Sem dinheiro, sem comércio, sem espectadores
Uma das regras mais radicais do Burning Man é a proibição de dinheiro e comércio dentro de Black Rock City. As únicas exceções são gelo e café, vendidos em pontos específicos pela organização. Todo o restante se sustenta por uma economia do presente: as pessoas levam comida, água e suprimentos para a semana inteira e compartilham o que têm com quem precisar, sem esperar nada em troca.
Não existe palco principal, não existe lineup oficial e não existe espectador: todo mundo participa. A própria cidade é construída pelas pessoas que chegam dias antes para montar acampamentos, instalações de arte e estruturas sonoras. As ruas de Black Rock City se organizam em semicírculo ao redor da escultura do Man, e cada endereço segue uma lógica própria de horas e letras.
Os dez princípios que guiam o evento foram escritos pelo fundador Larry Harvey em 2004 e incluem autoexpressão radical, autossuficiência, inclusão radical, participação e "não deixar rastros". Ou seja, ao final da semana, tudo o que foi construído precisa ser desmontado, e o deserto deve ficar exatamente como estava. O princípio da descommodificação proíbe não só o dinheiro, mas também qualquer forma de patrocínio ou publicidade dentro do evento. Em teoria, nenhuma marca existe em Black Rock City.
A música
Não existe lineup oficial no Burning Man — e nunca existiu. O que há são os art cars e os sound camps: carros alegóricos e acampamentos temáticos que funcionam como palcos móveis ou fixos, organizados pelas próprias pessoas participantes. Os gêneros dominantes são techno, house, deep house, psytrance, ambient e eletrônica experimental, tocando sem parar durante os nove dias do evento.
Alguns sound camps se tornaram lendários ao longo das edições. O Robot Heart é conhecido pelos sets ao amanhecer, com house e techno profundos, e por receber nomes como Diplo, Carl Cox e Tycho ao longo dos anos. O Mayan Warrior, art car mexicano com chifres que disparam fogo, é um dos mais espetaculares visual e musicalmente. O Opulent Temple, um dos mais antigos, foca em drum and bass e techno pesado. O Distrikt comanda as festas diurnas com house e techno mais acessíveis.
Em 2026, a edição teve o tema "Axis Mundi" e contou, entre os sets confirmados pelos próprios camps, com Danny Tenaglia — em sua primeira aparição no festival —, John Summit, Diplo, Major Lazer, Monolink e Infected Mushroom. O brasileiro Alok se apresentou sob o pseudônimo Something Else, em sua estreia na Playa. O Favela Art Car — ponto de encontro de brasileiras e brasileiros — também trouxe uma programação nacional robusta, com Vintage Culture, Bhaskar e outros nomes da cena eletrônica do país.
O Domo da Orgia
Dentro de Black Rock City, existe uma instalação que concentra boa parte da curiosidade — e da controvérsia — em torno do evento: o Domo da Orgia, ou Orgy Dome, operado desde 2003 pela organização Consensuality Incorporated. Apesar do nome, não se trata de uma única cúpula: são tendas interligadas que ocupam cerca de 371 metros quadrados, decoradas com 80 colchões, sofás, cortinas de chiffon e 34 aparelhos de ar-condicionado portáteis.
O espaço é destinado a encontros íntimos e consensuais entre pessoas adultas e funciona com regras rígidas: é obrigatório estar acompanhado, todo mundo passa por uma orientação sobre consentimento antes de entrar, há checagem de identidade na entrada, e pessoas visivelmente sob efeito de álcool ou outras drogas são barradas. Dispensers automáticos de lubrificante, acionados por sensor de movimento, ficam disponíveis pelo local. Casais e grupos têm prioridade; pessoas sozinhas precisam cumprir critérios adicionais para entrar.
Em 2026, uma forte tempestade de areia danificou seriamente a estrutura antes do início do evento, com prejuízos estimados em até US$ 30 mil pela organização, mas o espaço foi reconstruído e funcionou normalmente durante o festival.
As mortes de 2026
A edição de 2026 terminou com o maior número de mortes em um único ano na história do festival, segundo levantamento do Reno Gazette Journal (via Metrópoles). Foram três óbitos confirmados, o triplo da média histórica de um por edição.
A primeira vítima foi Sampson Tshombe, de 62 anos, encontrado caído em uma rua de Black Rock City na tarde de 3 de setembro e declarado morto no hospital temporário do festival, o Rampart, pouco depois das 18h30.
Dois dias depois, em 5 de setembro, Craig Mann, de 60 anos, foi encontrado sem vida no trailer que dividia com o parceiro e outras pessoas do acampamento. A terceira morte foi a de Armando Ramirez, de 51 anos, que passou mal e morreu a caminho de um hospital em Reno. Em nenhum dos casos foram encontrados indícios de crime — as causas dependem de autópsias e exames toxicológicos.
O xerife do condado de Pershing, Jerry Allen, comentou a situação em comunicado: "Embora tenhamos uma média de uma morte por ano no festival, já tivemos duas dentro das dependências do evento, e recebi informações sobre uma terceira pessoa que morreu a caminho de um hospital". Com os três óbitos de 2026, o festival soma ao menos 11 mortes desde que passou a ser realizado no deserto de Black Rock, em 1990.
Drogas, tempestades e outras polêmicas
O Burning Man é cercado por controvérsias que vão muito além das mortes. Em 2023, chuvas intensas transformaram o leito do deserto em uma lama intransitável, prendendo 70 mil pessoas participantes por dias e gerando comparações com o infame Fyre Festival. Naquele mesmo ano, houve 13 prisões e uma morte confirmada por intoxicação de cocaína, etanol e MDMA. Além disso, a presença policial dentro do festival é real. Em 2026, 34 pessoas foram presas por tráfico ou venda de drogas só na primeira semana.
Celebridades como Elon Musk, Jeff Bezos e Will Smith já foram vistas no evento ao longo dos anos, o que alimentou debates internos sobre a "elitização" de um festival fundado em princípios de anticonsumismo e igualdade. O ingresso de 2026 custou entre US $575 e US$ 1.400 (de R$ 3 mil a R$ 7 mil, na cotação atual), dependendo da modalidade — um valor que, para muitas pessoas veteranas, contradiz o espírito que deu origem ao Burning Man em 1986. Há quem diga que o festival se tornou um playground de milionários disfarçados de contraculturais.
O perfil do público também mudou. O Burning Man começou como um encontro underground de artistas e ativistas, mas cresceu — e essa escala tem um preço. O custo de participar, somado a gastos com equipamentos, água, comida e transporte até o meio do deserto de Nevada, pode facilmente ultrapassar US$ 3 mil por pessoa. E, ainda assim, 70 mil pessoas aparecem todo ano, constroem uma cidade do zero, a habitam por uma semana e a apagam da face da Terra. Polêmico como é, o Burning Man continua sendo, décadas depois, um dos experimentos sociais mais radicais que existem.
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